{"id":8509,"date":"2024-10-24T11:54:30","date_gmt":"2024-10-24T11:54:30","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=8509"},"modified":"2024-12-17T15:36:20","modified_gmt":"2024-12-17T15:36:20","slug":"a-dinamite-so-rebenta-com-rastilho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2024\/10\/24\/a-dinamite-so-rebenta-com-rastilho\/","title":{"rendered":"\u201cA dinamite s\u00f3 rebenta com rastilho\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>\u201cChega de matarem os nossos filhos, chega de matarem os nossos irm\u00e3os, chega de matarem os nossos amigos\u201d, grita uma jovem de megafone na m\u00e3o. \u201cChega de pol\u00edcia assassina\u201d, responde, em un\u00edssono, um grupo de quase tr\u00eas dezenas de mulheres. Um dia depois da morte de Odair Moniz, baleado pela pol\u00edcia na Cova da Moura, Amadora, a revolta pressente-se em cada rosto. Mulheres e homens, jovens e idosos, ningu\u00e9m arreda p\u00e9 das ruas do Bairro do Zambujal. Era aqui que vivia o cozinheiro de 43 anos com a sua companheira e os tr\u00eas filhos. De tempos a tempos, ouve-se o rebentamento de um petardo. O ambiente \u00e9 de cortar \u00e0 faca.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 sa\u00edda deste bairro de 6 mil moradores, junto \u00e0 pol\u00edcia, est\u00e3o as televis\u00f5es. As mulheres caminham nessa dire\u00e7\u00e3o e viram costas aos agentes, num minuto de sil\u00eancio em que todas levantam os punhos. \u201cUnidas pela for\u00e7a\u201d, gritam imediatamente a seguir. Ao longe, dezenas de jovens encapuzados preparam o seu luto incendi\u00e1rio. De passa montanhas, um deles empurra sozinho um contentor amarelo pela rua. De forma aned\u00f3tica, algu\u00e9m lhe grita do cimo do pr\u00e9dio pelo nome pr\u00f3prio, destapando-lhe a identidade. Um grupo de adolescentes despeja uma enorme caixa de garrafas de vidro vazias. \u00c9 um arsenal rudimentar para enfrentar aut\u00eanticos robocops. David contra Golias em vers\u00e3o moderna. Na cabe\u00e7a destes rapazes, aqueles que assassinaram o seu vizinho.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"578\" src=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/5823447905430789034-1024x578.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-8515\" srcset=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/5823447905430789034-1024x578.jpg 1024w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/5823447905430789034-300x169.jpg 300w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/5823447905430789034-768x433.jpg 768w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/5823447905430789034-220x124.jpg 220w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/5823447905430789034.jpg 1280w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Dezenas de mulheres viram costas \u00e0 pol\u00edcia \u00e0 entrada do Zambujal.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00f3s somos os palestinianos de Portugal\u201d, assegura um homem que nada tem a ver com aquele grupo. Vem da Cova da Moura e explica que Odair, baleado no seu bairro, era muito querido ali e noutras zonas da Amadora. N\u00e3o se quer identificar mas diz que \u00e9 barbeiro de profiss\u00e3o e que agora trabalha na constru\u00e7\u00e3o civil. As televis\u00f5es s\u00e3o respons\u00e1veis pela m\u00e1 imagem dos bairros perante a opini\u00e3o p\u00fablica, acusa, e recorda que este \u00e9 um lugar pac\u00edfico, referindo o trabalho da Academia Johnson com a popula\u00e7\u00e3o mais carenciada.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta opini\u00e3o \u00e9 corroborada mais \u00e0 frente por tr\u00eas homens com cerca de 60 anos. N\u00e3o compreendem como \u00e9 que \u201calgu\u00e9m t\u00e3o bom\u201d pode ter sido v\u00edtima da viol\u00eancia policial. Ningu\u00e9m acredita na vers\u00e3o da faca. \u201cE mesmo que tivesse uma faca, a pol\u00edcia \u00e9 treinada para essas situa\u00e7\u00f5es. Podiam ter disparado para as pernas e n\u00e3o para o peito\u201d. Indignados com a falta de assist\u00eancia dos agentes, treinados tamb\u00e9m para prestar os primeiros socorros, acreditam que Odair Moniz estaria apenas embriagado e esse seria o motivo da alegada fuga. N\u00e3o muito longe, perto de uma parede com o rosto de Nelson Mandela, outro grupo de moradores tamb\u00e9m discute sobre a alegada faca e sugere ser uma vers\u00e3o constru\u00edda pela pol\u00edcia para justificar a morte do vizinho na Cova da Moura. \u201cMuito boa pessoa\u201d, repete um pastor evang\u00e9lico, que compreende a revolta dos mais jovens. \u201cA dinamite s\u00f3 rebenta com rastilho\u201d, recorda algu\u00e9m ao lado.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Apagar a fogueira com gasolina<\/h2>\n\n\n\n<p>V\u00e1rios jovens de cara tapada convidam o motorista e v\u00e1rios passageiros a sair do autocarro. Este \u00e9 o seu bairro. Nesta revolta suburbana em que desafiam o monop\u00f3lio da viol\u00eancia estatal, usam as poucas armas ao seu dispor. \u00c9 a vingan\u00e7a dos marginalizados. Chegou a hora do luto incendi\u00e1rio. Dezenas correm de diferentes partes. Apedrejam as janelas da viatura da Carris e incendeiam barricadas. Longe dos pr\u00e9dios, porque querem proteger as casas. De seguida, v\u00e1rios cocktails molotov voam em dire\u00e7\u00e3o ao autocarro que, envolto em chamas, adia o anoitecer por breves instantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Das janelas dos pr\u00e9dios, gritos avisam que a pol\u00edcia acaba de avan\u00e7ar bairro adentro. Armados de escudos, capacetes, viseiras, bast\u00f5es, com o apoio de armas letais e n\u00e3o letais, para os jovens que se barricam e enfrentam os agentes \u00e0 pedrada, o azul destas fardas \u00e9 indistingu\u00edvel do azul de quem matou Odair Moniz.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"926\" height=\"596\" data-id=\"8516\"  src=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/5823447905430789037.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-8516\" srcset=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/5823447905430789037.jpg 926w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/5823447905430789037-300x193.jpg 300w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/5823447905430789037-768x494.jpg 768w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/5823447905430789037-220x142.jpg 220w\" sizes=\"(max-width: 926px) 100vw, 926px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Jovens destroem e incendeiam autocarro da Carris.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"649\" data-id=\"8514\"  src=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/5823447905430789030-1024x649.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-8514\" srcset=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/5823447905430789030-1024x649.jpg 1024w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/5823447905430789030-300x190.jpg 300w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/5823447905430789030-768x487.jpg 768w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/5823447905430789030-220x139.jpg 220w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/5823447905430789030.jpg 1280w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Momentos depois da entrada da pol\u00edcia de interven\u00e7\u00e3o no interior do Bairro do Zambujal.<\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p>Meia hora depois, a advogada da fam\u00edlia da v\u00edtima recebe uma chamada urgente. A pol\u00edcia invadiu a casa da vi\u00fava de Odair Moniz. Catarina Morais n\u00e3o quer acreditar. De acordo com declara\u00e7\u00f5es da advogada \u00e0 Voz do Oper\u00e1rio, tr\u00eas agentes da for\u00e7a de interven\u00e7\u00e3o acabam de rebentar a porta e de agredir v\u00e1rios familiares e amigos enlutados. \u201cUm arrombamento violento provocou que toda a aduela da porta saltasse do lado interior\u201d, descreve. \u201cAssim que entraram em casa agrediram com o cassetete uma pessoa. Depois, bateram nos m\u00f3veis da entrada e abriram a porta da cozinha onde estava uma rapariga que foi agredida com o cassetete. Entretanto, disseram um improp\u00e9rio e foram-se embora\u201d. Catarina Morais dirige-se para a casa de Odair Moniz para recolher testemunhos e provas da invas\u00e3o quando algu\u00e9m avisa que a pol\u00edcia est\u00e1 a voltar ao local. A advogada recebe-os \u00e0 porta com a presen\u00e7a de um canal de televis\u00e3o. \u201cEles ficaram surpreendidos\u201d, descreve. \u201cDisseram-nos que s\u00f3 estavam ali para pedir \u00e0 fam\u00edlia de Odair para fazerem o luto de forma civilizada. Isto \u00e9 inacredit\u00e1vel. O que \u00e9 isto de fazer o luto de forma civilizada?\u201d A not\u00edcia espalhou-se por toda a periferia de Lisboa. Bairros de Sintra, Odivelas, Cascais, Oeiras e Loures aderiram \u00e0 revolta numa madrugada de viol\u00eancia que n\u00e3o se sabe quando estancar\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Constru\u00e7\u00e3o da narrativa da culpa<\/h2>\n\n\n\n<p>Desde que Odair Moniz foi morto pela pol\u00edcia, a PSP j\u00e1 mudou a vers\u00e3o oficial do caso v\u00e1rias vezes. As declara\u00e7\u00f5es do agente incriminado \u00e0 Pol\u00edcia Judici\u00e1ria (PJ) contrariam o auto lavrado no dia da morte \u00e0 PSP quando afirmou que a v\u00edtima teria recorrido a uma arma branca para atacar os pol\u00edcias. De acordo com imagens das c\u00e2maras de videovigil\u00e2ncia analisadas pela PJ, Odair Moniz n\u00e3o tinha qualquer arma nas suas m\u00e3os. O primeiro comunicado da PSP referia ainda que a v\u00edtima tinha sido \u201cprontamente assistida no local\u201d. Contudo, v\u00eddeos gravados no local por moradores mostram que s\u00f3 ap\u00f3s alguma press\u00e3o \u00e9 que os agentes decidiram verificar o pulso de Odair Moniz. <br><br>Uma das pessoas que corrobora esta vers\u00e3o \u00e9 Jakilson Pereira. \u00c9 presidente da mais importante associa\u00e7\u00e3o da Cova da Moura, o Moinho da Juventude, com um trabalho reconhecido junto da popula\u00e7\u00e3o, que mereceu at\u00e9 a visita do Presidente da Rep\u00fablica em 2016. Foi neste bairro que Odair Moniz, do Zambujal, foi baleado pela PSP. O dirigente associativo acusa os agentes de falta de aux\u00edlio e de estarem mais preocupados em encontrar os casquilhos das balas e revistar os bolsos da v\u00edtima do que em salvar-lhe a vida. Tamb\u00e9m denuncia que qualquer desobedi\u00eancia \u00e0 lei em diversos espa\u00e7os do pa\u00eds \u00e9 tratada de forma diferente. \u201cNoutras regi\u00f5es, sobretudo a norte, eu n\u00e3o vejo essa forma de abordagem com os prevaricadores. Colocam em segundo plano a vida humana, tentam invisibilizar porque \u00e9 uma vida humana racializada [Odair Moniz] e criam uma narrativa para justificar a barb\u00e1rie\u201d, explica. <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"886\" height=\"591\" src=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/covadamoura_300cmyk.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-8521\" srcset=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/covadamoura_300cmyk.jpg 886w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/covadamoura_300cmyk-300x200.jpg 300w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/covadamoura_300cmyk-768x512.jpg 768w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/covadamoura_300cmyk-150x100.jpg 150w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/covadamoura_300cmyk-370x247.jpg 370w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/covadamoura_300cmyk-220x147.jpg 220w\" sizes=\"(max-width: 886px) 100vw, 886px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Jakilson Pereira, membro da dire\u00e7\u00e3o do Moinho da Juventude, associa\u00e7\u00e3o da Cova da Moura.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>De acordo com Jakilson Pereira, o primeiro comunicado da PSP d\u00e1 a entender que h\u00e1 a inten\u00e7\u00e3o de manipular. Para al\u00e9m da refer\u00eancia \u00e0 faca, veio a p\u00fablico a exist\u00eancia de uma viatura roubada. \u201cDois dias depois, acompanhando os factos com os v\u00eddeos e com testemunhas presenciais, nada disso \u00e9 factual. A viatura era da v\u00edtima. E ao contr\u00e1rio do que diz o auto da PSP, agora o pr\u00f3prio agente j\u00e1 desmente \u00e0 Pol\u00edcia Judici\u00e1ria que tenha havido qualquer tentativa de agress\u00e3o com uma faca\u201d. Para o presidente do Moinho da Juventude, a inten\u00e7\u00e3o de manipular n\u00e3o vem dos agentes em causa. \u201cN\u00e3o acredito que a pessoa que disparou \u00e9 que tenha escrito o comunicado. O comunicado saiu da institui\u00e7\u00e3o. E logo ali percebe-se que h\u00e1 uma nega\u00e7\u00e3o de justi\u00e7a e uma tentativa de manipula\u00e7\u00e3o dos factos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A \u00fanica face vis\u00edvel do Estado<\/h2>\n\n\n\n<p>Em 2001, \u00c2ngelo Semedo, de 17 anos, conhecido como Angoi foi morto por um agente da PSP com um tiro de ca\u00e7adeira. Angoi foi abordado por dois pol\u00edcias perto de sua casa por suspeita de roubo de um autom\u00f3vel. O agente foi apenas suspenso por 75 dias. Dois anos depois, Carlos Reis (PTB), de 20 anos, foi baleado na cabe\u00e7a por um agente da PSP, durante uma \u2018opera\u00e7\u00e3o stop\u2019. Segundo a pol\u00edcia, foi mandado parar, mas desobedeceu \u00e0 ordem. No ano seguinte, em 2004, no Bairro 6 de Maio, na Amadora, Jos\u00e9 Carlos Vicente, conhecido por Teti, de 16 anos, foi agredido pela pol\u00edcia acabando por morrer no Hospital Amadora-Sintra. V\u00edtima de uma hemorragia, entrou em paragem card\u00edaca. Em 2009, Edson Sanches (Kuku), de 14 anos, morador na Quinta da Laje, Amadora, morreu baleado pela pol\u00edcia. Tr\u00eas agentes da PSP \u00e0 paisana encurralaram um ve\u00edculo com cinco suspeitos de furto, incluindo Kuku, filho de emigrantes cabo-verdianos, que frequentava uma escola na Reboleira. Depois de uma persegui\u00e7\u00e3o, Kuku foi abatido \u00e0 queima-roupa com um tiro na cabe\u00e7a a uma dist\u00e2ncia de menos de 20 cent\u00edmetros. O agente respons\u00e1vel pelo disparo foi absolvido. Em janeiro de 2020, Cl\u00e1udia Sim\u00f5es foi v\u00edtima de agress\u00f5es policiais depois de ser alvo de deten\u00e7\u00e3o violenta em frente \u00e0 filha que se esquecera do passe do transporte. A luso-angolana acabou tamb\u00e9m acusada pelo tribunal de agredir o agente Carlos Canha.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em fevereiro de 2015, Fl\u00e1vio Almada, tamb\u00e9m conhecido como LBC, foi ilegalmente detido pela PSP na esquadra de Alfragide com outros moradores da Cova da Moura quando se deslocaram ao local para pedir esclarecimentos sobre a deten\u00e7\u00e3o de um jovem do bairro. Os tribunais deram como provado que foram alvo de deten\u00e7\u00e3o ilegal e de agress\u00f5es policiais, uma rara senten\u00e7a que teve como resultado um agente condenado a pena de pris\u00e3o efetiva e outros a pena suspensa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"788\" height=\"591\" src=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/lbc-vidajusta_300cmyk.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-8517\" srcset=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/lbc-vidajusta_300cmyk.jpg 788w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/lbc-vidajusta_300cmyk-300x225.jpg 300w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/lbc-vidajusta_300cmyk-768x576.jpg 768w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/lbc-vidajusta_300cmyk-220x165.jpg 220w\" sizes=\"(max-width: 788px) 100vw, 788px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Fl\u00e1vio Almada considera que h\u00e1 que acabar com a classifica\u00e7\u00e3o de zonas urbanas sens\u00edveis.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m membro do movimento Vida Justa, com uma forte liga\u00e7\u00e3o aos bairros da periferia de Lisboa, Fl\u00e1vio Almada considera que falta debate sobre d\u00e9cadas de impunidade. \u201cH\u00e1 d\u00e9cadas que h\u00e1 casos de jovens da periferia, moradores e trabalhadores dos bairros, que s\u00e3o mortos em circunst\u00e2ncias estranhas, desarmados, com tiros nas zonas vitais e n\u00e3o acontece nada. V\u00e3o-se queixar onde? Conhecemos situa\u00e7\u00f5es de pessoas agredidas ou brutalizadas que v\u00e3o ao tribunal e saem como arguidas\u201d, denuncia. \u201cComo aconteceu com a execu\u00e7\u00e3o do nosso irm\u00e3o Odair, as v\u00edtimas s\u00e3o desumanizadas no espa\u00e7o p\u00fablico para normalizar o teor da for\u00e7a de repress\u00e3o da pol\u00edcia que atua nas nossas comunidades como um ex\u00e9rcito de ocupa\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tem d\u00favidas. Esta revolta \u00e9 \u201co grito dos oprimidos\u201d, o grito \u201cde quem est\u00e1 sufocado com a opress\u00e3o e j\u00e1 n\u00e3o tem mais aonde recorrer\u201d. N\u00e3o \u00e9 vandalismo, considera. \u201c\u00c9 um grito por justi\u00e7a. Temos uma experi\u00eancia coletiva nos bairros de viol\u00eancia policial, de repress\u00e3o e uma cultura de impunidade quando a pol\u00edcia mata algu\u00e9m ou tortura pessoas. Invadirem a casa da fam\u00edlia enlutada \u00e9 o qu\u00ea? N\u00e3o respeitam sequer o luto. Porqu\u00ea? Isso \u00e9 mais uma forma de mostrar desprezo\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Com manifesta\u00e7\u00e3o marcada para o pr\u00f3ximo s\u00e1bado, 26 de outubro, do Marqu\u00eas de Pombal \u00e0 Assembleia da Rep\u00fablica, Fl\u00e1vio Almada entende que h\u00e1 que exigir ao poder pol\u00edtico a remo\u00e7\u00e3o a classifica\u00e7\u00e3o das zonas urbanas sens\u00edveis, que considera ser \u201cuma forma de criminaliza\u00e7\u00e3o territorial e criminaliza\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es\u201d, em particular \u201cdos negros, dos ciganos e das pessoas pobres da periferia\u201d, e criar pol\u00edticas sociais p\u00fablicas direcionadas para esses territ\u00f3rios \u201ccom a participa\u00e7\u00e3o, a discuss\u00e3o e a decis\u00e3o dos moradores\u201d. Em muitos destes bairros inexistem transportes, escolas, servi\u00e7os de sa\u00fade, manuten\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico, habita\u00e7\u00e3o digna. Entre a popula\u00e7\u00e3o da Cova da Moura e do Zambujal, s\u00e3o muitos os que consideram que a \u00fanica face presente do Estado nos bairros \u00e9 a repress\u00e3o policial.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Odair Moniz morreu baleado por agentes da PSP na Cova da Moura. \u00c9 este o nome que corre de boca em boca nos bairros da periferia de Lisboa. N\u00e3o \u00e9 o primeiro. Temem que n\u00e3o seja o \u00faltimo. A fam\u00edlia da v\u00edtima acusa a pol\u00edcia de invadir a casa sem mandado e de rebentar a porta do apartamento enlutado agredindo v\u00e1rias pessoas \u00e0 bastonada. A morte de mais um homem \u00e0s m\u00e3os da pol\u00edcia \u00e9 o rastilho de uma explos\u00e3o que n\u00e3o sabemos onde vai parar.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":8518,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[55],"tags":[],"coauthors":[71],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8509"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8509"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8509\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8646,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8509\/revisions\/8646"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8518"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8509"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8509"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8509"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=8509"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}