{"id":8933,"date":"2025-04-03T08:16:18","date_gmt":"2025-04-03T08:16:18","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=8933"},"modified":"2025-05-07T09:52:49","modified_gmt":"2025-05-07T09:52:49","slug":"a-voz-do-operario-sob-a-ditadura-o-editor-vetado-pela-censura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2025\/04\/03\/a-voz-do-operario-sob-a-ditadura-o-editor-vetado-pela-censura\/","title":{"rendered":"A Voz do Oper\u00e1rio sob a ditadura: o editor vetado pela Censura"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A dela\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>Para se analisar o conte\u00fado da dita den\u00fancia, citemos as suas pr\u00f3prias palavras, mesmo que resumidamente:<\/p>\n\n\n\n<p>O presidente d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio \u00e9 desde logo acusado de ser&nbsp;<em>\u201cum socialista (passe o eufemismo), sempre pronto a fazer a propaganda das suas ideias tolas\u201d<\/em>. E que, ainda por cima,&nbsp;<em>\u201cconsegue convencer um n\u00famero relativamente elevado de ignorantes\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o motivo da den\u00fancia era que ele,&nbsp;<em>\u201cna \u00faltima assembleia geral lan\u00e7ou esta interessante ideia: um grande almo\u00e7o de homenagem a C\u00e9sar Nogueira, colaborador de sempre do jornal da Voz do Oper\u00e1rio e grande socialista\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>E, como se isto n\u00e3o fosse \u2018delito\u2019 suficiente, Jos\u00e9 Antunes&nbsp;<em>\u201cinvocou como t\u00edtulo de gl\u00f3ria para o Sr. Nogueira, e mais uma raz\u00e3o para a homenagem, o facto de n\u00e3o haver um s\u00f3 dos seus l\u00facidos artigos que n\u00e3o tivesse sofrido o corte do l\u00e1pis azul da censura\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Pior ainda, projeta-se realizar o almo\u00e7o&nbsp;<em>\u201cnum dos primeiros dias de Maio. Talvez no 1\u00ba de Maio\u2026\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a dita den\u00fancia an\u00f3nima,&nbsp;<em>\u201ctudo isto n\u00e3o passa de um pretexto para o sr. Jos\u00e9 Antunes reunir \u00e0 sua volta umas centenas de amigos e admiradores, a quem no final das suas cartas deseja sa\u00fade e revolu\u00e7\u00e3o social\u2026\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Isto s\u00e3o&nbsp;<em>\u201cfactos concretos, tendentes ao lan\u00e7amento e desenvolvimento da m\u00e1 semente, sobretudo em esp\u00edritos incautos e incultos, como o de boa parte dos s\u00f3cios da institui\u00e7\u00e3o\u201d<\/em>. Sem esquecer&nbsp;<em>\u201cas crian\u00e7as das suas escolas (alguns milhares) que de algum modo h\u00e3o-de sentir a influ\u00eancia das perniciosas ideias pol\u00edticas e religiosas que norteiam os membros\u201d<\/em>&nbsp;da dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A den\u00fancia chama a aten\u00e7\u00e3o do ministro,&nbsp;<em>\u201cpensando at\u00e9 no momento que se avizinha\u201d<\/em>&nbsp;&#8211; numa alus\u00e3o \u00e0s elei\u00e7\u00f5es presidenciais. E termina evocando<em>&nbsp;\u201ca \u00e9gide e inspira\u00e7\u00e3o de Salazar\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Fim de cita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A demiss\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>Jos\u00e9 Antunes era um antigo sindicalista do tempo da 1\u00aa Rep\u00fablica. Tinha colaborado no jornal A Batalha, \u00f3rg\u00e3o da Confedera\u00e7\u00e3o Geral do Trabalho (CGT).<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda viria a ser presidente da Associa\u00e7\u00e3o dos Inquilinos Lisbonenses. E faria parte do grupo que, ao fim de d\u00e9cadas de luta, conseguiu legalizar a Associa\u00e7\u00e3o Portuguesa de Esperanto, em 1972.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas naquela primavera de 1958? Jos\u00e9 Antunes viu-se for\u00e7ado a sair da dire\u00e7\u00e3o d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>O jantar de homenagem a C\u00e9sar Nogueira? Esse ficou adiado. S\u00f3 p\u00f4de realizar-se mais de um ano depois, discretamente dilu\u00eddo num anivers\u00e1rio deste jornal. E quando Humberto Delgado j\u00e1 estava exilado no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O veto<\/h2>\n\n\n\n<p>Antes deste epis\u00f3dio, A Voz do Oper\u00e1rio tinha feito outra tentativa para homenagear C\u00e9sar Nogueira.<\/p>\n\n\n\n<p>A documenta\u00e7\u00e3o n\u00e3o consta no \u2018dossier\u2019 referente a este jornal, no arquivo da \u201cDire\u00e7\u00e3o dos Servi\u00e7os de Censura\u201d. Mas \u00e9 poss\u00edvel reconstituir o caso com outras fontes.<\/p>\n\n\n\n<p>Aconteceu em 1956. E Jos\u00e9 Antunes deixou o seu testemunho.<\/p>\n\n\n\n<p>A dire\u00e7\u00e3o d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio quisera,&nbsp;<em>\u201clogo no in\u00edcio da sua ger\u00eancia, prestar uma justa homenagem\u201d&nbsp;<\/em>a C\u00e9sar Nogueira. E&nbsp;<em>\u201cdecidira confiar-lhe o cargo de editor\u201d<\/em>&nbsp;do seu jornal.<\/p>\n\n\n\n<p>Pelo que&nbsp;<em>\u201cfoi levado o respectivo requerimento \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o das entidades competentes, tendo merecido deferimento, primeiro, e, mais tarde, sendo indeferido\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Jos\u00e9 Antunes descreveu as suas dilig\u00eancias&nbsp;<em>\u201cpara se repor o que acabava de ser negado\u201d<\/em>. Dirigiu-se pessoalmente \u00e0 Comiss\u00e3o de Censura,&nbsp;<em>\u201ce a\u00ed lhe disseram que o sucedido n\u00e3o era da responsabilidade dessa reparti\u00e7\u00e3o mas de outra inst\u00e2ncia\u201d<\/em>&nbsp;[ata da assembleia geral d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio, 23\/10\/1956].<\/p>\n\n\n\n<p>Ora, a outra \u201cinst\u00e2ncia\u201d que intervinha nestes casos era a PIDE, a pol\u00edcia pol\u00edtica. Como se pode verificar compulsando processos semelhantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Havia mesmo um formul\u00e1rio pr\u00f3prio para a Censura remeter a identifica\u00e7\u00e3o das pessoas em causa. Com um espa\u00e7o para a PIDE acrescentar a sua \u2018informa\u00e7\u00e3o\u2019.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas nomea\u00e7\u00f5es aprovadas, era uso a PIDE ter carimbado isto:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNos registos desta Pol\u00edcia nada consta\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O caso \u201cUni\u00e3o Oper\u00e1ria\u201d<\/h2>\n\n\n\n<p>Num processo \u2018indeferido\u2019, encontramos esta anota\u00e7\u00e3o manuscrita, por parte da PIDE:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00e3o oferece garantias de cooperar nos fins superiores do Estado\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi o que sucedeu ao clube desportivo Uni\u00e3o Oper\u00e1ria, de Santar\u00e9m, quando quis publicar um boletim mensal, a distribuir entre os seus s\u00f3cios, em 1960.<\/p>\n\n\n\n<p>O nome proposto para diretor e editor at\u00e9 passou. Mas a PIDE pronunciou-se tamb\u00e9m sobre o presidente da dire\u00e7\u00e3o, que tinha subscrito o requerimento do clube. E ter\u00e1 sido o bastante para essa publica\u00e7\u00e3o ser proibida!<\/p>\n\n\n\n<p>O nome em quest\u00e3o era o do mec\u00e2nico Jos\u00e9 Cola\u00e7o, tamb\u00e9m presidente da Sociedade Recreativa Oper\u00e1ria daquela cidade.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Amplitude da Censura<\/h2>\n\n\n\n<p>A est\u00f3ria do editor d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio vetado pela PIDE \u00e9 um exemplo de como a repress\u00e3o da imprensa era mais profunda do que a simples censura pr\u00e9via, a qual j\u00e1 cortava e apagava tantas not\u00edcias e artigos de opini\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a \u2018consultoria\u2019 da PIDE, a Dire\u00e7\u00e3o dos Servi\u00e7os de Censura condicionava a escolha dos diretores e editores respons\u00e1veis pelas reda\u00e7\u00f5es. E at\u00e9 controlava as gr\u00e1ficas onde os jornais eram impressos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Mem\u00f3ria inc\u00f3moda?<\/h2>\n\n\n\n<p>Em 1956, quando A Voz do Oper\u00e1rio escolheu C\u00e9sar Nogueira para editor deste jornal, ele j\u00e1 estava com quase 80 anos de idade.<\/p>\n\n\n\n<p>Aderira ao MUD, em 1945. Apoiara Norton de Matos, em 1949. Colaborava tamb\u00e9m na mais prestigiada imprensa democr\u00e1tica legal, como o jornal Rep\u00fablica e a revista Seara Nova.<\/p>\n\n\n\n<p>Era um marxista e uma refer\u00eancia da oposi\u00e7\u00e3o antifascista. Era at\u00e9 irm\u00e3o de um ex-preso pol\u00edtico. Mas expressava-se dentro da \u2018legalidade\u2019 permitida pela pr\u00f3pria ditadura.<\/p>\n\n\n\n<p>Tinha sido dirigente do antigo Partido Socialista Portugu\u00eas, ainda com o l\u00edder hist\u00f3rico Azedo Gneco (falecido em 1911). E mantinha-se fiel \u00e0s suas convic\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Escrevia sobretudo sobre hist\u00f3ria. Apesar de limitado pela Censura, deixou um precioso contributo para a mem\u00f3ria coletiva e o conhecimento acerca do antigo movimento oper\u00e1rio portugu\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u2019A Voz do Oper\u00e1rio persistiu ativo nesse labor at\u00e9 falecer, j\u00e1 nonagen\u00e1rio &#8211; um ano antes do 25 de Abril.<\/p>\n\n\n\n<p>Pelas provas deste jornal enviadas \u00e0 Censura na d\u00e9cada de 60, verifica-se que o \u2018velho\u2019 C\u00e9sar Nogueira continuava a ser o colaborador mais cortado pela Censura\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O dia era 23 de Abril de 1958. O ministro do interior recebeu uma den\u00fancia an\u00f3nima contra o presidente da direc\u00e7\u00e3o d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio, Jos\u00e9 Antunes. Anote-se o momento em que isto acontece: 4 dias depois de Humberto Delgado formalizar a sua candidatura presidencial. Essa candidatura vai galvanizar o rep\u00fadio popular pela ditadura. Apesar do contexto de umas elei\u00e7\u00f5es completamente falseadas, desde o recenseamento at\u00e9 \u00e0 contagem dos votos.<\/p>\n","protected":false},"author":20,"featured_media":8934,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[43],"tags":[],"coauthors":[93],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8933"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/20"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8933"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8933\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9074,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8933\/revisions\/9074"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8934"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8933"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8933"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8933"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=8933"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}