{"id":8801,"date":"2025-02-06T16:05:16","date_gmt":"2025-02-06T16:05:16","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=8801"},"modified":"2025-02-06T16:05:16","modified_gmt":"2025-02-06T16:05:16","slug":"a-terra-a-quem-a-trabalha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2025\/02\/06\/a-terra-a-quem-a-trabalha\/","title":{"rendered":"\u201cA terra a quem\u00a0a trabalha\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>A primeira ocupa\u00e7\u00e3o aconteceu, segundo Jos\u00e9 Soeiro, no livro \u201cReforma Agr\u00e1ria, A Revolu\u00e7\u00e3o no Alentejo\u201d, a 10 de dezembro de 1974. Dois meses depois, os terrenos ocupados s\u00f3 no distrito de Beja equivaliam j\u00e1 a cerca de 10.541 campos de futebol. A 26 de janeiro de 1975, delegados sindicais da mesma regi\u00e3o anunciavam o \u201cin\u00edcio imediato da reforma agr\u00e1ria\u201d com o \u201ccontrolo pelos trabalhadores de todas as propriedades em regime de subaproveitamento total ou parcial\u201d. No m\u00eas seguinte, em \u00c9vora, o PCP, a principal for\u00e7a pol\u00edtica no Alentejo, fazia a I Confer\u00eancia dos Trabalhadores Agr\u00edcolas do Sul, onde \u00c1lvaro Cunhal, l\u00edder hist\u00f3rico dos comunistas, proclamou que a \u201centrega da terra a quem a trabalha significa a pr\u00f3pria vida\u201d. Em abril, o Conselho da Revolu\u00e7\u00e3o, institucionalizava a coletiviza\u00e7\u00e3o das terras atrav\u00e9s de um decreto-lei que plasmava o Programa da Reforma Agr\u00e1ria. Imediatamente a seguir ao 25 de Novembro de 1975, as for\u00e7as contr\u00e1rias ao processo n\u00e3o conseguiram evitar que a Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Portuguesa apontasse a reforma agr\u00e1ria como \u201cum dos instrumentos fundamentais para a constru\u00e7\u00e3o da sociedade socialista\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 10 anos, A Voz do Oper\u00e1rio juntou, em Montemor-o-Novo, alguns dos protagonistas deste processo, nenhum deles j\u00e1 vivo, numa conversa que decorreu \u00e0 volta&nbsp;<strong>d<\/strong>a \u201cmais bela conquista da Revolu\u00e7\u00e3o\u201d, como lhe chamou \u00c1lvaro Cunhal. Para Manuel Vicente, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Agr\u00edcolas do Distrito de \u00c9vora durante a reforma agr\u00e1ria, esta conquista resultara \u201cde uma s\u00e9rie de lutas de resist\u00eancia dos pr\u00f3prios trabalhadores agr\u00edcolas\u201d e traduzia \u201ca necessidade de acabar com a repress\u00e3o, o medo e a explora\u00e7\u00e3o\u201d. J\u00e1 Ant\u00f3nio Gerv\u00e1sio, dirigente do PCP na \u00e9poca, explicou que os trabalhadores n\u00e3o queriam a terra para si. \u201cUma das quest\u00f5es fulcrais era a concentra\u00e7\u00e3o e posse da propriedade face ao proletariado agr\u00edcola que n\u00e3o tinha sen\u00e3o a sua for\u00e7a de trabalho\u201d, recordou. \u201cMuitos nem um quintal tinham. O trabalhador agr\u00edcola dos campos do Sul n\u00e3o queria a terra para ser um pequeno agricultor. Queria ser oper\u00e1rio. Queria a terra para a trabalhar e n\u00e3o para ficar com ela. Este foi o baluarte da resist\u00eancia antifascista\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a reforma agr\u00e1ria n\u00e3o foi um processo simples. De acordo com Ant\u00f3nio Gerv\u00e1sio, em 1974, os propriet\u00e1rios das terras despediram os trabalhadores depois de rejeitarem os contratos coletivos de trabalho, fruto da revolu\u00e7\u00e3o. \u201cCome\u00e7aram a fazer a\u00e7\u00f5es de sabotagem. Deixaram o gado morrer \u00e0 fome e \u00e0 sede, destru\u00edram as culturas e esvaziaram as barragens. Inclusive, fugiram com gado e m\u00e1quinas para Espanha e para o Norte\u201d, lembrou.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com n\u00fameros indicados por Ant\u00f3nio Gerv\u00e1sio, quando se realizou a I Confer\u00eancia da Reforma Agr\u00e1ria, em outubro de 1976, a \u00e1rea semeada aumentara 139%, o gado 112%, as m\u00e1quinas e alfaias 169% e a \u00e1rea de regadio 126%.<\/p>\n\n\n\n<p>Com Ant\u00f3nio Barreto \u00e0 frente do Minist\u00e9rio da Agricultura e M\u00e1rio Soares como primeiro-ministro, come\u00e7am os ataques \u00e0 reforma agr\u00e1ria. \u201cOito anos depois dos primeiros ataques, tinham roubado 700 mil hectares de terra, descaracterizaram as terras, roubaram corti\u00e7a e 122 mil m\u00e1quinas e alfaias agr\u00edcolas. Destru\u00edram 220 Unidades Coletivas de Produ\u00e7\u00e3o e assassinaram o Casquinha e o Caravela\u201d, denunciou Ant\u00f3nio Gerv\u00e1sio.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Manuel Vicente, as terras n\u00e3o tinham sido ocupadas para substituir agr\u00e1rios por agr\u00e1rios. \u201cA terra tem uma fun\u00e7\u00e3o social e s\u00f3 a cumpre com as m\u00e3os de quem a trabalha. Esse ensinamento \u00e9 uma das heran\u00e7as da reforma agr\u00e1ria. Devemos defender uma nova reforma agr\u00e1ria porque a terra deve ser de quem trabalha\u201d, garantiu. Olhando para os campos do Alentejo, em 2015, o hist\u00f3rico sindicalista lamentou as terras abandonadas. \u201cE n\u00f3s a comer o que vem do estrangeiro. Se nos fecharem as fronteiras, s\u00f3 podemos comer mato e silvas\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 50 anos, os trabalhadores agr\u00edcolas protagonizaram uma das mais importantes conquistas da revolu\u00e7\u00e3o portuguesa. N\u00e3o \u00e9 por acaso que foi, simultaneamente, uma das mais atacadas logo no princ\u00edpio do processo de recupera\u00e7\u00e3o capitalista. A decis\u00e3o coletiva de romper com s\u00e9culos de opress\u00e3o potenciou, simultaneamente, a mecaniza\u00e7\u00e3o da agricultura, deixando para tr\u00e1s um lastro de pobreza e mis\u00e9ria. Extensas herdades de uma minoria agr\u00e1ria com poder econ\u00f3mico e pol\u00edtico, muitas delas improdutivas, deram lugar \u00e0 democracia nos campos do sul do pa\u00eds.<\/p>\n","protected":false},"author":153,"featured_media":8802,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[],"coauthors":[89],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8801"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/153"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8801"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8801\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8804,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8801\/revisions\/8804"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8802"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8801"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8801"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8801"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=8801"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}