{"id":8308,"date":"2024-08-10T10:15:02","date_gmt":"2024-08-10T10:15:02","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=8308"},"modified":"2024-08-10T10:15:02","modified_gmt":"2024-08-10T10:15:02","slug":"memoria-quando-dois-estranhos-arriscam-viver-para-la-dos-traumas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2024\/08\/10\/memoria-quando-dois-estranhos-arriscam-viver-para-la-dos-traumas\/","title":{"rendered":"\u201cMem\u00f3ria\u201d: quando dois estranhos\u00a0arriscam viver para l\u00e1 dos traumas"},"content":{"rendered":"\n<p>Saul, interpretado por Peter Sarsgaard (pr\u00e9mio Volpi para melhor interpreta\u00e7\u00e3o masculina, no Festival de Veneza de 2023) tem uma dem\u00eancia precoce. A doen\u00e7a limita-o, porque do passado pouco ou nada recorda. \u00c9 desta sua condi\u00e7\u00e3o que vem o t\u00edtulo do mais recente filme do mexicano Michel Franco, num registo muito diferente das anteriores obras. O fundamental \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o fr\u00e1gil entre este homem nova iorquino e Sylvia (Jessica Chastain), uma assistente social.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Parece ser na direc\u00e7\u00e3o dos actores e na capacidade de ambos os protagonistas levarem as cenas, com um ritmo acertado, sem pressa para o desfecho, que se concentra o trabalho da realiza\u00e7\u00e3o e dramaturgia de \u201cMem\u00f3ria\u201d. Sylvia \u00e9 uma mulher carregada com o peso do passado. Est\u00e1 a terminar um processo (no fundo, intermin\u00e1vel) de cura do alcoolismo. Tem uma filha adolescente, com quem vive numa casa que tranca, para se assegurar que nenhum homem entra. H\u00e1 um receio do sexo oposto, dados os traumas da adolesc\u00eancia e inf\u00e2ncia. No outro espectro, est\u00e1 Saul, a quem as graves falhas de mem\u00f3ria colocam sob a al\u00e7ada dos irm\u00e3os.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o duas fragilidades que se cruzam, numa cidade onde tudo pode ser simultaneamente an\u00f3nimo, vibrante e acelerado. Ambos pretendem lidar com fantasmas que os limitam e impedem que novas experi\u00eancias afectivas aconte\u00e7am.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Uma delicada aproxima\u00e7\u00e3o ao amor<\/h2>\n\n\n\n<p>Saul sente que a dem\u00eancia \u00e9 apenas um diagn\u00f3stico, ao seguir Sylvia, de forma mais ou menos inconsciente, at\u00e9 casa. Podemos ent\u00e3o concluir que a premissa \u00e9 esta: \u201cE se num dia dois estranhos feridos e assustados se aproximassem, porque um deles decide ir al\u00e9m da m\u00e1goa, e seguir o desejo? \u00c9 um princ\u00edpio simples, quase id\u00edlico, para os dias que correm. A isso tamb\u00e9m se chama cinema: fazer-nos acreditar que h\u00e1 coisas poss\u00edveis no que julgamos imposs\u00edvel. Emily Dickinson (a grande poetisa norte-americana, que raramente saiu de casa) come\u00e7a assim um dos seus poemas \u201cHope\u201d is the thing with feathers \/ \u201cesperan\u00e7a\u201d \u00e9 a coisa com penas. Um p\u00e1ssaro; aquilo que permite voar e ser livre&#8230; Por isso, Saul adormece \u00e0 porta de Sylvia. De manh\u00e3, Sylvia, assustada, pergunta-lhe o que est\u00e1 ele ali a fazer. Saul n\u00e3o sabe. Caminham num bosque. Sylvia confunde-o com um rapaz de um grupo do liceu, respons\u00e1vel por um dos seus problemas. Saul n\u00e3o se lembra. H\u00e1, desde este primeiro passeio, um misto de m\u00e1goa e liberta\u00e7\u00e3o nesta mulher. H\u00e1 neste homem uma aceita\u00e7\u00e3o e uma tranquilidade que a cativam. Em ambos, \u00e9 latente o medo, sobretudo quando se trata de algu\u00e9m t\u00e3o fr\u00e1gil quanto n\u00f3s.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As cenas de \u201cMem\u00f3ria\u201d s\u00e3o desta ordem quotidiana. Sylvia come\u00e7a a tomar conta de Saul a tempo parcial, enquanto \u00e9 tamb\u00e9m assistente social numa institui\u00e7\u00e3o. A rela\u00e7\u00e3o vai-se aprofundando. Vamos conhecendo o que lhes tirou a confian\u00e7a no futuro. \u00c9 uma aproxima\u00e7\u00e3o lenta e assustada. Sylvia e Saul n\u00e3o sabem como agir perante o desejo e a possibilidade da intimidade no amor.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cMem\u00f3ria\u201d podia at\u00e9 desenvolver mais momentos deste perene presente entre Sylvia e Saul. Podia at\u00e9 seguir em frente com o que suceder\u00e1 a este casal de almas devastadas, que se encontra num dia de Inverno em Nova Iorque. Mas \u201cMem\u00f3ria\u201d vive (para o melhor e o pior) dessa banalidade quotidiana, circunscrita ao que sucede quando de repente dois estranhos arriscam viver alguma coisa de diferente e desconhecido, apesar de poderem sair derrotados. O filme est\u00e1 nas salas de cinema nacionais, esperemos que ainda por algumas semanas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Saul, interpretado por Peter Sarsgaard (pr\u00e9mio Volpi para melhor interpreta\u00e7\u00e3o masculina, no Festival de Veneza de 2023) tem uma dem\u00eancia precoce. A doen\u00e7a limita-o, porque do passado pouco ou nada recorda. \u00c9 desta sua condi\u00e7\u00e3o que vem o t\u00edtulo do mais recente filme do mexicano Michel Franco, num registo muito diferente das anteriores obras. 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