{"id":9013,"date":"2025-05-01T08:33:03","date_gmt":"2025-05-01T08:33:03","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=9013"},"modified":"2025-06-03T13:47:14","modified_gmt":"2025-06-03T13:47:14","slug":"o-apagao-neoliberal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2025\/05\/01\/o-apagao-neoliberal\/","title":{"rendered":"O apag\u00e3o neoliberal"},"content":{"rendered":"\n<p>Apesar da relativa calma, o apag\u00e3o revelou falhas preocupantes que podem ser fatais em caso de cat\u00e1strofe. Oito anos depois da trag\u00e9dia dos inc\u00eandios que vitimaram 66 pessoas, sobretudo em Pedr\u00f3g\u00e3o Grande, o Sistema Integrado de Redes de Emerg\u00eancia e Seguran\u00e7a de Portugal (SIRESP) voltou a falhar, dificultando o trabalho dos bombeiros, prote\u00e7\u00e3o civil e INEM. Em v\u00e1rios centros de Sa\u00fade faltaram geradores para garantirem o bom estado de vacinas e medicamentos e o presidente do Sindicato Nacional do Corpo da Guarda Prisional diz que houve pris\u00f5es onde os geradores n\u00e3o arrancaram: \u201cEst\u00e1 um caos\u201d. Para al\u00e9m da cconfus\u00e3o expet\u00e1vel nos transportes p\u00fablicos e no tr\u00e2nsito, os operadores de telecomunica\u00e7\u00f5es n\u00e3o conseguiram garantir uma conex\u00e3o est\u00e1vel para que as pessoas se mantivessem informadas sobre o que fazer. Sem qualquer controlo, os maiores supermercados decidiram fechar, deixando milhares sem acesso a bens essenciais como \u00e1gua pot\u00e1vel, ao mesmo tempo que faltou o abastecimento de \u00e1gua em v\u00e1rias zonas de muitas cidades do pa\u00eds. Como aconteceu durante a pandemia, foram os trabalhadores que garantiram a poss\u00edvel normalidade num pa\u00eds \u00e0 deriva, entregue a si pr\u00f3prio.<\/p>\n\n\n\n<p>Em julho de 2021, o respons\u00e1vel pela Dire\u00e7\u00e3o Geral de Energia e Geologia alertava para o risco de falhas \u201ca muito curto prazo\u201d devido ao encerramento da \u00faltima central el\u00e9trica a carv\u00e3o em Portugal. Segundo Jo\u00e3o Bernardo, o sistema vivia sobre cinzas e estava dependente da importa\u00e7\u00e3o de Espanha. Um ano depois, o secret\u00e1rio de Estado da Energia, Jo\u00e3o Galamba, dava a cara pelo governo de Ant\u00f3nio Costa e defendia de forma perempt\u00f3ria o encerramento da Central Termoel\u00e9trica do Pego, em Abrantes, a \u00faltima a funcionar a carv\u00e3o, garantindo que n\u00e3o haveria qualquer problema de abastecimento el\u00e9trico. Havia j\u00e1 fechado a Central Termoel\u00e9trica de Sines e, com grande pompa e circunst\u00e2ncia, o executivo anunciava esta nova conquista no campeonato da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica. Apesar de deixar de produzir energia com recurso ao carv\u00e3o, Portugal n\u00e3o passou a viver exclusivamente de energias renov\u00e1veis. Meses depois, v\u00e1rios jornais noticiavam que Portugal passara a importar eletricidade produzida em centrais espanholas a carv\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>No mesmo ano em que Jo\u00e3o Galamba garantia aos portugueses que tudo correria bem, Pedro S\u00e1nchez, chefe do governo espanhol, assegurava tamb\u00e9m aos seus cidad\u00e3os a estabilidade da rede el\u00e9trica daquele Estado, declara\u00e7\u00f5es que ficaram virais nas redes sociais por estes dias. F\u00ea-lo precisamente no rescaldo da invas\u00e3o russa sobre a Ucr\u00e2nia em pelo menos tr\u00eas ocasi\u00f5es. Contudo, ao contr\u00e1rio do primeiro-ministro demission\u00e1rio portugu\u00eas, Pedro S\u00e1nchez anunciou que ser\u00e3o adotadas reformas e medidas \u201cpara garantir que isto n\u00e3o volta a acontecer\u201d e insistiu que vai responsabilizar todos os operadores privados, tendo mesmo criado uma comiss\u00e3o de investiga\u00e7\u00e3o para encontrar as causas e os respons\u00e1veis do apag\u00e3o que afetou v\u00e1rios pa\u00edses, entre os quais Portugal.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com v\u00e1rios especialistas, a liberaliza\u00e7\u00e3o do mercado permitiu que, devido aos interesses econ\u00f3micos, os grandes operadores el\u00e9tricos importem energia de Espanha a pre\u00e7os muito mais baratos, enquanto mant\u00eam as centrais portuguesas paradas. Segundo Dem\u00e9trio Alves, investigador em ci\u00eancia na HTC\/UNL e doutorado em planeamento e ordenamento do territ\u00f3rio, no momento do apag\u00e3o, era isso que estava a acontecer, sublinhando que as centrais solares e e\u00f3licas \u201cn\u00e3o t\u00eam qualquer capacidade de autorregula\u00e7\u00e3o da frequ\u00eancia\u201d. O consumo nacional estava nos 8 mil megawatts, dos quais 3 mil correspondiam a importa\u00e7\u00f5es de Espanha. A produ\u00e7\u00e3o nacional era sobretudo fotovoltaica e houve uma redu\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e\u00f3lica que poderia ter sido compensada com a produ\u00e7\u00e3o hidroel\u00e9trica. Como era mais barato importar eletricidade de Espanha, essa acabou por ser, uma vez mais, a op\u00e7\u00e3o escolhida.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar dos pre\u00e7os baixos, as energias fotovoltaica e e\u00f3lica t\u00eam demonstrado ser fontes com grandes varia\u00e7\u00f5es, o que pode p\u00f4r em causa a estabilidade da rede el\u00e9trica. Quando se deu o apag\u00e3o, a produ\u00e7\u00e3o de energia excedia em muito o consumo. \u201c\u00c0s 10h45 (hora portuguesa), a produ\u00e7\u00e3o espanhola excedeu o consumo em 130%, passando a ser imposs\u00edvel escoar electricidade num pa\u00eds como Espanha \u00e0quela hora solar\u201d, explica Dem\u00e9trio Alves. \u201cA rede torna-se, portanto, muito inst\u00e1vel e o mais pequeno solu\u00e7o nos equipamentos pode determinar o blackout\u201d. Poderia dizer-se que o desastre era inevit\u00e1vel, de acordo com Dem\u00e9trio Alves, j\u00e1 que as energias fotovoltaica e e\u00f3lica \u201ct\u00eam de estar sempre ligadas \u00e0 rede porque n\u00e3o s\u00e3o despach\u00e1veis\u201d, ou seja, \u201cn\u00e3o h\u00e1 a possibilidade t\u00e9cnica de as ligar e desligar de uma forma modulada\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEste apag\u00e3o \u00e9 claramente uma consequ\u00eancia da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica feita sob o pretexto clim\u00e1tico mas, de facto, sob os interesses neoliberais. Por isso lhe chamo transi\u00e7\u00e3o ecoliberal\u201d, afirma. \u201cUma raz\u00e3o para um t\u00e3o longo tempo de reposi\u00e7\u00e3o pode ser deduzida das pr\u00f3prias declara\u00e7\u00f5es do administrador da REN. S\u00f3 t\u00eam duas centrais com capacidade para restaurar o sistema. Est\u00e3o a pensar em contratar mais duas para o ano. Se fosse um setor nacionalizado, n\u00e3o ter\u00edamos esses problemas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Mira Amaral, antigo ministro da Ind\u00fastria e Energia de v\u00e1rios governos chefiados por Cavaco Silva, foi outra das vozes cr\u00edticas do modo como foi levado a cabo o processo de transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica. Em direto na SIC Not\u00edcias, responsabilizou os dirigentes do PS e do PSD pelo estado atual da energia no pa\u00eds, considerando \u201cprematuro\u201d e \u201cirrespons\u00e1vel\u201d o fecho das centrais a carv\u00e3o. Apontou a necessidade de um plano de deslastre com o objetivo de interromper a eletricidade em determinadas zonas para evitar a sobrecarga ou instabilidade no sistema. Nesse sentido, recordou que o arranque da rede teve de ser feito atrav\u00e9s das centrais da Tapada do Outeiro, em Gondomar, e de Castelo de Bode, em Tomar, as \u00fanicas com o sistema blackstart, que permite a sua liga\u00e7\u00e3o aut\u00f3noma sem depend\u00eancia da rede externa. \u201cCasa roubada, trancas \u00e0 porta\u201d, Lu\u00eds Montenegro anunciou no dia seguinte ao apag\u00e3o que quer mais duas centrais com o mesmo mecanismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Por sua vez, a Fiequimetal, federa\u00e7\u00e3o intersindical que abrange, entre outros setores, os trabalhadores da energia el\u00e9trica, lan\u00e7ou um comunicado em que destaca a import\u00e2ncia da energia enquanto bem essencial, \u201cquer para garantir necessidades b\u00e1sicas, quer para assegurar a seguran\u00e7a e o normal funcionamento da sociedade e da economia\u201d. Para esta estrutura intersindical, ficaram em evid\u00eancia \u201cas fragilidades no Sistema El\u00e9trico Nacional, designadamente na seguran\u00e7a da rede, na produ\u00e7\u00e3o, na distribui\u00e7\u00e3o, na gest\u00e3o e no controlo\u201d. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida, de acordo com estes trabalhadores, que isto resulta \u201cda privatiza\u00e7\u00e3o e da liberaliza\u00e7\u00e3o deste setor estrat\u00e9gico\u201d, com a necessidade de \u201cuma profunda discuss\u00e3o sobre os n\u00edveis de interliga\u00e7\u00e3o e depend\u00eancia de Portugal face a Espanha\u201d. A soberania energ\u00e9tica, explica a Fiequimetal, \u00e9 uma necessidade e, nesse sentido, o pa\u00eds \u201cn\u00e3o pode estar ref\u00e9m de uma pol\u00edtica economicista e de liberaliza\u00e7\u00e3o do mercado energ\u00e9tico e, muito menos, sujeito a imposi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que, a pretexto de objetivos ambientais, conduziram ao encerramento de centrais termoel\u00e9ctricas, como as de Sines e do Pego, sem antes serem criadas alternativas de produ\u00e7\u00e3o\u201d, garantindo que poderiam ter minimizado o apag\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>No momento em que aconteceu o incidente, 30% do consumo em Portugal estava a ser garantido por Espanha, mas j\u00e1 houve situa\u00e7\u00f5es em que a importa\u00e7\u00e3o chegou aos 50%, n\u00e3o porque n\u00e3o pudesse ser produzida no nosso pa\u00eds mas porque \u00e9 mais barato aos operadores em Portugal comprar l\u00e1 fora. Para a Fiequimetal isso n\u00e3o corresponde ao interresse do pa\u00eds, apenas aos lucros das empresas. Por isso, alerta para a necessidade de o Estado assumir \u201cum papel preponderante\u201d na gest\u00e3o dos operadores do setor, destacando que os trabalhadores deram o seu melhor para repor o servi\u00e7o \u201co mais rapidamente poss\u00edvel, com garantias de seguran\u00e7a\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Mercado ib\u00e9rico de fixa\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os<\/h2>\n\n\n\n<p>Depois da privatiza\u00e7\u00e3o da EDP, processo iniciado pelo governo de Ant\u00f3nio Guterres e aprofundado pelos sucessivos executivos, e da liberaliza\u00e7\u00e3o do setor, as diferentes empresas que operam no mercado definem os seus pre\u00e7os atrav\u00e9s de leil\u00f5es. Por imposi\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Europeia, todos os dias do ano, \u00e0s 11 horas portuguesas, realiza-se uma sess\u00e3o na qual se estipulam os pre\u00e7os e energias da eletricidade em toda a Europa para as vinte e quatro horas do dia seguinte. O pre\u00e7o e o volume de energia numa hora determinada s\u00e3o estabelecidos pelo cruzamento entre a oferta e a procura, seguindo o modelo acordado e aprovado por todos os mercados europeus.<\/p>\n\n\n\n<p>Os agentes compradores e vendedores que se encontram em Espanha ou em Portugal apresentam as suas ofertas ao mercado di\u00e1rio atrav\u00e9s do Operador de Mercado El\u00e9trico (OMIE), designado para a gest\u00e3o do mercado di\u00e1rio e intradi\u00e1rio de eletricidade na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica. S\u00f3 que a aquisi\u00e7\u00e3o de eletricidade para uma determinada hora \u00e9 ao pre\u00e7o mais caro de todo o tipo de origem da energia em oferta. Por exemplo, se para uma determinada hora, 90% da energia adquirida for de origem hidroel\u00e9trica, que \u00e9 mais barata, e 10% de g\u00e1s natural, muito mais caro, o valor a pagar por todo o produto adquirido ser\u00e1 ao pre\u00e7o do g\u00e1s natural.<\/p>\n\n\n\n<p>Em sentido contr\u00e1rio, em 2022, 81% dos 347 servi\u00e7os renacionalizados pela Alemanha pertenciam ao setor da energia el\u00e9trica. H\u00e1 um ano, o Reino Unido decidiu criar uma empresa p\u00fablica el\u00e9trica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 28 de abril, milh\u00f5es de pessoas em Portugal, Espanha e Fran\u00e7a enfrentaram um corte de energia durante mais de 10 horas. Uma vez mais, a privatiza\u00e7\u00e3o e a liberaliza\u00e7\u00e3o de um setor estrat\u00e9gico da economia p\u00f5e em causa o regular funcionamento da vida das pessoas.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":9014,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[55],"tags":[],"coauthors":[71],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9013"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9013"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9013\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9161,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9013\/revisions\/9161"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9014"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9013"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9013"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9013"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=9013"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}