{"id":8421,"date":"2024-10-07T08:38:42","date_gmt":"2024-10-07T08:38:42","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=8421"},"modified":"2024-11-14T11:50:57","modified_gmt":"2024-11-14T11:50:57","slug":"beirute-capital-da-resistencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2024\/10\/07\/beirute-capital-da-resistencia\/","title":{"rendered":"Beirute, capital da resist\u00eancia"},"content":{"rendered":"\n<p>Esta mulher que est\u00e1 sentada no ch\u00e3o, de negro da cabe\u00e7a aos p\u00e9s, na marginal de Beirute, n\u00e3o tem praticamente nada. N\u00e3o tem nome porque n\u00e3o se quer identificar nem que se lhe mostre o rosto. Um chap\u00e9u de sol, um colch\u00e3o individual de espuma e a roupa que tem no corpo foi tudo o que conseguiu trazer na noite em que Israel come\u00e7ou a bombardear o seu bairro, nos sub\u00farbios a sul de Beirute. J\u00e1 passou uma semana desde que fugiu de casa com a fam\u00edlia. A princ\u00edpio, lavavam-se num dos muitos hot\u00e9is e condom\u00ednios de luxo com vista para o Mediterr\u00e2neo. Agora, nem isso podem fazer, diz, porque os propriet\u00e1rios se fartaram. Como esta fam\u00edlia, h\u00e1 milhares de fam\u00edlias por todas as partes. No areal da praia, no passeio mar\u00edtimo, nos separadores e rotundas, em jardins, escolas, em varandas de casas sobrelotadas.<\/p>\n\n\n\n<p>O governo liban\u00eas afirma que h\u00e1, neste momento, um milh\u00e3o de refugiados, n\u00fameros nunca vistos num pa\u00eds que j\u00e1 foi invadido por Israel quatro vezes, que viveu uma guerra civil e que tinha, at\u00e9 h\u00e1 bem pouco tempo, no seu territ\u00f3rio, cerca de dois milh\u00f5es de refugiados palestinianos e s\u00edrios. Milhares de libaneses fogem agora para a S\u00edria e para o Iraque. Os ricos fogem de iate para Chipre, numa prova irrefut\u00e1vel de que, como sempre, as trag\u00e9dias s\u00e3o vividas de forma diferente consoante a classe social a que se pertence. Contudo, Beirute n\u00e3o esquece os seus e, por todo o lado, em cada esquina, \u00e9 poss\u00edvel ver quem descarregue colch\u00f5es, garraf\u00f5es de \u00e1gua e outro tipo de v\u00edveres essenciais. E em v\u00e1rios pontos da cidade, organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas recorrem \u00e0 for\u00e7a para rebentar as portas fechadas de hot\u00e9is e edif\u00edcios desabitados para abrigar os refugiados, como aconteceu no bairro de Hamra, numa das primeiras madrugadas a seguir aos primeiros bombardeamentos. Num ato de revolta, gritando contra Israel, cerca de meia centena de jovens arrancaram o port\u00e3o de um pr\u00e9dio vazio e a seguir conduziram v\u00e1rias fam\u00edlias para o seu interior.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p>O governo liban\u00eas afirma que h\u00e1, neste momento, um milh\u00e3o de refugiados, a seguir conduziram v\u00e1rias fam\u00edlias para o seu interior. Dahieh, o cora\u00e7\u00e3o da resist\u00eancia n\u00fameros nunca vistos num pa\u00eds que j\u00e1 foi invadido por Israel quatro vezes, que viveu uma guerra civil e que tinha, at\u00e9 h\u00e1 bem pouco tempo, no seu territ\u00f3rio, cerca de dois milh\u00f5es de refugiados palestinianos e s\u00edrios.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Dahieh, o cora\u00e7\u00e3o da resist\u00eancia<\/h2>\n\n\n\n<p>Esta mulher que est\u00e1 sentada no ch\u00e3o sem praticamente nada n\u00e3o \u00e9 de um bairro qualquer. \u00c9 de Dahieh, e Dahieh \u00e9 uma esp\u00e9cie de nome maldito para Israel. Todas as noites, sem exce\u00e7\u00e3o, a popula\u00e7\u00e3o que vive no basti\u00e3o do Hezbollah \u00e9 castigada por apoiar a resist\u00eancia. Foi aqui que no dia 27 de setembro a avia\u00e7\u00e3o israelita lan\u00e7ou 80 bombas com quase uma tonelada de explosivos sobre o quartel-general da organiza\u00e7\u00e3o xiita para matar Hassan Nasrallah e outras figuras importantes. De l\u00e1grimas nos olhos, diz ainda n\u00e3o acreditar que morreu. \u201cPrecisamos do Hezbollah para nos defender\u201d. Durante quase um dia, o pa\u00eds parou em suspenso. Apoiantes e inimigos, todos esperavam saber da sorte de Nasrallah. Por volta das 14 horas do dia seguinte, gritos e l\u00e1grimas tomaram conta das ruas. E mulheres vestidas de negro como esta choraram a morte do seu her\u00f3i.<\/p>\n\n\n\n<p>O hist\u00f3rico secret\u00e1rio-geral do Hezbollah negociava uma tr\u00e9gua quando foi assassinado por Israel, o mesmo que acontecera ao l\u00edder do Hamas, Ismail Haniyeh, no Ir\u00e3o. Ent\u00e3o, os Estados Unidos haviam prometido a Teer\u00e3o que Telavive aceitaria o cessar-fogo se n\u00e3o respondesse ao atentado. Com a cumplicidade dos Estados Unidos, n\u00e3o s\u00f3 isso n\u00e3o aconteceu, como Israel estendeu a sua guerra ao L\u00edbano e intensificou os ataques na S\u00edria e no I\u00e9men.<\/p>\n\n\n\n<p>Caminhar pelo bairro de Dahieh \u00e9 percorrer ruas completamente destru\u00eddas, ver autom\u00f3veis esmagados e crateras onde antes havia pr\u00e9dios. \u00c9 um cen\u00e1rio desolador. Sobre uma montanha de destro\u00e7os, algu\u00e9m p\u00f4s o retrato de Hassan Nasrallah. \u201cFuck Israel, we will win!\u201d, gritam v\u00e1rios jovens quando se apercebem de que h\u00e1 jornalistas na zona. \u00c0 Voz do Oper\u00e1rio, um militante do Hezbollah que aceita falar sob anonimato recorda o papel do at\u00e9 agora l\u00edder da organiza\u00e7\u00e3o. \u201cEra enorme. Tiveram de usar uma tonelada de explosivos para o matar. Prevaleceremos e venceremos\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1, neste momento, por parte de Israel, uma campanha de assassinatos de dirigentes das principais organiza\u00e7\u00f5es da resist\u00eancia libanesa e palestiniana. No bairro de Kola, em Beirute, a avia\u00e7\u00e3o israelita destruiu tr\u00eas andares de um pr\u00e9dio para matar tr\u00eas destacados militantes da Frente Popular para a Liberta\u00e7\u00e3o da Palestina, a hist\u00f3rica organiza\u00e7\u00e3o comunista que combate ao lado do Hamas e outras for\u00e7as da resist\u00eancia contra as for\u00e7as de Israel em Gaza e na Cisjord\u00e2nia.<\/p>\n\n\n\n<p>A viol\u00eancia do ataque atirou varandas de ferro para o outro lado da rua. Ali, num descampado debaixo de um viaduto, centenas de documentos, livros e cartazes jaziam inertes como prova de fogo. Um documento de sauda\u00e7\u00e3o \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o de Lula da Silva da pris\u00e3o, um cartaz com Fidel Castro a discursar em Havana e o retrato de L\u00e9nine eram alguns dos objetos que se podiam encontrar no local. No dia seguinte ao ataque, milhares de palestinianos e libaneses acompanharam o funeral que percorreu os v\u00e1rios campos de refugiados.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Israel ataca hospitais e centros de sa\u00fade<\/h2>\n\n\n\n<p>O Hospital Rafik Hariri fica ao lado do campo de refugiados palestinianos Mar Elias e demasiado perto de Dahieh. \u00c9 o maior centro hospitalar de Beirute, com espa\u00e7o para 550 pacientes. Todos os dias chegam aqui mulheres e homens v\u00edtimas das bombas de Israel. Neste momento, 80% da capacidade ocupada corresponde a feridos de guerra. \u201cAt\u00e9 ao momento, temos reduzido ao m\u00e1ximo casos que podem ser adiados. Queremos todas as camas para as v\u00edtimas da guerra\u201d, explica Jihad Sade, o diretor hospitalar, no seu gabinete. Com a experi\u00eancia de quem j\u00e1 viveu v\u00e1rias invas\u00f5es israelitas, descreve os trabalhadores que dirige como muito preparados para tratar o tipo de feridas mais comuns neste cen\u00e1rio de conflito.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o n\u00famero de mortes provocadas por Israel desde 8 de outubro de 2023 a chegar aos 2 mil, incluindo 127 crian\u00e7as, Jihad Sade diz que \u00e9 imprevis\u00edvel o comportamento de Telavive em rela\u00e7\u00e3o aos equipamentos de sa\u00fade. Em Bachoura, um bairro central de Beirute, Israel atacou um centro de sa\u00fade durante a noite e matou nove profissionais de sa\u00fade. Como em Gaza, as for\u00e7as israelitas n\u00e3o t\u00eam linhas vermelhas e ao fecho desta edi\u00e7\u00e3o tinham morto j\u00e1 73 destes trabalhadores em diferentes partes do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com este m\u00e9dico, a guerra vai acabar quando houver respeito entre todos. \u201cD\u00eaem direitos [aos palestinianos]. A for\u00e7a \u00e9 tempor\u00e1ria e o conflito n\u00e3o vai acabar se n\u00e3o respeitarem os direitos [dos palestinianos].<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma cidade \u00e9 feita de muitas contradi\u00e7\u00f5es, das suas luzes e sombras, dos seus cheiros e sons e, sobretudo, das hist\u00f3rias de quem nela vive. Das costureiras aos artes\u00e3os, dos taxistas \u00e0s cozinheiras. O L\u00edbano \u00e9, hoje como no passado, um lugar assediado pelas bombas israelitas, onde mulheres e homens enfrentam a invas\u00e3o com a dignidade de quem entende estar do lado certo da hist\u00f3ria. Beirute, uma vez mais, \u00e9 a capital da resist\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":8431,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[55],"tags":[],"coauthors":[71],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8421"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8421"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8421\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8590,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8421\/revisions\/8590"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8431"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8421"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8421"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8421"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=8421"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}