{"id":8975,"date":"2025-04-03T20:02:17","date_gmt":"2025-04-03T20:02:17","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=8975"},"modified":"2025-05-07T09:53:57","modified_gmt":"2025-05-07T09:53:57","slug":"deseja-se-mulher-homenagem-a-liberdade-da-grande-fernanda-lapa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2025\/04\/03\/deseja-se-mulher-homenagem-a-liberdade-da-grande-fernanda-lapa\/","title":{"rendered":"\u201cDeseja-se Mulher\u201d: homenagem \u00e0 liberdade da grande Fernanda Lapa"},"content":{"rendered":"\n<p>Segundo a encenadora e actriz Cucha Carvalheiro, a homenagem s\u00f3 podia ter como cen\u00e1rio um cabaret. \u00c9 na semipenumbra deste espa\u00e7o onde se toca piano ao vivo, que vamos acompanhando, de forma n\u00e3o linear, o percurso de Fernanda, atrav\u00e9s das actrizes Ana Sampaio e Maia, Carla Bolito, Margarida Cardeal e Marta Lapa, que, v\u00e3o tomando o corpo e as palavras da actriz ao longo de 77 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>A liberdade de express\u00e3o, a luta pela igualdade de direitos das mulheres, o inconformismo face a um pa\u00eds escuro e silencioso durante a ditadura, a afirma\u00e7\u00e3o de um lugar colectivo e individual como artista foram as suas batalhas centrais. Fernanda ainda estudou assist\u00eancia social, mas percebeu que o seu caminho se fazia de reflex\u00e3o cultural e vontade criadora. Casou e foi m\u00e3e. Teve desgostos familiares. Estudou fora do pa\u00eds; trabalhou e aprendeu com grandes figuras da encena\u00e7\u00e3o europeia; viveu o dada\u00edsmo; e foi elogiada na primeira pe\u00e7a como actriz por Almada Negreiros, precisamente na pe\u00e7a \u201cDeseja-se Mulher\u201d (da autoria de Almada). Viu um pa\u00eds fazer explodir uma \u201ccobra\u201d que era o fascismo e uma ponte, ponte a que depois deram o nome de Abril. Trouxe ao palco as grandes dramaturgias gregas, especialmente \u201cMedeia\u201d e \u201cAs Bacantes\u201d (ambas de Eur\u00edpides). Em 1995, ap\u00f3s uma conversa com outras mulheres, tem a ideia de formar a Escola de Mulheres, que ainda hoje desenvolve um repert\u00f3rio c\u00e9nico \u00fanico. Este conjunto de mulheres, de gera\u00e7\u00f5es diferentes e experi\u00eancias diversas, tem como objectivos: a luta, no teatro portugu\u00eas, pela igualdade na condu\u00e7\u00e3o dos processos criativos, na pol\u00edtica de repert\u00f3rios ou no relacionamento com o poder.<\/p>\n\n\n\n<p>Em \u201cDeseja-se Mulher\u201d, o papel de dramaturga cabe, ironicamente, ao actor Lu\u00eds Gaspar (uma das dramaturgas que Fernanda Lapa encenou, a inglesa Timberlake Wertenbaker, \u00e9 referida no masculino em pesquisas online&#8230;), que vai vendo as colegas a interpretar os epis\u00f3dios de uma vida que se desenvolveu a par da hist\u00f3ria de um Portugal que, mesmo em democracia, continuou a relegar para segundo plano o trabalho art\u00edstico. Conhecemos ainda a Fernanda fumadora, que conduzia a alta velocidade pela avenida marginal; a Fernanda que preparava jantares para os amigos, e a Fernanda que juntava o inconcili\u00e1vel de ser comunista, casada e ter carta de condu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O desassossego de Fernanda<\/h2>\n\n\n\n<p>O texto do espect\u00e1culo, da autoria de Ana L\u00e1zaro, tra\u00e7a um caminho pela grande \u201cCasa\u201d que foi Fernanda Lapa. N\u00e3o entrando pela porta, vai descobrindo e revelando compartimentos, quartos e espa\u00e7os exteriores que suscitam a curiosidade por uma mulher que tomava \u00e0 letra uma das falas de Medeia:&nbsp;<em>\u201cNingu\u00e9m me suponha fraca e d\u00e9bil, nem sossegada; outro \u00e9 o meu car\u00e1cter, dura para os inimigos, ben\u00e9vola para os amigos.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Este cabaret recebe muitos amigos, encena pe\u00e7as, e nele acontecem acesas discuss\u00f5es. Tamb\u00e9m se fala da aus\u00eancia que \u00e9 sempre luto, por mais que se iluminem e dramatizem mem\u00f3rias. Mas \u00e9 um cabaret de um luto vibrante e alegre, como Fernanda Lapa desejaria. Ana L\u00e1zaro refere, no texto da folha de sala, que durante a investiga\u00e7\u00e3o:&nbsp;<em>\u201c\u00e0s vezes a mesma hist\u00f3ria era contada por duas pessoas de forma diferente. Se calhar, nenhuma das hist\u00f3rias \u00e9 verdadeira. Ou, se calhar todas as hist\u00f3rias s\u00e3o verdadeiras. E a verdade n\u00e3o reside no meio. Reside ali mesmo no ponto em que as duas hist\u00f3rias se contradizem. A mancha conta a hist\u00f3ria.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cDeseja-se Mulher\u201d capta significativos momentos pessoais, sociais e profissionais de uma Mulher. \u00c9 a celebra\u00e7\u00e3o do teatro. Do amor \u00e0 representa\u00e7\u00e3o e \u00e0 encena\u00e7\u00e3o, livres de preconceitos, abertos \u00e0 escuta das pessoas e do mundo. Longe do medo. \u00c9 este o legado de Fernanda Lapa nos seus alter egos, personagens e pe\u00e7as que a estimulavam, inquietavam e a faziam estar em cont\u00ednua cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O espect\u00e1culo \u201cDeseja-se Mulher\u201d esteve no Teatro S\u00e3o Luiz, em Lisboa, para celebrar a vida de uma das maiores actrizes e encenadoras do teatro portugu\u00eas contempor\u00e2neo, Fernanda Lapa (1943-2020). <\/p>\n","protected":false},"author":81,"featured_media":8976,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[48],"tags":[],"coauthors":[177],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8975"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/81"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8975"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8975\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9076,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8975\/revisions\/9076"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8976"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8975"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8975"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8975"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=8975"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}