{"id":8672,"date":"2024-12-19T18:11:01","date_gmt":"2024-12-19T18:11:01","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=8672"},"modified":"2024-12-19T18:11:01","modified_gmt":"2024-12-19T18:11:01","slug":"todo-o-sensivel-universo-feminino-numa-casa-de-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2024\/12\/19\/todo-o-sensivel-universo-feminino-numa-casa-de-mulheres\/","title":{"rendered":"Todo o sens\u00edvel universo feminino numa \u201cCasa de Mulheres\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>O gen\u00e9rico revela um plano em contra-picado de um pr\u00e9dio. Esta \u00e9 a grande \u201cCasa de Mulheres\u201d, filme que o sueco Hampe Faustman (1919-1961), muito menos conhecido que os conterr\u00e2neos Ingmar Bergman e Victor Sj\u00f6str\u00f6m, realizado em 1953. Faustman (tamb\u00e9m actor em mais de uma dezena de filmes) interessou-se pelo romance hom\u00f3nimo da escritora e dramaturga Ulla Isaksson, e deu-lhe o papel de argumentista na adapta\u00e7\u00e3o ao cinema.<\/p>\n\n\n\n<p>Em \u201cCasa de Mulheres\u201d, entramos directa e profundamente numa modernidade polif\u00f3nica, na qual a mulher \u00e9 o centro emocional, social e relacional. Neste edif\u00edcio de Estocolmo s\u00f3 vivem mulheres. Uma premissa que permite observar \u00e0 lupa um mosaico de personagens femininas com os seus desejos, medos e frustra\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre elas, est\u00e1 Isa (Eva Dahlbeck), que l\u00ea o futuro das vizinhas, e se assusta com o que lhe aparece nas cartas. Isa n\u00e3o participa na festa que Sylvia (Annalisa Ericson) organiza. A sensatez e alguma m\u00e1goa relativamente ao passado afastam-na do que considera serem ac\u00e7\u00f5es de superf\u00edcie. Sentimos o despudor, a excentricidade e excessos dessa festa. Contudo, \u00e9 atrav\u00e9s desta esp\u00e9cie de \u201cfachada maquilhada\u201d que aquelas mulheres se afastam dos problemas e preenchem o vazio interior.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A reverbera\u00e7\u00e3o masculina na ansiedade<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>das mulheres<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o poucas as personagens masculinas, e as suas presen\u00e7as s\u00e3o relevantes e reveladoras nas marcas que deixam nas mulheres. Tryggve (Geirg Lokkberg) \u00e9 casado com Anna, e est\u00e1 apaixonado por Eva (Kerstin Palo). Eva gosta de ser adorada por ele, ao ponto de, no final, a sentirmos mais submetida que apaixonada. Anna sabe do adult\u00e9rio. Cala-se perante o olhar de todas as vizinhas; mas intui que marido acabar\u00e1 sempre por regressar a casa. \u00c9 consigo que passa um longo per\u00edodo de f\u00e9rias, afastado da frescura e jovem de Eva.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosa (Ulla Sjoblo), criada de Sylvia, \u00e9 ludibriada por um homem. Est\u00e1 t\u00e3o carente que faz a si mesma os gestos de afecto que v\u00ea Tryggve fazer a Eva. E o homem, quer entrar na festa das mulheres, e consegue engan\u00e1-la. O resultado \u00e9 dram\u00e1tico. Rosa n\u00e3o sabe como lidar com o sil\u00eancio do que ele lhe fez. E, numa das cenas mais pungentes do filme, sobe ao topo do pr\u00e9dio. Despe-se, caminha enlouquecida no telhado, perante uma cidade an\u00f3nima que a v\u00ea \u00e0 dist\u00e2ncia, e \u00e9 tanto ou mais indiferente que as inquilinas do pr\u00e9dio onde trabalha.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 uma dimens\u00e3o de ansiedade e trag\u00e9dia nesta t\u00f3nica coral no feminino. A sociedade contempor\u00e2nea parece colocar as mulheres que ousam ser independentes sob press\u00e3o. Por outro lado, muitas vezes elas s\u00e3o as suas maiores inimigas. O grupo desdenha da posi\u00e7\u00e3o passiva de Anna face \u00e0 trai\u00e7\u00e3o do marido. Tamb\u00e9m censura a vi\u00fava que se dedica ao passado, em lugar de \u201capanhar os comboios que est\u00e3o sempre a passar na esta\u00e7\u00e3o\u201d. Esta \u00e9 a quest\u00e3o nevr\u00e1lgica de \u201cCasa de Mulheres\u201d. Entre tantas conversas, encontros e desencontros nas salas, cozinhas e escadas do pr\u00e9dio, as vidas destas mulheres acabam por estar resumidas aos relacionamentos que tiveram, e t\u00eam, com o sexo oposto. Mesmo Isa, que se mant\u00e9m uma espectadora distante dos jogos pessoais e er\u00f3ticos das outras, est\u00e1 a sarar o luto da morte do segundo marido. Prefere ficar sozinha, a arriscar voltar para o primeiro homem com quem se casou. Vemo-la mesmo confessar ao can\u00e1rio que tem em casa que, talvez ele preferisse ser livre como os p\u00e1ssaros que voam l\u00e1 fora.<\/p>\n\n\n\n<p>A ousadia de Faustman \u00e9 a de construir todo um filme em torno da perspectiva feminina. Uma \u00f3ptica capaz de sublinhar que a liberdade emocional \u00e9 terreno \u00e1rduo de trilhar pelas mulheres. Existem preconceitos e receios. Existe, acima de tudo, a car\u00eancia e solid\u00e3o. Estas duas podem ser mortais.<\/p>\n\n\n\n<p>O filme, com 71 anos, transpira a actualidade da luta necess\u00e1ria pela igualdade de g\u00e9nero. Esses sinais s\u00e3o ainda mais importantes no que respeita \u00e0 dimens\u00e3o afectiva. Quase todas as personagens de \u201cCasa de Mulheres\u201d s\u00e3o economicamente livres. O problema \u00e9 a autonomia no amor. Por isso, a madrugada festiva, entre exuber\u00e2ncia e delimites, \u00e9 uma liberta\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria da constela\u00e7\u00e3o de personagens femininas. Quando o dia desponta, nos v\u00e1rios apartamentos, renascem as dores daquelas raparigas e mulheres. S\u00f3 a uni\u00e3o na m\u00e1goa e alegria lhes permite continuar a entrar e sair daquele estranho edif\u00edcio de Estocolmo. Um microcosmo metaf\u00f3rico e sens\u00edvel sobre a Mulher.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O gen\u00e9rico revela um plano em contra-picado de um pr\u00e9dio. Esta \u00e9 a grande \u201cCasa de Mulheres\u201d, filme que o sueco Hampe Faustman (1919-1961), muito menos conhecido que os conterr\u00e2neos Ingmar Bergman e Victor Sj\u00f6str\u00f6m, realizado em 1953. 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