{"id":8851,"date":"2025-03-07T14:37:00","date_gmt":"2025-03-07T14:37:00","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=8851"},"modified":"2025-03-07T14:37:02","modified_gmt":"2025-03-07T14:37:02","slug":"modesto-navarro-memoria-e-intervencao-civica-em-a-oitava-colina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2025\/03\/07\/modesto-navarro-memoria-e-intervencao-civica-em-a-oitava-colina\/","title":{"rendered":"Modesto Navarro, \u2013 mem\u00f3ria e interven\u00e7\u00e3o\u00a0c\u00edvica em\u00a0\u201ca oitava colina\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>Modesto Navarro pertence, por direito pr\u00f3prio, enquanto s\u00f3cio e Presidente que foi da sua Direc\u00e7\u00e3o em per\u00edodos complexos, a esta Casa, mas pertence, de igual modo e em sentido ainda mais abrangente, \u00e0 mais consequente e corajosa parcela da Literatura portuguesa da segunda metade do s\u00e9culo vinte, espraiando essa capacidade de an\u00e1lise do pa\u00eds que somos, das suas grandezas e mis\u00e9rias, por estes conturbados anos do s\u00e9culo XXI. A mem\u00f3ria \u00e9 sempre um instrumento central da narra\u00e7\u00e3o, e Modesto Navarro sabe-o. Sabe que a mem\u00f3ria serve des\u00edgnios de ac\u00e7\u00e3o e n\u00e3o de reac\u00e7\u00e3o, ou seja, a mem\u00f3ria ficcionada perder\u00e1 efeito se utilizada em sentido puramente nost\u00e1lgico ou saudosista, mas serve enquanto elemento, bagagem para a transmiss\u00e3o de experi\u00eancias, de den\u00fancias, de anota\u00e7\u00e3o dos dias para quem vier e a esses dias, \u00e0s suas resson\u00e2ncias, n\u00e3o quiser fechar portas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em&nbsp;<em>A Oitava Colina,&nbsp;<\/em>a l\u00edngua de Navarro \u00e9 grave, por vezes enf\u00e1tica, dado que o autor narra factos que o tempo ainda n\u00e3o lavou, feridas que sangram dado que, 50 anos volvidos sobre \u201ca madrugada que sonh\u00e1mos\u201d, eis-nos perante as mesmas perplexidades, a mesma arrog\u00e2ncia, o mesmo ran\u00e7o no discurso, segador de direitos, de esperan\u00e7as, de futuro. T\u00e3o axiom\u00e1tico \u00e9 esse discurso, t\u00e3o impetuosamente intempestivo e revanchista \u2013 usando armas de propaganda que o fascismo de antanho nem sequer sonharia poss\u00edveis de utilizar no combate pol\u00edtico \u2013 que pode, se o n\u00e3o vencermos, conduzir-nos \u00e0 mesma mis\u00e9ria, ao mesmo estupor, com as adapta\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias \u00e0s novas realidades, gerado ao longo desses sinistros 48 anos de opress\u00e3o e mis\u00e9ria.<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria, as hist\u00f3rias de&nbsp;<em>A Oitava Colina<\/em>&nbsp;j\u00e1 as sabemos de livros anteriores; andam dispersas em fragmentos pela extensa bibliografia de Modesto Navarro; viagens em torno da mem\u00f3ria, dos afectos, das feridas, do sangue&nbsp;<em>rio que n\u00e3o estanca<\/em>&nbsp;de que falava o Assis Pacheco. Modesto Navarro regressa a lampejos sensitivos da inf\u00e2ncia, da adolesc\u00eancia, dos amores, das amizades, das mulheres, dos livros, fazendo-o desta vez com outro apuro narrativo. A l\u00edngua mais \u00e1gil, mais limada, num corpo dieg\u00e9tico mais sinf\u00f3nico \u2013 profundo e sem rede. Embora com extremo pudor no modo expositivo, escondendo o rosto sob o manto di\u00e1fano de um nome, Rui, que n\u00e3o chega a personagem, que \u00e9 um esbo\u00e7o sob o qual Navarro, modestamente, se oculta. H\u00e1 neste texto, uma outra vibra\u00e7\u00e3o, uma tocante sinceridade expositiva que nos deixa rendidos a essa fala que \u00e9 a um tempo agreste e sens\u00edvel, desnudada e solta. Fala que nos reconduz aos ancestrais saberes das suas origens transmontanos: \u201cnavegante com torrosas\u201d, ou seja, bacalhau com batatas, dieta de pobre em dias de remedeio; que nos diz dos labirintos da pobreza; J\u00falia Galrita que cantava para espantar a fome, um grito de socorro, dir-se-ia:&nbsp;<em>se pedir, pe\u00e7o cantado<\/em>, versos do poeta Aleixo que deste mundo de pobres acossados sabia as andan\u00e7as feridas e todas genialmente desvendava. Tamb\u00e9m Modesto viu a fome na soleira e dela d\u00e1 not\u00edcia, como anteriormente o fez Carlos de Oliveira.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais do que um romance (e pouco importa se o n\u00e3o for), este livro \u00e9 um relato sentido, amargo por vezes, pungente, arrebatado, o sincero testemunhar de um percurso de vida. Um longo texto de mais de quinhentas p\u00e1ginas a falar de sonhos, de caminhos atravessados por lutas constantes contra as adversidades dessas infaustas caminhadas, dessa longa viagem pela vida e seus escolhos. A viagem dram\u00e1tica, ingente, do nascer portugu\u00eas na primeira metade do s\u00e9culo XX e numa das zonas mais ignoradas, pelos poderes e pela fortuna, deste pa\u00eds sofrido e, apesar disso, saber erguer-se do ch\u00e3o e crescer vertical e digno.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 uma profunda m\u00e1goa neste modo de contar, uma revolta em suspens\u00e3o, talvez saudade, adivinhariam os rom\u00e2nticos e os fadistas nesta fala \u2013 saudade que, a ser, n\u00e3o \u00e9 derrotista nem sombria, antes a saudade do futuro de que nos falava Jos\u00e9 Gomes Ferreira; um realismo rom\u00e2ntico bebido em Zola percorre o corpo fabular de&nbsp;<em>A Oitava Colina<\/em>, invade esta escrita, este ca\u00f3tico processo narrativo em sua dispers\u00e3o rememorativa.<\/p>\n\n\n\n<p>O cinema, a escrita, o fasc\u00ednio pelas ruas de Campo de Ourique, \u201cquero morar neste bairro\u201d, os amigos, a imprensa clandestina: o&nbsp;<em>Avante!, O Marinheiro Vermelho<\/em>. A resist\u00eancia, a publicidade, as noites de Lisboa, o desassossego e a revolta pinchados nas paredes dos pr\u00e9dios burgueses, o medo<em>, os ouvidos nos teus ouvidos<\/em>, a revolta a organizar-se, a crescer como cogumelos em campo orvalhado. O sexo a prostituir-se nas ruas, em quartos alugados, a fauna, os fr\u00e1geis \u00edcones da cidade; Belarmino engraxador\/pugilista, vedeta ef\u00e9mera do Cinema Novo que come\u00e7ava a olhar o povo de corpo inteiro e n\u00e3o apenas o estere\u00f3tipo herdado dos bonecos revisteiros, ou atrav\u00e9s da doutrina de Ant\u00f3nio Ferro, bebida em Marinetti e Gabrielle D\u2019Annunzio.<\/p>\n\n\n\n<p><em>J\u00e1 viaj\u00e1mos de ilhas em ilhas\/j\u00e1 mordemos fruta ao relento\/repartindo esperan\u00e7as e m\u00e1goas\/por tudo o que \u00e9 vento,&nbsp;<\/em>uma cantiga de S\u00e9rgio Godinho que fala, tamb\u00e9m ele, na terceira pessoa, neste jeito \u00edntimo de invocar uma gera\u00e7\u00e3o que andou pela vida com a alma inquieta \u00e0s costas, de \u201cgente feliz, com l\u00e1grimas\u201d, e dos outros que foram \u00e0 guerra e voltaram, mesmo com uma perna bamba, a perna que se recusou a dan\u00e7ar a polka do tiranete, a entrar no baile mandado do ditador; que trouxe dos montes, de atr\u00e1s dos montes, essa tribo forjada no ferro ardente dos afectos: a casa velha, o pai austero, a m\u00e3e \u00e0 espera \u201cdos dias mais justos\u201d, na soleira, o irm\u00e3o ca\u00e7ula que estudou, o Tino que adaptou \u00e0s imagens em movimento e produziu&nbsp;<em>At\u00e9 Amanh\u00e3, Camaradas<\/em>, esse \u00e9pico maior da nossa resist\u00eancia; o Ant\u00f3nio que nesta cr\u00f3nica dos assentos se diz Rui para disfar\u00e7ar, escritor a fazer-se pelos caminhos da vida, das aves, a ocultar-se sob nome fict\u00edcio para lhe ser mais f\u00e1cil contar-se por interm\u00e9dia m\u00e1scara, n\u00e3o que lhe sejam necess\u00e1rias m\u00e1scaras inventadas, m\u00faltiplas, para sair do casulo, do ba\u00fa e morrer de cirrose num quarto de Campo de Ourique; que esta vida d\u00e1 romance, ou n\u00e3o, que importa a forma, mundo de fic\u00e7\u00f5es que o real desoculta, d\u00e1 para ser contada de t\u00e3o vivida, mesmo que j\u00e1 ande dispersa na vasta obra de Modesto, tamb\u00e9m ele membro da tribo dos Navarro, dos que foram ao Brasil e voltaram, \u00e0 guerra e \u00e0 luta, que torceram o destino a m\u00e3os ambas, com a resina toda dos dias aziagos, com as palavras forjadas, tecidas sobre as sombras num desv\u00e3o de casa a derruir, num jardim de Alhandra, num slogan publicit\u00e1rio, num livro com um buraco rebelde, provocat\u00f3rio e insubmisso na capa, com o riso acirrando o \u00f3dio dos abutres, com um filme clandestino vigiado pela GNR, filme de princ\u00edpio e fim de narrativa, de recome\u00e7o, de contagem da vida do centro para a periferia, das grades de Caxias para a colina de Vila Flor, e desta para a de Louren\u00e7o Marques, com M\u00e1rio Barradas e um Brecht inesperado \u201c<em>O Que diz Sim, O que Diz N\u00e3o\u201d<\/em>, e ele disse n\u00e3o, \u201cn\u00e3o me leve, comandante\u201d, mas foi e regressou para essa outra colina, a oitava, diz Rui, ou Modesto Navarro, tanto faz, o importante \u00e9 dizer, \u00e9 escrever assim com o corpo, a pele, a carne a arder, nu frente aos espelhos da nossa mem\u00f3ria colectiva, e ousar dizer-se, ter coragem de se expor assim, descarnado, de voar nesse c\u00e9u de Lisboa, de Campo de Ourique, a&nbsp;<em>colina da Liberdade<\/em>, de abrir, como Jos\u00e9 Casanova, caminho para as aves de arriba\u00e7\u00e3o, aves que se juntar\u00e3o a n\u00f3s nesse voo urgente, \u201c<em>repartindo ao vento peda\u00e7os\/que h\u00e3o-de ser de n\u00f3s\u201d<\/em>. Um livro<em>&nbsp;A Oitava Colina,<\/em>&nbsp;que \u00e9 um registo, a anota\u00e7\u00e3o dos dias, para o futuro. Para esse futuro que h\u00e1-de ser de \u00e1gua limpa como as vidas que se contam nos livros, que assim, do lado esquerdo do peito, nos contam e convocam.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A direc\u00e7\u00e3o de A Voz do Oper\u00e1rio homenageou, no \u00e2mbito dos seus 142 anos de exist\u00eancia, o escritor Modesto Navarro. Homenagem inteiramente merecida a um escritor que na sua pros\u00f3dia teve, tamb\u00e9m, a cidade de Lisboa como elemento central das suas narrativas, sendo igualmente na sua actividade c\u00edvica, em diversos mandatos, deputado municipal e Presidente da Assembleia da edilidade da capital.<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":8852,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[43],"tags":[],"coauthors":[108],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8851"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8851"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8851\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8854,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8851\/revisions\/8854"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8852"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8851"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8851"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8851"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=8851"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}