{"id":8354,"date":"2024-09-10T11:27:55","date_gmt":"2024-09-10T11:27:55","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=8354"},"modified":"2024-10-07T10:02:49","modified_gmt":"2024-10-07T10:02:49","slug":"venha-a-aprendizagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2024\/09\/10\/venha-a-aprendizagem\/","title":{"rendered":"Venha a aprendizagem"},"content":{"rendered":"\n<p>Aprender, educar, ensinar, instruir,&nbsp;em que ficamos?<\/p>\n\n\n\n<p>As crian\u00e7as t\u00eam capacidades inatas para aprender, sabemo-lo bem. Observam, interagem e aprendem. Para se apropriarem das coisas da cultura necessitam de duas ferramentas: a fala e a escrita. Aprendem a us\u00e1-las, usando-as. Em todas as culturas, s\u00e3o projetos de aprendizagem importantes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As crian\u00e7as aprendem como dizer as palavras e as express\u00f5es. E aprendem o que n\u00e3o se diz. Fazem tentativas e s\u00e3o corrigidas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Depois, as crian\u00e7as identificam o desenho da fala: afinal o pai, a m\u00e3e, o educador, a ama, n\u00e3o s\u00e3o m\u00e1gicos nem seres superiores quando pegam no livro e o contam. Simplesmente, j\u00e1 sabem como a fala se desenha. E as crian\u00e7as tamb\u00e9m o saber\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Nem sempre foi assim. Desde o in\u00edcio da hist\u00f3ria da escrita at\u00e9 hoje, demasiados pais e demasiadas m\u00e3es n\u00e3o contam o livro porque n\u00e3o lhes foi permitido aprender a faz\u00ea-lo. Durante muito tempo foram instru\u00eddos para n\u00e3o saber, para s\u00f3 ouvir quem sabia.<\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio era mais f\u00e1cil. Impedir a maioria da popula\u00e7\u00e3o de ter acesso direto \u00e0 palavra transcrita mantinha-a na ignor\u00e2ncia. Era a melhor forma para ritualizar magicamente o poder de quem sabia. Nos reinos, nos templos, nos campos, nas cidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos estados, o poder ritualizado come\u00e7ou a perder a sua magia, j\u00e1 n\u00e3o bastava cultivar a ignor\u00e2ncia. Surgiram as escolas para pobres para ensinar a obedi\u00eancia, para instruir a ser bom servo. N\u00e3o eram templos do saber, eram escolas para contrariar a aprendizagem inata. E quem se sentia genuinamente comprometido com os pobres procurava educ\u00e1-los para se tornarem pobres felizes. S\u00f3. Caso a aprendizagem da leitura fosse autorizada, controlava-se o que era lido nas bibliotecas com listas de livros proibidos e a excomunh\u00e3o para quem os lia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, os Estados-Na\u00e7\u00e3o, com sistemas de ensino organizados, obrigam as escolas a um plano de trabalho, um programa. Em 1901, na escola prim\u00e1ria belga do meu av\u00f4, a leitura e a escrita faziam parte do programa, a aritm\u00e9tica era facultativa e desaconselhada para as escolas dos pobres. Os livros escolares contavam as hist\u00f3rias de her\u00f3is locais ou de origem incerta, dando corpo a um Estado-na\u00e7\u00e3o inventado apenas setenta anos antes. O programa mudou, o tempo de escola aumentou, os mitos dos her\u00f3is nacionais ficaram.<\/p>\n\n\n\n<p>Os programas de Estados-na\u00e7\u00e3o orientam para escolhas. Mais do que as apoiar, essas escolhas antes conduzem umas aprendizagens e travam outras. Perguntas de crian\u00e7as e de jovens s\u00e3o cortadas com \u201cn\u00e3o \u00e9 assunto para este ano\u201d, \u201cn\u00e3o faz parte do programa\u201d, \u201cn\u00e3o \u00e9 coisa para a tua idade\u201d. A ignor\u00e2ncia passou a ter dois sabores: a autorizada e a n\u00e3o-autorizada. A n\u00e3o-autorizada aparece nas pautas, nos testes, nos exames. Da ignor\u00e2ncia autorizada a escola n\u00e3o fala.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando em excesso, a ignor\u00e2ncia n\u00e3o autorizada certificada reprova o aluno. A ignor\u00e2ncia autorizada em excesso surge em blogues, f\u00f3runs, teorias de conspira\u00e7\u00e3o, em comunidades de aprendizagem, at\u00e9. Raramente convida ao \u00e1rduo trabalho de aprendizagem.<\/p>\n\n\n\n<p>Pois bem. E a nossa Sociedade de Instru\u00e7\u00e3o e Benefic\u00eancia nisso tudo? Permitam-me uma reflex\u00e3o pessoal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Vejo o termo Instru\u00e7\u00e3o conotado com o tempo em que a institui\u00e7\u00e3o foi fundada. Hoje o termo seria talvez ensino, ou educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Refiro dois epis\u00f3dios que vivi n\u2019 A&nbsp;Voz do Oper\u00e1rio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quando, em 1989, crian\u00e7as na minha turma me pediram ajuda num projeto sobre descobrimentos, eu respondi \u201cEra interessante falar de descobrimentos por navegadores sem ser de Portugal.\u201d Fiquei surpreendido pela rea\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as: \u201cHouve? Ou est\u00e1s a brincar?\u201d Referi a rea\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00e3e de uma das crian\u00e7as, ela pr\u00f3pria historiadora. Ela respondeu-me logo: \u201cE n\u00e3o te lembraste de falar com eles dos descobrimentos, visto do lado dos \u2018descobertos\u2019?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o deixei de ser o adulto a apoiar um projeto de aprendizagem formulado por crian\u00e7as, provocando-as para levar mais longe a sua aprendizagem. Mas com este projeto senti-me aprendente: mudar de pa\u00eds e de escola ajudou-me a perceber o perigo de ficar ref\u00e9m da ignor\u00e2ncia autorizada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio dos anos 1990, docentes e crian\u00e7as aprenderam a programar com a linguagem LOGO. Gra\u00e7as \u00e0 professora Margarida Faria, A Voz do Oper\u00e1rio integrava este projeto pioneiro para a Europa, relacionado com a introdu\u00e7\u00e3o de computadores na sala de aula. O estado portugu\u00eas inscrevera a programa\u00e7\u00e3o LOGO nas orienta\u00e7\u00f5es curriculares para a matem\u00e1tica. N\u2019 A Voz, os projetos idealizados pelas crian\u00e7as e acompanhados pelos docentes ultrapassavam em muito essas orienta\u00e7\u00f5es. Alguns anos mais tarde, a linguagem LOGO saiu das orienta\u00e7\u00f5es curriculares mas enquanto o software esteve dispon\u00edvel, continuaram a fazer-se projetos.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto institui\u00e7\u00e3o reconhecida, A Voz do Oper\u00e1rio compromete-se com as orienta\u00e7\u00f5es curriculares e os programas emanados do Minist\u00e9rio de Educa\u00e7\u00e3o. \u00c9 a sua obriga\u00e7\u00e3o. Mas, desde h\u00e1 anos, a Institui\u00e7\u00e3o quer ir e vai mais longe. Convida todos os trabalhadores com fun\u00e7\u00f5es educativas em todos os equipamentos a refletir acerca do seu papel de educador, seja qual for a sua fun\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Penso interessar a todos, hoje como ontem, evitar a armadilha da ignor\u00e2ncia autorizada. Para n\u00f3s enquanto adultos, para todas as crian\u00e7as com as quais trabalhamos. Come\u00e7a pelo apoio na aquisi\u00e7\u00e3o de vocabul\u00e1rio na creche, perdura no acompanhamento das crian\u00e7as no pr\u00e9-escolar, 1\u00ba e 2\u00ba ciclo. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Obriga a grande humildade por parte de todos. Obriga a ver a a\u00e7\u00e3o individual e coletiva como um suporte na aprendizagem. S\u00f3 assim, a autoridade adv\u00e9m da autoria, do saber de cada um e n\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o ou da fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Venha mais um ano cheio de projetos protagonizados por crian\u00e7as e adultos, discutidos e avaliados em coopera\u00e7\u00e3o. \u00c9 o desafio permanente para contrapor dogmas, seja quais forem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estamos em Setembro. No hemisf\u00e9rio norte come\u00e7a o outono e o ano escolar. O primeiro fen\u00f3meno \u00e9 certamente natural. A escola parece ter ganho esse estatuto em pouco mais de 10 gera\u00e7\u00f5es. As crian\u00e7as v\u00e3o para a escola para aprender, dizem os adultos. Como se aprender fosse efeito da causa ensinar.<\/p>\n","protected":false},"author":72,"featured_media":8355,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[43],"tags":[],"coauthors":[168],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8354"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/72"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8354"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8354\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8449,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8354\/revisions\/8449"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8355"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8354"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8354"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8354"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=8354"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}