{"id":8723,"date":"2025-01-14T19:18:41","date_gmt":"2025-01-14T19:18:41","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=8723"},"modified":"2025-01-14T19:18:42","modified_gmt":"2025-01-14T19:18:42","slug":"diario-incontinuo-de-mario-claudio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2025\/01\/14\/diario-incontinuo-de-mario-claudio\/","title":{"rendered":"Di\u00e1rio Incont\u00ednuo, de M\u00e1rio Cl\u00e1udio"},"content":{"rendered":"\n<p>Que nos amamos pouco e mal, todos o sabemos. Por vezes, amargamente o sabemos. Garrett avisou-nos, mas de pouco nos serviu. Continuamos, sobranceiros e diligentes, a ignorar-nos mutuamente, a ter, como hoje cinicamente se afirma, uma&nbsp;<em>mem\u00f3ria selectiva<\/em>&nbsp;para o que nos \u00e9, em termos identit\u00e1rios e \u00e9ticos, essencial.<\/p>\n\n\n\n<p>Conseguimos&nbsp;<em>amar<\/em>&nbsp;o que nos chega de fora, a assimilar acr\u00edtica e devotadamente todos os subprodutos que os imp\u00e9rios medi\u00e1ticos promovem com m\u00e3o operativa e&nbsp;<em>marketing&nbsp;<\/em>agressivo, levando-nos ao consumo desbragado e irracional de artefactos&nbsp;<em>culturais<\/em>&nbsp;de med\u00edocre extrac\u00e7\u00e3o. Assim, nesta deriva consumista, nos fomos ao longo dos anos (com claros e graves sinais, a partir dos anos 1980) aculturando e transformando numa massa an\u00f3dina de consumidores passivos, sentados nas ameias do sof\u00e1, de todo o g\u00e9nero de produtos culturais estranhos, promovidos em caixa alta e primeiras p\u00e1ginas pelos media de servi\u00e7o. Esquecemos, ou levaram-nos a esquecer que, num mundo globalizado como este em que vivemos, os povos que n\u00e3o assumem a sua identidade cultural, que n\u00e3o respeitam e promovem os seus valores patrimoniais, que n\u00e3o se pensam, reflectem e afirmam, tender\u00e3o a desaparecer no confronto cultural com outros povos. Um povo, para o ser enquanto identidade colectiva, nas vertentes lingu\u00edsticas, cient\u00edficas, morais e sociais, precisa de referentes, de sinais, de ra\u00edzes, de mem\u00f3ria. S\u00f3 nesse confronto se afirmar\u00e1 distinto, s\u00f3 na diversidade da nossa singularidade cultural nos poderemos impor como povo ao respeito e admira\u00e7\u00e3o de outros povos.<\/p>\n\n\n\n<p>M\u00e1rio Cl\u00e1udio, um dos nossos grandes escritores contempor\u00e2neos, tem percorrido nos seus livros, desde&nbsp;<em>Trilogia da M\u00e3o,&nbsp;<\/em>passando por&nbsp;<em>Triunfo do Amor Portugu\u00eas<\/em>&nbsp;e&nbsp;<em>Embora Eu Seja Um Velho Errante,&nbsp;<\/em>a busca de um sentido est\u00e9tico e idiossincr\u00e1tico desta estranha coisa que \u00e9 ser-se portugu\u00eas, ou seja, deste povo que durante s\u00e9culos aguentou a canga, a fome e os maus-tratos, a submiss\u00e3o e a ignor\u00e2ncia, mas foi igualmente capaz de corajosos actos de rebeldia e inconformismo que pontuaram a nossa hist\u00f3ria, desde a revolu\u00e7\u00e3o de 1383, ao Prior do Crato e \u00e0 batalha do Caia e outras pelejas menores, at\u00e9 ao 5 de Outubro de 1910 e ao dia&nbsp;<em>inteiro e limpo&nbsp;<\/em>de 25 de Abril.<\/p>\n\n\n\n<p>Pela pena atenta de M\u00e1rio Cl\u00e1udio, desfilam, em memor\u00e1veis momentos de prosa superior, Amadeu de Sousa Cardoso, Guilhermina Suggia, a ceramista Rosa Ramalho, para al\u00e9m de Caravaggio, Miguel \u00c2ngelo, Leonardo da Vinci e outros nomes maiores da cultura europeia e universal.<\/p>\n\n\n\n<p>Um grande autor como M\u00e1rio Cl\u00e1udio n\u00e3o escamoteia, n\u00e3o se furta, n\u00e3o se esconde por detr\u00e1s de mantos di\u00e1fanos da realidade: assume a sua condi\u00e7\u00e3o de atento perscrutador do inomin\u00e1vel, os seus medos, a sua identidade social, o meio onde se move, os h\u00e1bitos, os amigos, a fam\u00edlia, os gostos, os apelos do corpo e as inquisidoras formas de descriminaliza\u00e7\u00e3o, as viagens, com It\u00e1lia no bojo dos afectos, o confronto aberto com os seus pares, os que admira e os que critica , os seus m\u00e9todos de escrita e o que nesse mister o convoca para as tarefas \u00e1rduas de&nbsp;<em>escreviver<\/em>. Tudo isto num livro soberbo, de mem\u00f3rias escritas com interregnos,&nbsp;<em>Di\u00e1rio Incont\u00ednuo&nbsp;<\/em>lhe chama o autor, entre 1958 e 2019.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 escrita modelar de M\u00e1rio Cl\u00e1udio n\u00e3o escapa o aguilh\u00e3o certeiro e reactivo, ou o desabafo assertivo, denunciando a tacanhez e insensibilidade de certa cr\u00edtica que advoga nas gazetas do burgo, como acontece nesta entrada de 18 de Novembro de 2008: \u00abNo&nbsp;<em>P\u00fablico&nbsp;<\/em>de sexta-feira passada uma alim\u00e1ria cr\u00edtica solta um v\u00f3mito de insultos a&nbsp;<em>A \u00daltima Colina,&nbsp;<\/em>o mais recente romance de Urbano Tavares Rodrigues. N\u00e3o o det\u00e9m a idade do escritor, nem o seu estado de sa\u00fade, erigindo-se assim em prot\u00f3tipo infame dessa lusa bo\u00e7alidade que constantemente ilustra a f\u00e1bula do le\u00e3o moribundo.\u00bb<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0s mem\u00f3rias de Gabriel Garcia M\u00e1rquez, Pablo Neruda, Jos\u00e9 Gomes Ferreira, Armindo Rodrigues ou Jos\u00e9 Saramago, juntamos este recente e indispens\u00e1vel&nbsp;<em>Di\u00e1rio,&nbsp;<\/em>para os que querem conhecer a intimidade, as viv\u00eancias, os modos peculiares de olhar e entender a substantiva realidade dos universos \u00edntimos e p\u00fablicos do autor de&nbsp;<em>Camilo Broca.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Di\u00e1rio Incont\u00ednuo,&nbsp;<\/em>de M\u00e1rio Cl\u00e1udio \u00e9, seguramente, uma das colheitas mais estimulantes da safra liter\u00e1ria de 2024.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Di\u00e1rio Incont\u00ednuo de M\u00e1rio Cl\u00e1udio \u2013 D. Quixote, 2024.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Que nos amamos pouco e mal, todos o sabemos. Por vezes, amargamente o sabemos. Garrett avisou-nos, mas de pouco nos serviu. Continuamos, sobranceiros e diligentes, a ignorar-nos mutuamente, a ter, como hoje cinicamente se afirma, uma&nbsp;mem\u00f3ria selectiva&nbsp;para o que nos \u00e9, em termos identit\u00e1rios e \u00e9ticos, essencial. 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