{"id":8358,"date":"2024-09-10T11:32:49","date_gmt":"2024-09-10T11:32:49","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=8358"},"modified":"2024-10-07T08:38:35","modified_gmt":"2024-10-07T08:38:35","slug":"projeto-de-amilcar-cabral-continua-vivo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2024\/09\/10\/projeto-de-amilcar-cabral-continua-vivo\/","title":{"rendered":"Projeto de Am\u00edlcar Cabral continua vivo"},"content":{"rendered":"\n<p>Marcus Veiga \u00e9 filho de pai cabo-verdiano e de m\u00e3e angolana. Nascido em Lisboa, encabe\u00e7ou um projeto musical que mistura sonoridades africanas, sobretudo o funan\u00e1, com o som pesado do punk e da eletr\u00f3nica. Para al\u00e9m do conte\u00fado pol\u00edtico, Sc\u00faru Fitch\u00e1du assume uma est\u00e9tica subversiva que reconhece ter como refer\u00eancia, em parte, Am\u00edlcar Cabral.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSendo afrodescendente e tendo nascido em Portugal, estas experi\u00eancias passavam um bocado ao lado. Foi na adolesc\u00eancia que fui atr\u00e1s das ra\u00edzes e era o meu av\u00f4 que me falava de Cabral\u201d, descreve \u00e0 Voz do Oper\u00e1rio. \u201cO conceito est\u00e9tico do meu projeto \u00e9 anti-colonial, pela mudan\u00e7a de pensamento, \u00e9 essa a arte revolucion\u00e1ria que trago. \u00c9 tamb\u00e9m uma homenagem aos meus antepassados atrav\u00e9s do funan\u00e1 e do criolo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Marcus, o pai da independ\u00eancia da Guin\u00e9-Bissau e de Cabo Verde era \u201cuma figura imponente\u201d pela forma de pensar e um \u201cestratega\u201d que conduziu a luta de um povo.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o m\u00fasico, Cabral divide-se em duas partes: a pr\u00e1tica revolucion\u00e1ria e a produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica. Para desenvolver o seu segundo projeto musical, dedicou-se a resgatar mais conte\u00fado africanista e chegou \u00e0 conclus\u00e3o de que Cabral tem aspetos \u201cmuito \u00fanicos\u201d. Para al\u00e9m da estrat\u00e9gia e da revolu\u00e7\u00e3o, do povo no poder, \u201ca n\u00e3o resigna\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a tudo o que eram pensamentos sociais vigentes\u201d, que era, considera, uma vis\u00e3o muito eurocentrada. \u201cAinda que tivesse estudado fora de \u00c1frica, sempre percebeu que o povo africano tinha de se libertar dessa corrente colonial f\u00edsica e mental\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos objetivos de Sc\u00faru Fitch\u00e1du \u00e9 promover a descoloniza\u00e7\u00e3o mental e recorda que a hist\u00f3ria pan-africanista \u201ctem um paralelismo com o antifascismo a n\u00edvel mundial\u201d, sublinhando que h\u00e1 cada vez mais ind\u00edcios de fascismo. Nesse sentido, considera que o legado de Cabral n\u00e3o est\u00e1 desatualizado. O antagonismo de classe num mundo em que o capitalismo empurra as pessoas para o individualismo \u00e9 algo que destaca.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Com o Movimento para a Democracia (MpD), de direita, \u00e0 frente do governo cabo-verdiano, atrav\u00e9s da figura de Ulisses Correia e Silva, a falta de comemora\u00e7\u00f5es oficiais do centen\u00e1rio do nascimento de Am\u00edlcar Cabral \u00e9 evidente. Marcus Veiga atribui esta desvaloriza\u00e7\u00e3o do papel hist\u00f3rico do revolucion\u00e1rio ao que chama \u201cs\u00edndrome de Estocolmo\u201d do primeiro-ministro de Cabo Verde e considera que Cabral devia constar de forma estruturada nos manuais escolares. \u201cCabral n\u00e3o est\u00e1 morto, est\u00e1 na sua obra\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O her\u00f3i da juventude&nbsp;mais explotada<\/h2>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m Fl\u00e1vio Almada, cabo-verdiano, a viver na Cova da Moura, na Amadora, concorda que a heran\u00e7a mais importante de Cabral \u00e9 o pensamento e a pr\u00e1tica. \u201cN\u00e3o ficou s\u00f3 a observar a realidade, agiu para modificar a realidade e com o fim mais importante: a justi\u00e7a social\u201d. Para al\u00e9m de intervir em v\u00e1rios bairros da periferia de Lisboa e participar nos movimentos sociais atrav\u00e9s do Vida Justa, lan\u00e7ou um projeto de rap com o seu nome art\u00edstico LBC Soldjah. Com essa experi\u00eancia, sublinha que h\u00e1 cada vez mais jovens dos sub\u00farbios a ler Cabral. \u201cOs artistas querem saber cada vez mais de Cabral, a juventude anda a pegar em Cabral e a estud\u00e1-lo. Na comunidade cabo-verdiana, Cabral \u00e9, e ainda bem, uma figura importante. Sobretudo a juventude mais acantonizada, mais perseguida, mais explorada, mais violentada pelo sistema, quer saber de Cabral. Aqui, na Cova da Moura, por exemplo, junto \u00e0quele&nbsp;<em>graffiti<\/em>&nbsp;de Am\u00edlcar Cabral \u00e9 onde a maior parte da juventude para. \u00c9 ali que ficam parados a conversar e a trocar ideias. E \u00e9 tamb\u00e9m l\u00e1 que a pol\u00edcia vai atac\u00e1-los. D\u00e1 para ver bem o que Cabral representa para n\u00f3s\u201d, descreve.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre a atualidade do legado de Cabral d\u00e1 o exemplo da luta concreta que se trava no campo da realidade material. \u201cHoje em dia \u00e9 tudo rede social. Quando na realidade material, o dia a dia das pessoas, os obst\u00e1culos, as lutas, \u00e0s vezes n\u00e3o s\u00e3o conhecidas, at\u00e9 por movimentos que vivem mais do Facebook e coisas do g\u00e9nero. N\u00e3o estou a dizer como forma de desvalorizar, \u00e9 algo importante, mas a quest\u00e3o do terreno, \u00e9 fundamental. Cabral dizia que quando come\u00e7ou a luta faziam uma disputa para ver quem mais falava na r\u00e1dio. Hoje em dia, isso tamb\u00e9m acontece com as redes sociais. \u00c9 determinante trabalhar com a realidade concreta e, como dizia Cabral, mobilizar as pessoas no contexto da sua vida material e em torno das suas aspira\u00e7\u00f5es\u201d, explica.<br><br>De todas as formas, alerta para o perigo de se canonizar a figura de Cabral, despindo-o do seu pensamento. \u201cIsso, \u00e0s vezes, \u00e9 a forma mais neoliberal de celebrar algu\u00e9m sem ensinar as suas ideias\u201d, pontua. Em Portugal, considera, n\u00e3o se ensina Cabral, em Cabo Verde \u00e9 algo \u201cterr\u00edvel\u201d. Nesse sentido, aponta o dedo ao governo cabo-verdiano por n\u00e3o haver uma homenagem oficial a Cabral. Considera o executivo \u201coportunista\u201d e fala de uma corrente contrarrevolucion\u00e1ria representada no poder pelo MpD. Diz que Cabral tamb\u00e9m significa \u201cdistribuir a riqueza\u201d e que atacar a sua figura \u00e9 \u201catacar a classe trabalhadora cabo-verdiana\u201d, aprofundando a sua \u201cmis\u00e9ria e explora\u00e7\u00e3o\u201d. \u201c\u00c9 um projeto ligado ao imperialismo e ao neocolonialismo\u201d, garante.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O combatente e te\u00f3rico da luta pela liberta\u00e7\u00e3o do colonialismo portugu\u00eas nasceu, h\u00e1 100 anos, no dia 12 de setembro de 1924, em Bafat\u00e1, na Guin\u00e9-Bissau. Um s\u00e9culo depois, o her\u00f3i da independ\u00eancia do seu pa\u00eds natal e de Cabo Verde, onde cresceu, permanece como uma refer\u00eancia entre afrodescendentes em Portugal.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":8359,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[55],"tags":[],"coauthors":[71],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8358"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8358"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8358\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8423,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8358\/revisions\/8423"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8359"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8358"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8358"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8358"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=8358"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}