{"id":8570,"date":"2024-11-14T11:30:37","date_gmt":"2024-11-14T11:30:37","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=8570"},"modified":"2024-11-14T11:30:38","modified_gmt":"2024-11-14T11:30:38","slug":"a-carta-que-nunca-te-escreverei-de-manuel-veiga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2024\/11\/14\/a-carta-que-nunca-te-escreverei-de-manuel-veiga\/","title":{"rendered":"A carta que nunca te escreverei, de Manuel Veiga"},"content":{"rendered":"\n<p>Manuel Veiga \u00e9, antes do mais, um excelente poeta, embora lhe reconhe\u00e7amos na prosa talento de sobejo, mormente nesse magn\u00edfico\u00a0<em>Do Amor e da Guerra.\u00a0<\/em>Colaborador de longa data da revista\u00a0<em>Seara Nova,<\/em>\u00a0tamb\u00e9m com artigos de opini\u00e3o em<em>\u00a0Di\u00e1rio de Lisboa, Poder Local\u00a0<\/em>e\u00a0<em>O Di\u00e1rio.\u00a0<\/em>Advogado, foi Inspector Superior da Inspec\u00e7\u00e3o Geral da Educa\u00e7\u00e3o e consultor jur\u00eddico na C\u00e2mara Municipal de Loures, em gest\u00f5es CDU.<\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7amos a ler este romance de Manuel Veiga e entramos em dois universos tem\u00e1ticos e est\u00e9ticos singulares, duas realidades e duas distintas linguagens as quais, pelos caprichos da Literatura, se h\u00e3o-de cruzar bastas vezes ao longo desta narrativa. Processo dieg\u00e9tico incomum na actual literatura portuguesa, mas que o autor desenvolve com per\u00edcia e um razo\u00e1vel sentido de humor.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se escreve um romance?, interroga-se o descritor Manuel Maria, o que nos vai contar esta est\u00f3ria, este \u00e9pico mordaz, em carta para Fl\u00e1via, a filha a haver, que parece sa\u00eddo da pena de um Camilo Castelo Branco em dia de bonan\u00e7a para os lados de S\u00e3o Miguel de Seide e lhe desse na tonta de cavalgar em \u00e9gua desembestada e chegar \u00e0&nbsp;<em>Casa Grande de Romarig\u00e3es,&nbsp;<\/em>p\u00f4r-se em paleio erudito com um tal Aquilino Ribeiro, Republicano dos tesos e ele, Camilo, 1\u00ba. Visconde de Correia Botelho, sempre a tinir, agarrado \u00e0 pena para granjear uma sopa de couves e uns torresmos para acompanhar o tinto das verdes uvas minhotas e o Aquilino a falar-lhe dos grandes senhores das terras de entre Douro e Minho e das Beiras, que escravizam quem os serve e andam por esses campos do Demo a destapar quantas saias encontram solit\u00e1rias por pinhais e serranias, como se lobisomens fossem.<\/p>\n\n\n\n<p>Camilo a dizer a Manuel Maria, aprendiz de feiticeiro atrav\u00e9s do talento de um tal Manuel Veiga, que desta poda sabe mais do que aqui, neste&nbsp;<em>A Carta que Nunca te Escreverei,&nbsp;<\/em>se revela, mesmo que a prosa esteja pejada de sin\u00e9doques, de h\u00edper diegeses \u00e0 boleia de um tal Lobo Antunes, que Camilo e Aquilino nunca conheceram, e de analepses que todos usaram \u00e0 farturinha nos seus escritos, e outras redondilhas maiores para tecer a narrativa e no-la dar assim, como se sangue das pedras fosse, mas com \u00e1gil e subtil acinte para n\u00e3o ferir as sensibilidades hodiernas pouco dadas a trag\u00e9dias e maus modos rupestres, a n\u00e3o ser as que de fora nos chegam e nos doem de impot\u00eancia em p\u00f4r-lhes cobro, que a tanto n\u00e3o almeja quem \u00e9 apenas dono de pena e de talento. Dizia eu, a perder o fio da coisa, que o Camilo, com a paci\u00eancia e a manha que adquiriu na masmorra indigna da Cordoaria, que estas coisas de damas da nobreza falida, casarem com brutamontes latifundi\u00e1rios das ber\u00e7as ou mais arriba, habituados a estrume, b\u00e1coros e vacas, d\u00e1 sempre mau resultado, eles que, de tanto chafurdar no esterco, j\u00e1 n\u00e3o distinguem a esteira de uma prostituta, do leito nupcial acetinado de uma viscondessa virgem e de apelido Rio Seco.<\/p>\n\n\n\n<p>Um romance a ler, pois ent\u00e3o, que para tal servem os olhos, que n\u00e3o para derreter na pantalha frente \u00e0s desgra\u00e7as do mundo. Neste&nbsp;<em>A Carta que Nunca te Escreverei,&nbsp;<\/em>encontramos a viol\u00eancia e o estupor de um mundo que morreu e a dignidade de um outro que nasceu da sanha libert\u00e1ria e heroica dos capit\u00e3es de Abril. Ah!, e temos como b\u00f3nus o esplendor de uma l\u00edngua que t\u00e3o mal tratada anda, a qual neste livro brilha como se dentro das palavras que o habitam nascesse o Sol \u2013 o tal que, dizem os magos, quando assim nascido dever\u00e1 ser para todos!<\/p>\n\n\n\n<p><em>A Carta que nunca te escreverei, de Manuel Veiga, Chiado Books\/2024<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abA literatura permanece como a \u00fanica verdadeira ferramenta para dominar a linguagem \u2013 e a linguagem \u00e9 o alicerce de tudo.\u00bb Mario Vargas Llosa<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":8571,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[52],"tags":[],"coauthors":[108],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8570"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8570"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8570\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8573,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8570\/revisions\/8573"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8571"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8570"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8570"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8570"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=8570"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}