{"id":8496,"date":"2024-10-16T11:25:04","date_gmt":"2024-10-16T11:25:04","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=8496"},"modified":"2024-10-16T11:25:06","modified_gmt":"2024-10-16T11:25:06","slug":"a-revolucao-que-me-ensinaram-o-confronto-entre-a-narrativa-pessoal-e-a-historia-de-abril","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2024\/10\/16\/a-revolucao-que-me-ensinaram-o-confronto-entre-a-narrativa-pessoal-e-a-historia-de-abril\/","title":{"rendered":"\u201cA Revolu\u00e7\u00e3o que me Ensinaram\u201d: o confronto entre a narrativa pessoal e a Hist\u00f3ria de Abril"},"content":{"rendered":"\n<p>Foi numa das \u00faltimas noites de ver\u00e3o que o Clube Estef\u00e2nia recebeu, no Espa\u00e7o Escola de Mulheres \u201cA Revolu\u00e7\u00e3o que me Ensinaram\u201d. Trata-se de uma cria\u00e7\u00e3o da actriz, encenadora e investigadora Joana Cotrim, que contou com a parceria da actriz Rita Morais. Comecemos pelo enquadramento da pe\u00e7a e g\u00e9nese do projecto. Joana Cotrim tinha uma quest\u00e3o pessoal ligada \u00e0 forma como a fam\u00edlia viveu e contava o que aconteceu no 25 de Abril de 1974 e meses que se seguiram. O seu av\u00f4 materno foi um dos mentores do Partido Liberal, for\u00e7a pol\u00edtica, que, a 28 de Setembro de 1974, quis levar a cabo a chamada \u201crevolu\u00e7\u00e3o silenciosa\u201d, contra o medo da implementa\u00e7\u00e3o do comunismo em Portugal. Essa for\u00e7a reaccion\u00e1ria foi travada; o av\u00f4 e restante fam\u00edlia emigraram para o Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria de Joana come\u00e7a neste estilha\u00e7amento. Nasce no Rio de Janeiro, onde vive at\u00e9 aos oito anos. Vem nessa altura para Portugal. N\u00e3o se sente portuguesa, est\u00e1 longe do lugar onde passou os primeiros anos. Al\u00e9m do ex\u00edlio, de se sentir ap\u00e1trida, subsistem em si d\u00favidas sobre os acontecimentos hist\u00f3ricos em torno do mais importante momento que o nosso pa\u00eds viveu no s\u00e9culo XX.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 este o percurso autobiogr\u00e1fico de \u201cA Revolu\u00e7\u00e3o que me Ensinaram\u201d: perceber porque \u00e9 que a fam\u00edlia parecia ser contra o projecto de liberdade que se desenvolvia em Portugal. Para isso, Joana Cotrim conta com a parceria de Rita Morais, que serve de interlocutora, e interpreta tamb\u00e9m o papel de m\u00e3e de Joana.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">De que lado da hist\u00f3ria estar?<\/h2>\n\n\n\n<p>O cen\u00e1rio \u00e9 esparso. Um enorme planeta Terra parece simbolizar as viagens de um ao outro lado do mundo da protagonista; as plantas servem de suporte \u00e0 narrativa (a m\u00e3e rega-as no seu jardim do Rio, por exemplo); a mesa e cadeiras s\u00e3o um ponto de apoio para a reflex\u00e3o sobre o que vai sendo contado. Uma tela projecta imagens&nbsp;<em>memor\u00e1lia<\/em>&nbsp;da actriz, \u00e0s quais se juntam outras, de arquivo, e ainda recortes de imprensa. Esta banda de imag\u00e9tica \u00e9 complementada pelas entrevistas \u00e1udio que a artista fez \u00e0 m\u00e3e. As hist\u00f3rias que a progenitora vai tecendo s\u00e3o complexas. O pai, av\u00f4 de Joana, foi para Angola, era contra a guerra e a favor da independ\u00eancia dos povos colonizados. A m\u00e3e confessa que se sente tripartida, sem saber se \u00e9 de \u00c1frica, de Portugal ou do Brasil. Segundo a m\u00e3e, o av\u00f4 s\u00f3 tinha medo do regime comunista. E foi expulso de Portugal. Joana confronta-a com factos, contrap\u00f5e ideais e \u00e9 contra um certo enviesamento da Hist\u00f3ria que a m\u00e3e parece proclamar. Vemos isso dramaturgicamente quando Rita Morais assume o papel de m\u00e3e, e Joana a enfrenta com aquilo em que acredita e que foi ouvindo e vivenciando no pa\u00eds pol\u00edtico p\u00f3s Abril de 74.<\/p>\n\n\n\n<p>Na inf\u00e2ncia, Joana pressentia o fechamento da fam\u00edlia no Brasil. Vemos a&nbsp;<em>m\u00e3e<\/em>&nbsp;a cantar \u201cUma Casa Portuguesa\u201d enquanto rega o quintal, can\u00e7\u00e3o que apela ao destino popular de uma \u201calegria na pobreza\u201d, algo pr\u00f3ximo do que se proclamava antes da democracia. A jovem Joana sentia, pelo contr\u00e1rio, a energia, liberdade e o entusiasmo do Rio de Janeiro, onde tinha os amigos e absorvia a cultura, mais do que as tradi\u00e7\u00f5es vindas do pa\u00eds de origem materna.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando chega a este lado do Atl\u00e2ntico tem um choque. Ela \u00e9 a brasileira. Os outros mi\u00fados, mesmo que de forma inocente, segregam-na e quase a reduzem \u00e0 sua nacionalidade. Joana tem de reaprender a viver outra vida e modos de estar. Pensa todos os dias no Rio de Janeiro. Tenta adaptar-se.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas sabe que as mem\u00f3rias da inf\u00e2ncia s\u00e3o apenas isso, um passado perdido depois da viagem para Portugal. Parte para Bruxelas, quer sentir-se livre e descobrir o mundo. \u00c9 considerada pela fam\u00edlia uma jovem herdeira da Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos; ao contr\u00e1rio da m\u00e3e, a velha herdeira, com outras ideias e viv\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A aceita\u00e7\u00e3o e a luta pela liberdade de express\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>Joana Cotrim \u00e9 a \u201covelha negra\u201d da fam\u00edlia, que acaba por aceitar a vis\u00e3o pol\u00edtica do av\u00f4. O dilema da actriz em palco, passa por esse confronto com aqueles que lhe s\u00e3o mais pr\u00f3ximos. As palavras que deixa na folha de sala do espect\u00e1culo s\u00e3o esclarecedoras: \u201cQuantas vezes me perguntei se estaria a ser honesta, se n\u00e3o estaria a trair aqueles que amo, se estaria a ter rigor hist\u00f3rico, se n\u00e3o ca\u00edra no erro de dizer aquilo que os outros querem ouvir. Queremos estar do lado certo da Hist\u00f3ria, nem que para isso tenhamos de abreviar os factos e retirar a emo\u00e7\u00e3o contida nas rela\u00e7\u00f5es familiares.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A dramaturgia de \u201cA Revolu\u00e7\u00e3o que me Ensinaram\u201d \u00e9 simples para salientar dois lados; e \u00e9 preciso tentar esclarecer o que aconteceu com a tal acuidade hist\u00f3rica, o que foi a revolu\u00e7\u00e3o e o PREC (Processo Revolucion\u00e1rio em Curso). O sonho de Abril, como a pe\u00e7a de Joana Cotrim convoca, \u00e9 o de uma sociedade livre, mais justa, solid\u00e1ria e igualit\u00e1ria. Essa luta resistente por direitos sociais, econ\u00f3micos, culturais, habitacionais e educacionais continua. O espect\u00e1culo permite concluir que cada um tem uma hist\u00f3ria pessoal e familiar para contar e voltar a convocar. Para que a mem\u00f3ria n\u00e3o se esbata. E a liberdade prossiga como centro da sociedade em que vivemos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi numa das \u00faltimas noites de ver\u00e3o que o Clube Estef\u00e2nia recebeu, no Espa\u00e7o Escola de Mulheres \u201cA Revolu\u00e7\u00e3o que me Ensinaram\u201d. Trata-se de uma cria\u00e7\u00e3o da actriz, encenadora e investigadora Joana Cotrim, que contou com a parceria da actriz Rita Morais. Comecemos pelo enquadramento da pe\u00e7a e g\u00e9nese do projecto. 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