{"id":8797,"date":"2025-02-06T16:02:09","date_gmt":"2025-02-06T16:02:09","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=8797"},"modified":"2025-03-07T16:14:41","modified_gmt":"2025-03-07T16:14:41","slug":"canto-do-amanhecer-100-anos-de-carlos-paredes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2025\/02\/06\/canto-do-amanhecer-100-anos-de-carlos-paredes\/","title":{"rendered":"Canto do Amanhecer. 100 anos de Carlos Paredes"},"content":{"rendered":"\n<p>A 16 de fevereiro de 2025, celebramos o Centen\u00e1rio de Carlos Paredes, m\u00fasico militante a quem negam tantas vezes a parte da sua biografia que influenciou a sua forma de pensar a arte e a cultura. Homenagear Carlos Paredes sem uma refer\u00eancia \u00e0 sua educa\u00e7\u00e3o para l\u00e1 da guitarra, \u00e0 sua milit\u00e2ncia pol\u00edtica, \u00e0 resist\u00eancia antifascista, \u00e0 sua cultura, \u00e0 sua conce\u00e7\u00e3o de cultura, ao seu trabalho e \u00e0 sua rela\u00e7\u00e3o com a cidade e com os seus semelhantes \u00e9 uma viola\u00e7\u00e3o da sua mem\u00f3ria e da mem\u00f3ria da luta do povo portugu\u00eas pela sua emancipa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o ser\u00e1 dif\u00edcil fazer uma breve biografia de Carlos Paredes recorrendo a uma simples pesquisa&nbsp;<em>online<\/em>. Abre-se o motor de busca, escreve-se \u201cCarlos Paredes\u201d e l\u00e1 est\u00e1, uma biografia do Museu do Fado ou da Wikipedia onde podemos ler sobre a cidade onde nasceu em 1925, a sua origem familiar, um destaque significativo ao seu percurso musical, uma refer\u00eancia \u00e0 sua pris\u00e3o e ao seu saneamento da fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica por ser \u201copositor ao Estado Novo\u201d e, por algumas vezes, l\u00e1 se encontra uma nota da milit\u00e2ncia no Partido Comunista Portugu\u00eas. Com mais dificuldade encontraremos men\u00e7\u00e3o, mesmo que singela, \u00e0 sua interven\u00e7\u00e3o ativa na transforma\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, na luta pela democratiza\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 cultura.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de ter nascido em Coimbra, Carlos Paredes foi muito cedo para Lisboa. Esta foi a cidade que conheceu e que viveu como uma dan\u00e7a entre dois amantes. Mais do que conhecer o seu percurso pela m\u00fasica, importa conhecer o seu percurso pelas ruas da cidade, umas vezes an\u00f3nimo, outras j\u00e1 como um c\u00e9lebre gigante; um percurso da sua casa, ali para os lados do Campo Santana, para o Hospital de S\u00e3o Jos\u00e9 ou para o Cais do Sodr\u00e9, onde apanhava o barco para a outra margem, com o estojo da guitarra na m\u00e3o, para fazer um recital na Cova da Piedade ou no Barreiro, para outros trabalhadores como ele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 nesse caminho que vamos encontrar Carlos Paredes e com ele desvelar a realidade de um pa\u00eds e de um povo que n\u00e3o aceitou ficar condenado ao esquecimento. A m\u00fasica de Paredes n\u00e3o vai sen\u00e3o revelar essa mistura de sentimentos, entre a saudade e a esperan\u00e7a, essa batalha permanente contra a clausura de uma hist\u00f3ria oficial de falsos her\u00f3is e de feitos que nada acrescentaram a uma vida melhor para o seu povo.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Paredes, o papel do artista n\u00e3o era servir-se da arte, mas p\u00f4r-se ao servi\u00e7o da arte para construir o futuro. Esta perspetiva n\u00e3o pode, de forma alguma, ser desligada da sua dimens\u00e3o pol\u00edtica, do homem, do comunista que interv\u00e9m no seu meio com objetivos inequ\u00edvocos de transforma\u00e7\u00e3o social e cultural &#8211; da escolha dos temas da sua m\u00fasica \u00e0 disponibilidade para ir de terra em terra levando o som de uma guitarra com gente l\u00e1 dentro, gente que, como ele, trabalhava o dia inteiro a construir as cidades para os outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois do 25 de Abril, o prest\u00edgio de Carlos Paredes, que lhe permitiu ser acolhido nos sal\u00f5es das elites, n\u00e3o o impediu de continuar a construir um pa\u00eds mais democr\u00e1tico e a afirmar a sua milit\u00e2ncia. Foi uma figura central na dinamiza\u00e7\u00e3o da Festa do Avante! e de tantas outras iniciativas populares \u00e0s quais atribu\u00eda um significado de dimens\u00f5es maiores do que aquelas que aparentavam ser. Colaborou com dezenas de artistas de outras express\u00f5es culturais mostrando as possibilidades da coopera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar da sua apar\u00eancia absorta, Paredes foi sempre muito clarividente nos desafios que se colocavam ao pa\u00eds e \u00e0 sua cultura. Sem se desviar um mil\u00edmetro da sua linha ideol\u00f3gica, a sua arte \u00e9 tamb\u00e9m um resultado dessa determina\u00e7\u00e3o. Nos 100 anos do seu nascimento, lembrar Carlos Paredes pelas suas convic\u00e7\u00f5es e pelo projeto que acreditou ser aquele que libertaria os povos da explora\u00e7\u00e3o e lhes devolveria a cidade \u00e9 a maior homenagem que lhe podemos fazer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tal como nas negras vielas de Lisboa descobrimos o caminho para a imensid\u00e3o da manh\u00e3, na escurid\u00e3o do tempo encontramos caminhos para o futuro. Para isso, o papel dos artistas comprometidos com a transforma\u00e7\u00e3o do mundo n\u00e3o se pode limitar \u00e0 forma da sua cria\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso que esse compromisso seja com a realidade do seu tempo e que nos deixe pistas para a hip\u00f3tese de um novo amanhecer. Na biografia submersa dos artistas portugueses que resistiram \u00e0 grande noite fascista n\u00e3o pode constar, apenas, o resultado da sua cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica, do elemento est\u00e9tico que os caracteriza. A singularidade da obra n\u00e3o existe sem o enquadramento das suas circunst\u00e2ncias (sociais, econ\u00f3micas, pol\u00edticas e culturais) e a sua rela\u00e7\u00e3o com elas.<\/p>\n","protected":false},"author":18,"featured_media":8798,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[48],"tags":[],"coauthors":[92],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8797"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/18"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8797"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8797\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8904,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8797\/revisions\/8904"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8798"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8797"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8797"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8797"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=8797"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}