{"id":8745,"date":"2025-01-15T19:12:52","date_gmt":"2025-01-15T19:12:52","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=8745"},"modified":"2025-01-15T19:12:53","modified_gmt":"2025-01-15T19:12:53","slug":"a-beleza-poetica-do-mundo-e-do-humano-em-a-arvore-da-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2025\/01\/15\/a-beleza-poetica-do-mundo-e-do-humano-em-a-arvore-da-vida\/","title":{"rendered":"A beleza po\u00e9tica do mundo e do humano em \u201cA \u00c1rvore da Vida\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>O filme venceu o Grande Pr\u00e9mio do J\u00fari nesse ano no Festival de Cannes, e \u00e9 considerado um dos melhores filmes da d\u00e9cada 2010. Mas a pot\u00eancia de \u201cA \u00c1rvore da Vida\u201d est\u00e1 para l\u00e1 destes ep\u00edtetos concedidos pelo meio cinematogr\u00e1fico.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA \u00c1rvore da Vida\u201d \u00e9 uma obra especial e delicada. Toca no que existe de eterno e simultaneamente ef\u00e9mero em cada ser humano. E ser-se humano \u00e9 tamb\u00e9m sentir que tudo o que vemos e ouvimos pode ser mais do que aquilo que percepcionamos. O que sentimos vem de longe, pode estar nas entrelinhas. As fabulosas imagens do espa\u00e7o e do cosmos contam-nos como a Terra e o Universo j\u00e1 c\u00e1 estavam antes de os habitarmos. Assim continuar\u00e1 a exist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>A voz inicial da m\u00e3e (a actriz Jessica Chestain) prevalece como eco: existe uma diferen\u00e7a entre a gra\u00e7a e a natureza. A gra\u00e7a \u00e9 humilde, n\u00e3o exigente, entrega-se. A natureza domina, e vive para si. E conclui que quem vive de acordo com a gra\u00e7a nunca ter\u00e1 uma vida infeliz. Com esta compara\u00e7\u00e3o, Malick anuncia uma esp\u00e9cie de cometa filos\u00f3fico que percorre o filme, e que formulamos numa pergunta: Deixamo-nos, ou n\u00e3o, tocar pelo inef\u00e1vel na beleza do mundo?<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o vale a pena entrarmos em \u201cA \u00c1rvore da Vida\u201d com ideias feitas, com o pensamento de que nos vai ser contada uma hist\u00f3ria. Este \u00e9 um trajecto, como o pr\u00f3prio t\u00edtulo indica, arborescente e da vida. Terence Malick tra\u00e7a os dias espa\u00e7ados entre os anos 40 e 60 de uma fam\u00edlia, mas tamb\u00e9m vai at\u00e9 aos nossos dias. Acompanhamos o percurso de uma mulher e m\u00e3e que d\u00e1 \u00e0 luz tr\u00eas filhos, os v\u00ea crescer, at\u00e9 que um deles morre aos 19 anos. A dor indescrit\u00edvel do luto estabelece o caminho entre a incompreens\u00e3o, o sofrimento e a aceita\u00e7\u00e3o de que \u00e9 preciso deixar ir quem partiu fisicamente. O que quer que tal signifique para cada pessoa. \u201cA \u00c1rvore da Vida\u201d \u00e9 tamb\u00e9m um filme sobre o luto pela morte de um irm\u00e3o, como acontece \u00e0 personagem de Sean Penn, o filho Jack, agora adulto. O luto dos dias de desespero e questionamentos. Para os recome\u00e7os: de uma outra vida, de um outro dia, de um outro relacionamento, da nova esta\u00e7\u00e3o, da vida em fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>A din\u00e2mica familiar \u00e9 o centro da obra-prima de Malick. Filhos nascem, crescem. A m\u00e3e e o pai (Brad Pitt) d\u00e3o-lhes uma educa\u00e7\u00e3o diferenciada: existe compaix\u00e3o materna (a gra\u00e7a) e austeridade paternal (a natureza). E tudo o que vemos \u00e9 da ordem da poesia. Da ordem do sentir, mais do que da raz\u00e3o. Cada plano transporta a sua luz e coreografia \u00fanicas. Nem sabemos dizer porque \u00e9 que este filme e tudo o que o comp\u00f5em revolvem as entranhas para nos deixarem num pac\u00edfico estado de contempla\u00e7\u00e3o da beleza. \u00c9 essa, talvez, a forma do divino.<\/p>\n\n\n\n<p>Escutamos a celestial banda sonora; sabemos que o desafio e a coragem do realizador norte-americano, em \u201cA \u00c1rvore da Vida\u201d, \u00e9 fazer-nos reflectir sobre a iman\u00eancia e a transcend\u00eancia. Ou seja: O que \u00e9 que que acolhemos \u00e0 noite de vis\u00edvel e misterioso, quando olhamos para cima?<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA \u00c1rvore da Vida\u201d \u00e9 filme das sensa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o sabemos descrever. \u00c9 um filme em que as vozes interiores das personagens s\u00e3o narra\u00e7\u00f5es do que tamb\u00e9m ansiamos, questionamos e desejamos para a nossa vida. Ver \u201cA \u00c1rvore da Vida\u201d \u00e9 compreender que o sil\u00eancio pode ser o mais mel\u00f3dico discurso. E, mesmo assim, n\u00e3o existem respostas para os insond\u00e1veis enigmas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 um filme que merece ser visto, durante os seus 138 minutos como uma \u00fanica viagem (Malick fez uma outra vers\u00e3o com mais 50 minutos, em 2018). Como se da vida se tratasse. Sem paragens no tempo. Uma corrente que podemos estranhar, quando a iniciamos, mas que nos envolve, e nos deixa face-a-face com a cria\u00e7\u00e3o, o nascimento, os dias comuns e o et\u00e9reo. A poesia &#8211; a mais suprema das artes &#8211; toca nesse lugar de cria\u00e7\u00e3o, de express\u00e3o art\u00edstica, capaz de alcan\u00e7ar aquilo que ach\u00e1vamos j\u00e1 ter perdido: a capacidade de nos emocionarmos, de ficarmos a ponderar sobre algo como o poema de Arseni Tarkovski: \u201c<em>mas n\u00e3o pode ser s\u00f3 isto.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Um filme sublime. A rever em 2025.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2011, depois de adiamentos sucessivos, Terence Malick estreava o seu quinto filme. Relembramos \u201cA \u00c1rvore da Vida\u201d porque \u00e9 uma obra sobre a morte e a vida, sobre os come\u00e7os e os fins. E, sobretudo, um filme sobre a esperan\u00e7a. Da mesma forma que podemos olhar para Janeiro como o m\u00eas que inicia mudan\u00e7as, novos caminhos, ou o reatar de rela\u00e7\u00f5es e reflex\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"author":81,"featured_media":8746,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[48],"tags":[],"coauthors":[177],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8745"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/81"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8745"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8745\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8748,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8745\/revisions\/8748"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8746"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8745"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8745"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8745"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=8745"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}