{"id":8562,"date":"2024-11-14T11:24:02","date_gmt":"2024-11-14T11:24:02","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=8562"},"modified":"2024-12-10T14:17:59","modified_gmt":"2024-12-10T14:17:59","slug":"a-sociedade-da-igreja-dos-anjos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2024\/11\/14\/a-sociedade-da-igreja-dos-anjos\/","title":{"rendered":"A sociedade da igreja dos Anjos"},"content":{"rendered":"\n<p>Ap\u00f3s duas horas de conversa com alguns dos moradores mais antigos, disseram-nos de forma desinteressada que estava muito bem que ali estiv\u00e9ssemos, e que poder\u00edamos ficar, ningu\u00e9m nos ia fazer mal, mas que no dia anterior agentes de pol\u00edcia lhes tinham dado 24 horas para sair dali sem qualquer alternativa. Nesse momento, uma carrinha dos servi\u00e7os municipais chegou carregada de grades que foram despejadas contra as traseiras da igreja.<\/p>\n\n\n\n<p>Atrav\u00e9s de apelos nas redes sociais foi poss\u00edvel chamar em pouco tempo algumas dezenas de pessoas, incluindo jornalistas e representantes pol\u00edticos. O aparato foi suficiente para que o desalojamento fosse cancelado. Mais tarde, Filipa Roseta, vereadora municipal respons\u00e1vel pela pasta da habita\u00e7\u00e3o, ter\u00e1 afirmado que a opera\u00e7\u00e3o de expuls\u00e3o havia sido cancelada por n\u00e3o se ter garantido alternativa habitacional para todas as pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Fiquei at\u00e9 perto da meia-noite, apesar do frio. Dei uma volta \u00e0 igreja antes de ir embora. Por esses dias haviam chegado algumas dezenas de migrantes senegaleses, gambianos e malianos que se instalaram precariamente no passeio entre o Centro Nacional de Apoio \u00e0 Integra\u00e7\u00e3o de Migrantes e a igreja. Uma mulher de roup\u00e3o e chinelos passeava o c\u00e3o por ali. Ao passar por mim largou um desabafo, alto o suficiente para eu ouvir: \u201cera regar isto tudo com gasolina, ficava o problema resolvido\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos meses seguintes, at\u00e9 \u00e0 chegada do ver\u00e3o, passei tardes e ser\u00f5es na igreja dos Anjos. Sem jornal, fiquei por afinidade, medindo a confian\u00e7a atrav\u00e9s do que partilhavam comigo. Afinal, eram meus vizinhos e vizinhas. Cedo garantiram que se estivesse a estorvar mo diriam. O interesse jornal\u00edstico desapareceu. Decidi que n\u00e3o poderia, afinal, escrever o que fosse sobre a sociedade que se formou na igreja dos Anjos. N\u00e3o queria ser um vampiro&nbsp;<em>freelancer<\/em>. Agora que a sociedade foi desfeita dou meio passo atr\u00e1s para escrever este memorial.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira coisa que me perguntavam sempre que l\u00e1 chegava era: \u201cj\u00e1 comeste?\u201d. A segunda era: \u201ctens um cigarrinho?\u201d. Num dia de mar\u00e7o, para celebrar o 28.\u00ba anivers\u00e1rio do morador mais novo do canto nordeste do jardim da igreja dos Anjos, convidaram-me para um churrasco. Uns foram buscar paletes para fazer o lume. Outros angariaram dinheiro e trouxeram asas de frango, salsichas frescas, p\u00e3o, vinho, cebola e alho. Para a marinada, levei colorau, lim\u00e3o e azeite. Conseguimos comer tudo antes de chegarem doze jovens agentes da PSP de bast\u00e3o na m\u00e3o ordenando que apag\u00e1ssemos o lume.<\/p>\n\n\n\n<p>Em in\u00edcios de abril, a junta de Arroios afixou cartazes que diziam que o jardim seria alvo de uma reabilita\u00e7\u00e3o. Quem l\u00e1 vivia come\u00e7ou a preparar-se para ser expulso, outra vez. Dias depois apareceram montadas no adro da igreja duas tendas de campanha onde funcion\u00e1rias da junta e da Santa Casa, auxiliadas por agentes da Pol\u00edcia Municipal, se dedicaram a identificar pessoas a encaminhar para abrigos tempor\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Na igreja dos Anjos para al\u00e9m de uma minoria de portugueses (todos com mais de 50 anos) havia gente de todo mundo: Brasil, Angola, Cabo Verde, S\u00e3o Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe, Arg\u00e9lia, Tun\u00edsia, Palestina, S\u00edria, \u00cdndia, G\u00e2mbia, Senegal, Mali. Aqueles que n\u00e3o tivessem a sua situa\u00e7\u00e3o regularizada, vulgo pap\u00e9is, seriam identificados pela pol\u00edcia, que lidaria com essa situa\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m se distribu\u00edram panfletos com endere\u00e7os de plataformas&nbsp;<em>online&nbsp;<\/em>de procura de trabalho, para que as pessoas sem casa encontrassem emprego \u201csem ter de sair de casa\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Foram poucas as pessoas que sa\u00edram para abrigos, quase todas portuguesas ou falantes de portugu\u00eas. Esse rapaz de 28 anos, cujo anivers\u00e1rio celebr\u00e1mos um m\u00eas antes, foi um deles. Foi para o Beato. Voltei a v\u00ea-lo passados dois dias, nos degraus da igreja. Queixou-se de \u00e1gua fria dos chuveiros, camaratas cheias de gente e sem privacidade, seguran\u00e7as privados que o trataram como se fosse um prisioneiro. Tanto quanto sei, passou a viver numa tenda perto do Alto de S\u00e3o Jo\u00e3o. Um outro homem, portugu\u00eas de 67 anos, passou por dois abrigos tempor\u00e1rios entre abril e setembro. Quando o tempo se acabou voltou a dormir na igreja, onde o encontrei e onde ficou at\u00e9 4 de outubro.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse dia, cerca de 60 pessoas foram retiradas do jardim da igreja dos Anjos e da rua \u00c1lvaro Coutinho, adjacente. O processo come\u00e7ou ao fim da tarde, discretamente. Os moradores receberam um aviso 48 horas antes e perderam muitas coisas que tinham guardado &#8212; alguns ao longo de ano e meio. A maioria foi realojada em host\u00e9is, em condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias de privacidade e salubridade. Outros n\u00e3o aceitaram o alojamento. Est\u00e3o hoje distribu\u00eddos pelas arcadas da avenida Almirante Reis.<\/p>\n\n\n\n<p>No seu discurso nas comemora\u00e7\u00f5es do 5 de outubro, o presidente da c\u00e2mara de Lisboa, Carlos Moedas, afirmou: \u201cajud\u00e1mos todas as pessoas que estavam \u00e0 volta da Igreja dos Anjos a encontrar um teto\u201d. Um m\u00eas de estadia num hostel sobrelotado dificilmente se pode considerar um teto. \u00c9 um al\u00edvio. H\u00e1 quem alcatroe estradas para mostrar obra feita, Moedas limpou a igreja dos Anjos para acalmar os fregueses de Arroios e n\u00e3o ferir a susceptibilidade dos turistas que passam nos autocarros descapot\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando terminar o m\u00eas que a c\u00e2mara ter\u00e1 adiantado aos donos dos host\u00e9is, para onde v\u00e3o as pessoas? N\u00e3o se podendo reg\u00e1-las com gasolina, nem mant\u00ea-las indefinidamente em camaratas, \u00e9 urgente saber se voltar\u00e3o para a rua e se as promessas de \u201csolu\u00e7\u00f5es individuais\u201d s\u00e3o verdadeiras. Com o hist\u00f3rico de mentiras deste executivo, h\u00e1 que estar atento.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cheguei \u00e0 igreja dos Anjos no dia 20 de fevereiro deste ano para come\u00e7ar uma investiga\u00e7\u00e3o. Era jornalista do Setenta e Quatro, seman\u00e1rio que fechou portas um m\u00eas depois. Acompanhavam-me Ricardo Cabral Fernandes, colega e diretor, e Ana Lu\u00edsa Melo, do Lisboa Invis\u00edvel, que j\u00e1 conhecia algumas das pessoas que habitavam ali. A ideia &#8211; de moralidade d\u00fabia, mas inten\u00e7\u00f5es s\u00e3s &#8211; era passar ali duas noites e decidir que rumo dar \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":135,"featured_media":8563,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[50],"tags":[],"coauthors":[232],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8562"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/135"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8562"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8562\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8617,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8562\/revisions\/8617"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8563"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8562"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8562"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8562"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=8562"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}