{"id":8577,"date":"2024-11-14T11:43:48","date_gmt":"2024-11-14T11:43:48","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=8577"},"modified":"2024-11-14T11:43:51","modified_gmt":"2024-11-14T11:43:51","slug":"so-queremos-que-tentes-chegar-ate-ao-fim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2024\/11\/14\/so-queremos-que-tentes-chegar-ate-ao-fim\/","title":{"rendered":"S\u00f3 queremos que tentes chegar at\u00e9 ao fim"},"content":{"rendered":"\n<p>Nas primeiras horas entendi, n\u00e3o estava preparado para aquilo. N\u00e3o tinha procurado qualquer informa\u00e7\u00e3o, tampouco me preparei para aquela realidade social carregada de hist\u00f3ria, de desigualdade, mas ao mesmo tempo de perseveran\u00e7a e de vontade.<\/p>\n\n\n\n<p>Numa r\u00e1pida orienta\u00e7\u00e3o pelo espa\u00e7o, foi-me explicado que livros quase n\u00e3o havia, cadernos eram escassos, e a falta de materiais nas salas, um reflexo da falta de investimento. Primeira aula, caiu-me a ficha. A minha fun\u00e7\u00e3o ali n\u00e3o era s\u00f3 ensinar conte\u00fados, era tamb\u00e9m a de preencher vidas, lacunas emocionais, perspetivas de futuro, frustra\u00e7\u00f5es sociais\u2026 que, tal como os materiais que faltavam, estas tamb\u00e9m escasseavam em grande n\u00famero.<\/p>\n\n\n\n<p>Disseram-me que faltas por atraso seria melhor n\u00e3o assinalar e portas das salas de aula, abertas, n\u00e3o por escolha, mas por seguran\u00e7a. Contato com os encarregados de educa\u00e7\u00e3o, muito dif\u00edcil, j\u00e1 que, na maioria dos casos, saiam de casa antes do sol nascer e chegavam j\u00e1 depois dos filhos estarem deitados.<\/p>\n\n\n\n<p>Era uma escola TEIP \u2013 ou seja, Territ\u00f3rio Educativo de Interven\u00e7\u00e3o Priorit\u00e1ria (seja l\u00e1 o que isso for). Localizadas em \u00e1reas socioecon\u00f3micas vulner\u00e1veis, estas escolas acolhem alunos em contextos de vida especialmente dif\u00edceis, com poucos recursos e uma complexidade que ultrapassa o papel de um simples projeto educativo. Entrar numa escola TEIP \u00e9 cruzar um limite invis\u00edvel que separa uma realidade privilegiada de outra que a sociedade prefere ignorar, mas que \u00e9, paradoxalmente, essencial para a manuten\u00e7\u00e3o de estruturas de explora\u00e7\u00e3o e de m\u00e3o de obra barata. Estas escolas, situadas em bairros da periferias, servem como pontos de conten\u00e7\u00e3o para uma popula\u00e7\u00e3o constantemente sujeita \u00e0s din\u00e2micas de precariedade e exclus\u00e3o, que come\u00e7am nos pais e se refletem no futuro dos seus filhos com esse objectivo concreto: perpetuarem-se de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O contexto destas crian\u00e7as foi um choque. Eram muitas as crian\u00e7as que, por vezes, assumiam a responsabilidade de adultos. Muitas delas viam as suas m\u00e3es e pais apenas a altas horas da noite, depois de uma jornada dupla ou at\u00e9 tripla de trabalho. Fam\u00edlias destruturadas por dist\u00e2ncias geogr\u00e1ficas, monoparentais, sem qualquer rede de apoio e com um Estado Social desaparecido. S\u00e3o as crian\u00e7as muito novas que colocam no micro-ondas o tupperware que alguem lhes deixou como formula de sobreviv\u00eancia, s\u00e3o os que desde muito pequenos t\u00eam a responsabilidade de deixar os irm\u00e3os na escola, que se dirigem a consultas m\u00e9dicas sozinhos, s\u00e3o as que esperam noite dentro que as horas passem at\u00e9 sentirem o som reconfortante da chave a rodar na porta e finalmente o poss\u00edvel carinho de um familiar cansado ao chegar a casa.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o foram raras as reuni\u00f5es interrompidas por l\u00e1grimas que ca\u00edam, silenciosas, pelo rosto dos professores ao ouvir porque \u00e9 que este faltou ou o outro desapareceu da escola. Eram l\u00e1grimas n\u00e3o pela falta de recursos, mas pela sensa\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia, de sentir que o seu trabalho di\u00e1rio era uma gota num oceano de necessidades que urge alterar pelo futuro daquelas comunidades. Essas crian\u00e7as vivem as hist\u00f3rias de vida mais duras que j\u00e1 tive a oportunidade de conhecer.<\/p>\n\n\n\n<p>Numa altura de debate sobre a periferia, um estudo da OCDE estima que s\u00e3o necess\u00e1rias cinco gera\u00e7\u00f5es para que uma fam\u00edlia consiga sair do ciclo da pobreza. \u00c9 como se toda a esperan\u00e7a de futuro que Abril nos trouxe, tivesse passado ali apenas como uma rajada de vento e lhes tivesse dito que devem esperar um pouco mais para que aqueles territ\u00f3rios sejam reconhecidos, dignificados e verdadeiramente amparados, para que aquelas pessoas venham a ter a vida digna que merecem. \u00c9 um Abril por cumprir cinquenta anos depois, um Abril que teima em n\u00e3o chegar \u00e0s salas de aulas com as portas abertas, uns dias cheias, outros dias vazias.<\/p>\n\n\n\n<p>O que ali se faz, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 escola, \u00e9 mais do que isso: \u00e9 tentar preencher os vazios que as estruturas do Estado teimam em fazer de conta que n\u00e3o existem e que, para al\u00e9m disso, ainda perpetuam e acentuam essas desigualdades. S\u00e3o crian\u00e7as e jovens a quem dizemos sempre, que Abril est\u00e1 ali para ser cumprido tamb\u00e9m por eles. E com o cora\u00e7\u00e3o nas m\u00e3os dizemos nos dias dif\u00edceis a frase que tornou num mantra: \u201cS\u00f3 queremos que tentes chegar&nbsp;at\u00e9&nbsp;ao&nbsp;fim\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estas foram as palavras que ouvi quando l\u00e1 cheguei pela primeira vez. Simples esta frase, mas de uma complexidade que o tempo se encarregou de me fazer sentir at\u00e9 aos ossos, ao ponto de ainda carregar a sua profundidade, expectativa e incompreens\u00e3o at\u00e9 hoje. N\u00e3o tinha ideia do impacto daquele contexto. Ali estava eu, acabado de chegar e o que t\u00eam para me dizer \u00e9 \u201ctenta chegar at\u00e9 ao fim\u201d?<\/p>\n","protected":false},"author":136,"featured_media":8578,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[51],"tags":[],"coauthors":[233],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8577"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/136"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8577"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8577\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8580,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8577\/revisions\/8580"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8578"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8577"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8577"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8577"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=8577"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}