{"id":8949,"date":"2025-04-03T08:44:42","date_gmt":"2025-04-03T08:44:42","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=8949"},"modified":"2025-04-15T13:49:43","modified_gmt":"2025-04-15T13:49:43","slug":"aterragem-de-emergencia-por-justica-climatica-e-mobilidade-para-todas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2025\/04\/03\/aterragem-de-emergencia-por-justica-climatica-e-mobilidade-para-todas\/","title":{"rendered":"Aterragem de emerg\u00eancia: por justi\u00e7a clim\u00e1tica e mobilidade para todas"},"content":{"rendered":"\n<p>Em 2023, na sua trajet\u00f3ria de \u201crecupera\u00e7\u00e3o\u201d p\u00f3s-Covid, a avia\u00e7\u00e3o representou 2% das emiss\u00f5es globais de CO2, o equivalente apenas a cerca de um ter\u00e7o do impacto total clim\u00e1tico do setor. Em 2024, o crescimento do tr\u00e1fego a\u00e9reo e respetivas emiss\u00f5es acentuou-se e ultrapassou os n\u00edveis pr\u00e9-Covid.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Portugal, os n\u00fameros s\u00e3o ainda mais dram\u00e1ticos. De acordo com a Associa\u00e7\u00e3o Zero<em>,<\/em>&nbsp;em 2022,<em>&nbsp;<\/em>as emiss\u00f5es totais da ind\u00fastria da avia\u00e7\u00e3o podem ter sido o equivalente a 32% das emiss\u00f5es do pa\u00eds (cerca de 16,2 milh\u00f5es de toneladas de CO2eq.). Tamb\u00e9m em Portugal, estas emiss\u00f5es est\u00e3o em rota ascendente.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Quem voa e quem paga o pre\u00e7o: uma quest\u00e3o de classe<\/h2>\n\n\n\n<p>A discrep\u00e2ncia entre o n\u00famero de pessoas que usufruem do transporte a\u00e9reo e as que sofrem os impactos devastadores deste tipo de transporte \u00e9 abismal. Embora a crise clim\u00e1tica afete desproporcionalmente e, acima de tudo, as pessoas mais pobres e marginalizadas \u2013 ou seja, a maioria da popula\u00e7\u00e3o mundial \u2013 apenas uma pequena minoria voa. Em 2018, cerca de 80% nunca tinham viajado de avi\u00e3o, enquanto que apenas 1% da popula\u00e7\u00e3o mundial era respons\u00e1vel por metade das emiss\u00f5es globais da avia\u00e7\u00e3o. Essa minoria corresponde \u00e0 camada mais rica da popula\u00e7\u00e3o, como relatam os autores G\u00f6ssling e Humpe. Segundo o grupo Marktest, Portugal segue a tend\u00eancia global.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, comunidades nas imedia\u00e7\u00f5es de aeroportos ou debaixo das rotas de aterragem e descolagem enfrentam n\u00edveis intoler\u00e1veis de polui\u00e7\u00e3o sonora e atmosf\u00e9rica \u2013 uma realidade familiar para cerca de 400 mil pessoas da Grande Lisboa. Popula\u00e7\u00f5es marginalizadas e de baixos rendimentos encontram-se, geralmente, em particular situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade, seja por uma maior exposi\u00e7\u00e3o aos impactos e\/ou por uma maior dificuldade de aceder a cuidados de sa\u00fade adequados para tratar doen\u00e7as resultantes de tais n\u00edveis de polui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Enfrentar a emerg\u00eancia clim\u00e1tica: n\u00e3o a mais aeroportos e neutralidade carb\u00f3nica em 2030<\/h2>\n\n\n\n<p>2024 foi o primeiro ano em que se registou uma temperatura acima dos 1.5\u00baC relativamente ao per\u00edodo pr\u00e9-industrial, aponta o servi\u00e7o europeu Copernicus. Apesar do crit\u00e9rio cient\u00edfico n\u00e3o confirmar o aumento de 1.5\u00baC at\u00e9 que este se verifique por uma m\u00e9dia de 20 anos, os impactos j\u00e1 s\u00e3o intoleravelmente intensos a n\u00edvel mundial e as emiss\u00f5es n\u00e3o param de aumentar. A mais pequena fra\u00e7\u00e3o de um grau de aumento da temperatura \u00e9 crucial e, por isso, \u00e9 vital abandonar os combust\u00edveis f\u00f3sseis e acabar com as emiss\u00f5es de GEE o mais rapidamente poss\u00edvel \u2013 ou quaisquer adapta\u00e7\u00f5es falhar\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Estas s\u00e3o not\u00edcias dram\u00e1ticas para a ind\u00fastria da avia\u00e7\u00e3o. Sem nenhum plano de descarboniza\u00e7\u00e3o vi\u00e1vel e justo \u00e0 vista, a \u00fanica forma de assegurar uma redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es provenientes do tr\u00e1fego a\u00e9reo \u00e9 reduzindo drasticamente o uso deste meio de transporte, como afirma SG<em>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A responsabilidade hist\u00f3rica dos pa\u00edses do Norte Global pela crise clim\u00e1tica e as vantagens estruturais de que gozam obrigam a um corte de emiss\u00f5es mais acentuado e a alcan\u00e7ar a neutralidade carb\u00f3nica at\u00e9 2030 para travar a crise clim\u00e1tica, seguindo os prazos ditados pela ci\u00eancia e com base em crit\u00e9rios de justi\u00e7a global. Para Portugal, significa n\u00e3o construir novos aeroportos, desmantelar os atuais e reduzir o tr\u00e1fego a\u00e9reo a praticamente zero em 5 anos, implementando uma transi\u00e7\u00e3o justa para os trabalhadores da ind\u00fastria e setores associados, garantindo o seu bem-estar social e material e investindo em transportes p\u00fablicos eletrificados que sirvam toda a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">E o turismo?<\/h2>\n\n\n\n<p>A avia\u00e7\u00e3o \u00e9 uma alavanca incontest\u00e1vel do setor tur\u00edstico a n\u00edvel global e Portugal n\u00e3o foge \u00e0 regra. De acordo com o Instituto Nacional de Estat\u00edstica, em 2023, o n\u00famero de chegadas internacionais de turistas n\u00e3o residentes foi de 26,5 milh\u00f5es, dos quais 68,8% se deslocaram em avi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Este&nbsp;<em>boom&nbsp;<\/em>tur\u00edstico, no entanto, n\u00e3o \u00e9 para todos. Em 2023, segundo o Eurostat, Portugal era o 6.\u00ba pa\u00eds da Uni\u00e3o Europeia onde mais pessoas n\u00e3o conseguiam pagar uma semana de f\u00e9rias por ano fora de casa. Essa impossibilidade afetava, \u00e0 data, 39% da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, revelando uma tremenda desigualdade no acesso a lazer e descanso.<\/p>\n\n\n\n<p>A turistifica\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio portugu\u00eas, por sua vez, tem-se revelado um modelo econ\u00f3mico insustent\u00e1vel. Al\u00e9m dos impactos clim\u00e1ticos e ecol\u00f3gicos inconcili\u00e1veis com as crises que vivemos, a especializa\u00e7\u00e3o tur\u00edstica intensifica a precariedade laboral, a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria e consequente crise habitacional, a descaracteriza\u00e7\u00e3o de cidades, destrui\u00e7\u00e3o de tecidos sociais e a vulnerabilidade econ\u00f3mica a choques externos, representando essencialmente uma pol\u00edtica p\u00fablica de empobrecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Cortar com a avia\u00e7\u00e3o significar\u00e1 irremediavelmente trocar a especializa\u00e7\u00e3o tur\u00edstica por uma vis\u00e3o pol\u00edtica que coloque a justi\u00e7a social e clim\u00e1tica e uma vida digna para todas as pessoas em primeiro lugar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A ind\u00fastria da avia\u00e7\u00e3o \u2013 alicerce do capitalismo global \u2013 tem um contributo significativo para as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas e, consequentemente, para o estado de pr\u00e9-colapso em que vivemos. At\u00e9 2020, a avia\u00e7\u00e3o tinha sido respons\u00e1vel por cerca de 4% do aquecimento global de causa antropog\u00e9nica, incluindo emiss\u00f5es de di\u00f3xido de carbono (CO2) e impactos de outros gases com efeito de estufa (GEE). Estes \u00faltimos incluem \u00f3xido de azoto, vapor de \u00e1gua e a forma\u00e7\u00e3o de rastos de condensa\u00e7\u00e3o (contrails), sendo respons\u00e1veis por dois ter\u00e7os da contribui\u00e7\u00e3o total da avia\u00e7\u00e3o para o aquecimento global, informa a rede mundial Stay Grounded (SG).<\/p>\n","protected":false},"author":149,"featured_media":8950,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[51],"tags":[],"coauthors":[246],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8949"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/149"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8949"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8949\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9002,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8949\/revisions\/9002"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8950"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8949"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8949"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8949"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=8949"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}