{"id":8371,"date":"2024-09-10T11:45:54","date_gmt":"2024-09-10T11:45:54","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=8371"},"modified":"2024-09-10T11:45:55","modified_gmt":"2024-09-10T11:45:55","slug":"migracao-climatica-estrategia-de-adaptacao-e-uma-questao-de-justica-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2024\/09\/10\/migracao-climatica-estrategia-de-adaptacao-e-uma-questao-de-justica-social\/","title":{"rendered":"Migra\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica: Estrat\u00e9gia de adapta\u00e7\u00e3o e uma quest\u00e3o de justi\u00e7a social"},"content":{"rendered":"\n<p>A Organiza\u00e7\u00e3o Internacional para as Migra\u00e7\u00f5es (2022) estima que na \u00faltima d\u00e9cada cerca de 21.6 milh\u00f5es de pessoas foram obrigadas a deixar as suas casas e locais de resid\u00eancia devido a tempestades, cheias, inc\u00eandios, secas, ondas de calor ou outros eventos clim\u00e1ticos. As proje\u00e7\u00f5es apontam para uma tend\u00eancia crescente destes n\u00fameros, com a Ag\u00eancia da ONU para Refugiados (ACNUR<em>)<\/em>&nbsp;a prever que at\u00e9 2050 mais de 1,2 mil milh\u00f5es de pessoas ser\u00e3o desalojadas devido a eventos relacionados com o clima.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando falamos em migrantes clim\u00e1ticos referimo-nos n\u00e3o s\u00f3 \u00e0queles que decidem ou s\u00e3o for\u00e7ados a deixar as suas casas devido a eventos clim\u00e1ticos inesperados (ex., cheias, ciclones), mas tamb\u00e9m a mudan\u00e7as ambientais progressivas (ex., seca prolongada, desertifica\u00e7\u00e3o). Nesta defini\u00e7\u00e3o, inclui-se quer os migrantes tempor\u00e1rios, quer os permanentes. A maior parte das pessoas decide migrar dentro do seu pr\u00f3prio pa\u00eds, mas s\u00e3o tamb\u00e9m muitos os que se deslocam para outros pa\u00edses e continentes. Assim, urge olharmos para a migra\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica como uma quest\u00e3o de justi\u00e7a social, uma vez que s\u00e3o sobretudo as pessoas e comunidades mais pobres e marginalizadas que se movem devido \u00e0s altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas. Paradoxalmente, \u00e9 nos pa\u00edses menos respons\u00e1veis pelas altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, nomeadamente no Sul Global, que mais frequentemente as pessoas s\u00e3o for\u00e7adas a deixar as suas casas e locais de resid\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Consideremos Mo\u00e7ambique como exemplo. Em 2019, Mo\u00e7ambique foi afetado por dois ciclones \u2013 Idai and Kenneth \u2013 que levaram ao desalojamento de mais de 130.000 pessoas. Apenas dois anos depois, em Janeiro de 2021, o ciclone Eloise desalojou mais de 100.000 pessoas. Para al\u00e9m disso, o pa\u00eds tem sofrido secas intensas e consequente pobreza, e enfrenta um grave conflito pol\u00edtico e militar desde 2017. Mo\u00e7ambique ilustra bem a conflu\u00eancia de crises e fatores sociais, pol\u00edticos e ambientais que devem ser considerados quando falamos de migra\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica. O apoio e suporte dos pa\u00edses do Norte Global, por exemplo atrav\u00e9s de fundos de perdas e danos do clima, s\u00e3o fundamentais para criar condi\u00e7\u00f5es para que as pessoas e comunidades afetadas possam migrar \u2013 ou que tenham as condi\u00e7\u00f5es para ficar nas suas localidades \u2013 com justi\u00e7a e dignidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Portugal, e bem recentemente, tamb\u00e9m assistimos a um tipo de mobilidade relacionada com o clima. Os graves inc\u00eandios na ilha da Madeira em Agosto deste ano levaram ao desalojamento de 160 pessoas. Dados recentes do Instituto de Recursos Mundial (2024) sugerem que as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas s\u00e3o um dos principais fatores que explicam o aumento e a intensidade dos inc\u00eandios florestais. As ondas de calor cada vez mais frequentes, o aumento global das temperaturas e as paisagens cada vez mais secas est\u00e3o a criar as condi\u00e7\u00f5es perfeitas para inc\u00eandios mais frequentes e intensos. Por sua vez, os inc\u00eandios tendem a aumentar as emiss\u00f5es de gases de efeitos de estufa, contribuindo assim para o aquecimento global. No futuro, \u00e9 muito prov\u00e1vel que sejam cada vez mais frequentes os eventos em Portugal que levam ao desalojamento tempor\u00e1rio, e at\u00e9 mesmo permanente, de comunidades devido a inc\u00eandios ou a outros eventos relacionados ou amplificados pelas altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p>Faltam medidas que ajudem a prevenir e a preparar as pessoas, comunidades e pa\u00edses para a mobilidade clim\u00e1tica. S\u00e3o tamb\u00e9m praticamente inexistentes as medidas orientadas para a inclus\u00e3o e integra\u00e7\u00e3o daqueles que migram devido ao clima, sejam eles migrantes internos ou internacionais. Em Portugal, e \u00e0 semelhan\u00e7a do que tem acontecido internacionalmente, tem havido alguma discuss\u00e3o no sentido de se criar o estatuto de refugiado clim\u00e1tico. No entanto, reduzir a quest\u00e3o da migra\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica a este estatuto, pode levar \u00e0 exclus\u00e3o de determinados grupos de pessoas \u2013 nomeadamente os migrantes mais pobres \u2013 que se movem devido a um conjunto de fatores. Voltando ao exemplo de Mo\u00e7ambique, \u00e9 dif\u00edcil isolarmos as condi\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas das condi\u00e7\u00f5es ambientais que levam milhares de Mo\u00e7ambicanos a moverem-se dentro e para fora do seu pa\u00eds (por exemplo para a \u00c1frica do Sul e Portugal). Apesar de ser cada vez mais consensual o impacto das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas na decis\u00e3o de migrar ou n\u00e3o migrar, \u00e9 a intera\u00e7\u00e3o e a conflu\u00eancia entre v\u00e1rios fatores sociais, pol\u00edticos e ambientais que explicam a migra\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica. Precisamos de medidas mais inclusivas e solid\u00e1rias que reconhe\u00e7am a multiplicidade de fatores que afetam as migra\u00e7\u00f5es e que considerem a migra\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica como um direito e uma quest\u00e3o de justi\u00e7a social.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cada dia que passa s\u00e3o mais evidentes os impactos devastadores das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas. Entre as muitas consequ\u00eancias globais, t\u00eam vindo a contribuir para um aumento crescente do n\u00famero de desalojados e pessoas migrantes.<\/p>\n","protected":false},"author":132,"featured_media":8374,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[51],"tags":[],"coauthors":[229],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8371"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/132"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8371"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8371\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8375,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8371\/revisions\/8375"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8374"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8371"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8371"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8371"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=8371"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}