{"id":9049,"date":"2025-05-07T09:26:25","date_gmt":"2025-05-07T09:26:25","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=9049"},"modified":"2025-05-07T09:26:26","modified_gmt":"2025-05-07T09:26:26","slug":"as-palavras-das-cantigas-de-jose-carlos-ary-dos-santos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2025\/05\/07\/as-palavras-das-cantigas-de-jose-carlos-ary-dos-santos\/","title":{"rendered":"As palavras das cantigas, de Jos\u00e9 Carlos Ary dos Santos"},"content":{"rendered":"\n<p>O Pa\u00eds que vivemos antes de Abril de 1974 era um territ\u00f3rio de destro\u00e7os onde, apesar dos pesares, muitas flores brotavam do calcinado ch\u00e3o. Muitos homens e mulheres viviam cercados nos dias clandestinos, outros encarcerados em pris\u00f5es infectas, no territ\u00f3rio continental, nas ilhas e nas col\u00f3nias. Havia, nesse Pa\u00eds fechado, muitos que tentavam, se uma luz surgisse, abrir portas e janelas para que um pequeno raio por elas entrasse. Os poetas, os escritores, os cantores, os trabalhadores do teatro, do cinema, da r\u00e1dio, constru\u00edam formas subtis, escreviam nas entrelinhas, cantavam versos que denunciavam a mis\u00e9ria e o cerco, acrescentavam dicas \u00e1cidas \u00e0s r\u00e1bulas revisteiras, contornavam com saber e talento o olho vigilante dos censores.<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00fasica teve, como arma de den\u00fancia dessa situa\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica, uma fun\u00e7\u00e3o determinante nesses tempos de grades. A come\u00e7ar pelas&nbsp;<em>Can\u00e7\u00f5es Heroicas,&nbsp;<\/em>de Fernando Lopes-Gra\u00e7a, passando pelas cantigas\/baladas de Jos\u00e9 Afonso, de Lu\u00eds C\u00edlia, Adriano Correia de Oliveira, Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco, S\u00e9rgio Godinho, Manuel Freire e outros, at\u00e9 \u00e0 nova gera\u00e7\u00e3o da m\u00fasica popular urbana, com Fernando Tordo, Carlos Mendes, Paulo de Carvalho e um fadista de exce\u00e7\u00e3o, Carlos do Carmo. A eles se juntou um poeta de raro virtuosismo e solta imagina\u00e7\u00e3o, Jos\u00e9 Carlos Ary dos Santos. Ary \u00e9 hoje justamente considerado \u00abo grande poeta de Abril\u00bb, n\u00e3o apenas porque o cantou de formas v\u00e1rias, na can\u00e7\u00e3o popular, em r\u00e1bulas de revista e na poesia erudita, mas igualmente no modo afirmativo, tocante e a ro\u00e7ar o g\u00e9nio, como esses poemas foram constru\u00eddos e como troavam na sua poderosa voz como alavancas de luta e de inconformismo, de coragem e determina\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas centenas de cantigas escritas por Ary, para muitas vozes, para muitos festivais, com muitos pr\u00e9mios, com o povo a trautear as mais conhecidas como se dele fossem, e eram, da&nbsp;<em>Tourada,&nbsp;<\/em>\u00e0&nbsp;<em>Can\u00e7\u00e3o de Madrugar,&nbsp;<\/em>de&nbsp;<em>Meu Amor, Meu Amor&nbsp;<\/em>que Am\u00e1lia cantou divinamente,&nbsp;<em>a Estrela da Tarde,&nbsp;<\/em>dos fados desse \u00e1lbum m\u00edtico que \u00e9&nbsp;<em>Um Homem na Cidade,&nbsp;<\/em>aos versos que descrevem um Pa\u00eds que recuperou as formas da alegria, no \u00e1lbum&nbsp;<em>Um Homem no Pa\u00eds,&nbsp;<\/em>ambos cantados por Carlos do Carmo e pelos quais andam m\u00fasicos de pur\u00edssima fonte, como Ant\u00f3nio Vitorino d\u2019Almeida, Carlos Paredes, Joaquim Lu\u00eds Gomes, Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco, Frederico de Brito, Tordo, Zeca Afonso, Jos\u00e9 Lu\u00eds Tinoco, e o olhar rom\u00e2ntico de Ary se espalha por essas geografias rendido de emo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><em>As Palavras das Cantigas, de Ary,&nbsp;<\/em>editado aquando da passagem dos 80 anos do nascimento do poeta, foi por ele organizado, t\u00edtulo a t\u00edtulo, cantor\/a a cantor\/a, numa selec\u00e7\u00e3o que perfaz um total de 77 poemas (Ary escrevia \u201cpoemas\u201d, n\u00e3o escrevia \u201cletras\u201d, a sua arte estava muito para al\u00e9m dessa mera forma de integrar a can\u00e7\u00e3o), ou seja, cerca de um d\u00e9cimo das cantigas que ter\u00e1 escrito para quase todas as grandes vozes, do fado \u00e0 cantiga popular, da nossa m\u00fasica contempor\u00e2nea, est\u00e3o presentes nesta edi\u00e7\u00e3o, para al\u00e9m de um magn\u00edfico Pref\u00e1cio escrito por Nat\u00e1lia Correia e as notas de um percurso escritas e organizadas por Ruben de Carvalho.<\/p>\n\n\n\n<p>Jos\u00e9 Carlos Ary dos Santos, n\u00e3o foi apenas o \u201ccantor de Abril, o poeta de Lisboa\u201d-&nbsp;<em>\u00c9 da voz do meu povo uma traineira\/que j\u00e1 n\u00e3o pode mais andar \u00e0 toa\/e assento a minha voz na Pra\u00e7a da Ribeira\/na pra\u00e7a da can\u00e7\u00e3o que tem Lisboa &#8211;&nbsp;<\/em>foi, decisivamente um grande poeta, uma das maiores e plurais vozes da nossa po\u00e9tica contempor\u00e2nea.<\/p>\n\n\n\n<p>A ler, a reler, sempre. A sua voz est\u00e1 t\u00e3o junto de n\u00f3s, que ainda nos magoa de reconhecimento e de saudade.<\/p>\n\n\n\n<p><em>As Palavras das Cantigas, de Jos\u00e9 Carlos Ary dos Santos \u2013 6\u00aa. edi\u00e7\u00e3o\/2018, Edi\u00e7\u00f5es Avante!<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ary \u00e9 hoje justamente considerado \u00abo grande poeta de Abril\u00bb, n\u00e3o apenas porque o cantou de formas v\u00e1rias, na can\u00e7\u00e3o popular, em r\u00e1bulas de revista e na poesia erudita, mas igualmente no modo afirmativo, tocante e a ro\u00e7ar o g\u00e9nio, como esses poemas foram constru\u00eddos e como troavam na sua poderosa voz como alavancas de luta e de inconformismo, de coragem e determina\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica.<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":9050,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[52],"tags":[],"coauthors":[108],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9049"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9049"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9049\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9052,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9049\/revisions\/9052"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9050"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9049"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9049"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9049"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=9049"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}