{"id":8741,"date":"2025-01-15T19:10:01","date_gmt":"2025-01-15T19:10:01","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=8741"},"modified":"2025-02-06T16:18:35","modified_gmt":"2025-02-06T16:18:35","slug":"terramoto-politico-no-medio-oriente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2025\/01\/15\/terramoto-politico-no-medio-oriente\/","title":{"rendered":"Terramoto pol\u00edtico no M\u00e9dio Oriente"},"content":{"rendered":"\n<p>O regime s\u00edrio era um dos \u00faltimos herdeiros do movimento pan-arabista baseado em ideias como soberanismo, secularismo e socialismo. A luta contra o colonialismo e o intervencionismo ocidental no mundo \u00e1rabe espoletou a ideia da uni\u00e3o dos Estados na regi\u00e3o, \u00e0 cabe\u00e7a com destaque para a figura de Gamal Abdel Nasser, militar eg\u00edpcio que liderou a queda da monarquia no Egito e se destacou pela nacionaliza\u00e7\u00e3o do Canal do Suez e pela guerra contra Israel. Por outro lado, o partido Baath foi, na S\u00edria e no Iraque, o motor de processos de emancipa\u00e7\u00e3o desses pa\u00edses que garantiram, entre outras coisas, a estatiza\u00e7\u00e3o dos setores fundamentais da economia, a laiciza\u00e7\u00e3o do Estado e a igualdade legal entre homens e mulheres (a vice-presid\u00eancia s\u00edria estava nas m\u00e3os de uma mulher).<\/p>\n\n\n\n<p>Cabe destacar que, assumindo diferentes modelos de regime, e com muitas contradi\u00e7\u00f5es internas e externas, algumas destas caracter\u00edsticas foram comuns a v\u00e1rios pa\u00edses n\u00e3o s\u00f3 do M\u00e9dio Oriente, incluindo o I\u00e9men do Sul, mas tamb\u00e9m no Norte de \u00c1frica, como os casos da L\u00edbia e Arg\u00e9lia. De todos estes, pode dizer-se que apenas resiste o \u00faltimo caso.<\/p>\n\n\n\n<p>As sucessivas revolu\u00e7\u00f5es, golpes militares e mudan\u00e7as internas de poder na maioria destes pa\u00edses ao longo de mais de meio s\u00e9culo n\u00e3o foram alheias \u00e0s tentativas de inger\u00eancia das pot\u00eancias ocidentais, onde pairava a permanente amea\u00e7a de Israel.<\/p>\n\n\n\n<p>A tentativa de descontextualizar a forma\u00e7\u00e3o destes regimes no seu tempo hist\u00f3rico n\u00e3o ajuda a entender que no M\u00e9dio Oriente o surgimento de modelos diferentes aos ocidentais correspondia n\u00e3o s\u00f3 \u00e0s caracter\u00edsticas pr\u00f3prias daqueles processos e daquelas culturas mas, simultaneamente, \u00e0 necessidade de blindar esses Estados contra a amea\u00e7a externa.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo que os pa\u00edses ocidentais tentam apagar o hist\u00f3rico de brutalidade e terrorismo dos novos l\u00edderes da S\u00edria, alimentam uma campanha para atribuir exclusivamente ao regime encabe\u00e7ado por Bashar al-Assad todo o tipo de crimes.<\/p>\n\n\n\n<p>Toda a poeira assenta e, infelizmente, para o rigor hist\u00f3rico, demasiado tarde. H\u00e1 poucas semanas a CNN era apanhada com a sua rep\u00f3rter estrela a apresentar uma falsa hist\u00f3ria de um alegado prisioneiro ainda encarcerado passada uma semana da queda do regime. J\u00e1 poucos se lembram que foi uma ag\u00eancia norte-americana de comunica\u00e7\u00e3o que produziu a fa\u00edsca que garantiu a primeira agress\u00e3o dos Estados Unidos ao Iraque. Em 1990, Nayirah al-Sabah, uma adolescente kuwaitiana, denunciou no Congresso norte-americano que havia testemunhado que soldados iraquianos, durante a invas\u00e3o ao Kuwait, tinham entrado numa maternidade e arrancado beb\u00e9s das incubadoras para os deixar morrer no ch\u00e3o. Era mentira. Mais tarde descobriu-se que Nayirah era, na verdade, a filha do embaixador do Kuwait em Washington. O mesmo aconteceu com os inexistentes 40 beb\u00e9s israelitas decapitados pelo Hamas que ajudaram a justificar o come\u00e7o do genoc\u00eddio em curso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quem s\u00e3o os vencedores?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A cobertura de acontecimentos em curso exige uma an\u00e1lise cuidada dos factos para que n\u00e3o sejamos atropelados pela propaganda dos vencedores ou dos vencidos. No dia a seguir \u00e0 queda de Bashar al-Assad, era o pr\u00f3prio Benjam\u00edn Netanyahu que reclamava a autoria da mudan\u00e7a de regime. Telavive bombardeava h\u00e1 meses a S\u00edria sem que isso tivesse provocado qualquer tipo de indigna\u00e7\u00e3o no Ocidente. Logo ap\u00f3s a tomada do poder por parte do Hay\u2019at Tahrir al-Sham (HTS), as tropas israelitas avan\u00e7aram sobre territ\u00f3rio s\u00edrio e ocuparam n\u00e3o s\u00f3 a totalidade dos Montes Golan como estacionaram os seus soldados a poucas dezenas de quil\u00f3metros de Damasco. Perante mais uma agress\u00e3o de Israel, a resposta c\u00famplice do novo l\u00edder da S\u00edria, Abu Mohammed al-Jolani, foi esclarecedora. N\u00e3o \u00e9 tempo de novas guerras. De terrorista a rebelde, al-Jolani, o novo her\u00f3i do Ocidente, trocou o turbante por um vestu\u00e1rio que faz lembrar Volodymyr Zelensky, algo que n\u00e3o passou despercebido. A decis\u00e3o que mais significado ter\u00e1 \u00e9 a que ter\u00e1 mais impacto no tabuleiro do M\u00e9dio Oriente e beneficia, naturalmente, Israel e os Estados Unidos. As novas autoridades avisaram as organiza\u00e7\u00f5es da resist\u00eancia palestiniana na S\u00edria que deixar\u00e3o de ter acesso a armas e que os seus campos de treino e sedes ser\u00e3o desmantelados.<\/p>\n\n\n\n<p>O avan\u00e7o do HTS sobre Damasco n\u00e3o teria sido poss\u00edvel sem o apoio da Turquia e o novo poder j\u00e1 anunciou uma alian\u00e7a estrat\u00e9gica da S\u00edria com Ancara. Por isso, a desarticula\u00e7\u00e3o das for\u00e7as da resist\u00eancia palestiniana naquele territ\u00f3rio tem, inevitavelmente, tamb\u00e9m a m\u00e3o de Tayyip Erdogan, que tantas vezes puxou da ret\u00f3rica para atacar Israel e defender a Palestina. O facto \u00e9 que dois l\u00edderes contestados e questionados como Erdogan e Netanyahu conseguiram uma vit\u00f3ria impens\u00e1vel h\u00e1 um ano. A Turquia \u00e9, inevitavelmente, quem mais ganha com esta mudan\u00e7a de poder e regime, uma vez que o namoro com for\u00e7as pr\u00f3ximas da al-Qaeda deu, finalmente, os seus frutos. Por outro lado, tem agora for\u00e7a para avan\u00e7ar sobre o territ\u00f3rio controlado pelos curdos, que tiveram at\u00e9 agora o apoio imprescind\u00edvel dos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Com v\u00e1rios atores no terreno, est\u00e1 em causa a manuten\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio da S\u00edria como o conhecemos. A chamada guerra civil, que durou sobretudo de 2011 a 2018, nunca foi uma guerra exclusivamente interna. S\u00f3 com o apoio da R\u00fassia e do Ir\u00e3o \u00e9 que Bashar al-Assad p\u00f4de aguentar os ataques das for\u00e7as apoiadas pela Turquia, por Estados do Golfo P\u00e9rsico e pelo Ocidente. Apesar de algumas contradi\u00e7\u00f5es, os objetivos em comum conseguiram uma alian\u00e7a que s\u00f3 teve \u00eaxito pela elevada prepara\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es terroristas pela Turquia, pela debilidade das for\u00e7as armadas s\u00edrias, o ass\u00e9dio de Israel ao Hezbollah e aos combatentes iranianos e a interven\u00e7\u00e3o russa na Ucr\u00e2nia.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem antecipar ainda que novo regime ser\u00e1 este, cabe perguntar, para al\u00e9m da soberania nacional, onde ficar\u00e3o os direitos das mulheres e das minorias religiosas, sabendo \u00e0 partida que os setores estrat\u00e9gicos da economia ser\u00e3o muito provavelmente desmantelados e privatizados.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A queda do regime s\u00edrio abre a porta \u00e0 implos\u00e3o do pa\u00eds e \u00e9 uma pesada derrota para as resist\u00eancias que na Palestina e no L\u00edbano lutam contra as agress\u00f5es de Israel. Os ex-dirigentes da al-Qaeda e Estado Isl\u00e2mico, recauchutados pelo Ocidente, s\u00e3o os novos l\u00edderes da S\u00edria.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":8742,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[47],"tags":[],"coauthors":[71],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8741"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8741"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8741\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8821,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8741\/revisions\/8821"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8742"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8741"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8741"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8741"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=8741"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}