{"id":8266,"date":"2024-08-10T09:45:27","date_gmt":"2024-08-10T09:45:27","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=8266"},"modified":"2024-09-10T13:28:07","modified_gmt":"2024-09-10T13:28:07","slug":"patricia-estevao-uma-cerveja-vale-mais-do-que-uma-hora-do-meu-trabalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2024\/08\/10\/patricia-estevao-uma-cerveja-vale-mais-do-que-uma-hora-do-meu-trabalho\/","title":{"rendered":"Patr\u00edcia Estev\u00e3o: \u201cUma cerveja vale mais\u00a0do que uma hora\u00a0do meu trabalho\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"pergunta\">Estamos no ver\u00e3o. H\u00e1 alguma diferen\u00e7a&nbsp;no ritmo de trabalho nestes meses em&nbsp;compara\u00e7\u00e3o com o resto do ano?<\/p>\n\n\n\n<p>A realidade atual \u00e9 que j\u00e1 n\u00e3o se sabe prever muito bem os ritmos de trabalho. Trabalho em Lisboa, numa zona super turistificada, h\u00e1 mais de um ano, e o fluxo \u00e9 bastante flutuante. Ou seja, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 no ver\u00e3o que h\u00e1 casa cheia e o que tenho notado \u00e9 que os anos anteriores quase que j\u00e1 deixam de ser refer\u00eancia. Por norma, o in\u00edcio do ano \u00e9 sempre um pouco mais fraco. Mas acho que posso dizer que em Lisboa \u00e9 ver\u00e3o quase o ano inteiro. Trabalho 35 horas semanais, s\u00e3o oito horas intensas por turno. N\u00e3o h\u00e1 trabalho em restaura\u00e7\u00e3o sem umas quantas horas extras que por norma n\u00e3o s\u00e3o pagas. No p\u00f3s hor\u00e1rio de fecho, ainda h\u00e1 muito trabalho a ser feito, passando de um servi\u00e7o de mesa para um servi\u00e7o de limpeza do espa\u00e7o. Refiro-me a varrer o ch\u00e3o, passar a esfregona e at\u00e9 a limpeza da casa de banho e a limpeza de bar. S\u00f3 a\u00ed o patronato j\u00e1 est\u00e1 a lucrar. S\u00e3o horas extras que n\u00e3o s\u00e3o pagas ao trabalhador e \u00e9 a poupan\u00e7a de um sal\u00e1rio para evitar a contrata\u00e7\u00e3o de um trabalhador para a limpeza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Tem uma situa\u00e7\u00e3o laboral est\u00e1vel?<\/p>\n\n\n\n<p>Faz agora um ano que, ap\u00f3s uma grande luta por direitos e condi\u00e7\u00f5es de trabalho com a empresa para quem trabalho, nomeadamente sal\u00e1rios em atraso, passei de muito prec\u00e1ria a uma prec\u00e1ria com efetividade na empresa. Uma grande luta, mas que me deu maior estabilidade. Mas nunca se sabe\u2026&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">H\u00e1 outros trabalhadores com os mesmos problemas?<\/p>\n\n\n\n<p>As queixas s\u00e3o muitas. Das m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es de trabalho \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o salarial. Passamos pela rotatividade constante de escalas de trabalho e de trabalhadores. Dos hor\u00e1rios desregulados impossibilitando ter uma vida concili\u00e1vel com amigos ou familiares. Turnos que v\u00e3o para al\u00e9m do funcionamento dos transportes p\u00fablicos, e a falta de subs\u00eddios noturnos prejudicando o trabalhador, havendo um gasto extra em desloca\u00e7\u00f5es para casa no p\u00f3s laboral. \u00c9 quase pagar para trabalhar. Trabalho com colegas imigrantes europeus com sal\u00e1rios mais elevados do que um cidad\u00e3o portugu\u00eas ou um imigrante do sul da \u00c1sia e Am\u00e9rica do Sul. Aos denominados expats, s\u00e3o-lhes oferecidos cargos de chefia. Em causa est\u00e1 a n\u00e3o progress\u00e3o da carreira de qualquer trabalhador que j\u00e1 se encontra nos cargos da empresa. \u00c9 desmotivante. Sobretudo, no meu caso espec\u00edfico, e devido ao meu ativismo dentro da empresa, sou alvo constante de ass\u00e9dio moral e psicol\u00f3gico: discrimina\u00e7\u00e3o perante outros colegas em situa\u00e7\u00f5es de, por exemplo, requisi\u00e7\u00e3o de f\u00e9rias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Sente que h\u00e1 uma disparidade entre o que vos \u00e9 pago e os lucros do restaurante?<\/p>\n\n\n\n<p>A empresa para quem trabalho pertence a um grupo franc\u00eas. A unidade hoteleira sediada aqui em Lisboa \u00e9 gerida por franceses, os mesmos acham que Portugal \u00e9 o Eldorado europeu e que lhes d\u00e1 liberdade para violar direitos laborais e explorar&#8230; s\u00f3 que n\u00e3o. Falamos de um neg\u00f3cio, de um restaurante, que n\u00e3o \u00e9 propriamente acess\u00edvel aos bolsos de todo o comum mortal, ou o comum mortal portugu\u00eas\u2026 tendo em conta o sal\u00e1rio m\u00ednimo nacional. Para ter uma noc\u00e3o, uma cerveja custa 6 euros e meio, vale mais do que uma hora do meu trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Qual \u00e9 o tipo de cliente mais comum?<\/p>\n\n\n\n<p>Maioritariamente turistas. Muitos estrangeiros a residir em Portugal, com poder monet\u00e1rio superior ao nosso. Portugueses poucos\u2026mas d\u00e1-me bastante alegria quando os tenho na casa. Questiono-me se ser\u00e1 por n\u00e3o identifica\u00e7\u00e3o com o espa\u00e7o ou pelos pre\u00e7os inflacionados\u2026&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Sente que h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o entre esse tipo&nbsp;de neg\u00f3cio mais virado para o turismo e a especula\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 uma consequ\u00eancia, sim, quando h\u00e1 uma cidade que foi praticamente vendida para turismo e&nbsp;<em>vistos gold<\/em>. Despejos massificados em prol de uma Lisboa adaptada ao padr\u00e3o de qualquer outra capital europeia\u2026&nbsp;<em>boulangeries, croissanteries e gelateries<\/em>&nbsp;da vida. Claramente n\u00e3o \u00e9 a Lisboa onde crescemos. Criou-se um distanciamento, uma esp\u00e9cie de segrega\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora. Os que produzem riqueza foram empurrados para fora da cidade. O acesso \u00e0 mesma passou a ser um luxo e n\u00e3o um direito.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">De que forma \u00e9 que a crise de habita\u00e7\u00e3o afecta a sua vida?<\/p>\n\n\n\n<p>Vivo em Lisboa\u2026 ainda! Portanto, a crise da habita\u00e7\u00e3o afeta-me a n\u00edvel or\u00e7amental. O meu ordenado n\u00e3o acompanha a infla\u00e7\u00e3o. Por exemplo, no m\u00eas passado aumentaram-me a renda, mas o ordenado mant\u00e9m-se. Vou a todas as manifesta\u00e7\u00f5es pelo direito \u00e0 habita\u00e7\u00e3o. Marcho sempre com o movimento Vida Justa, um projeto que tenho vindo a acompanhar. Dev\u00edamos sair mais para a rua, tamb\u00e9m no que diz respeito a este direito. H\u00e1 que contestar a vergonhosa situa\u00e7\u00e3o em que vivemos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Muitos empres\u00e1rios da hotelaria e restaura\u00e7\u00e3o afirmaram que n\u00e3o conseguem arranjar m\u00e3o de obra suficiente para o sector.<\/p>\n\n\n\n<p>Automaticamente, com esta quest\u00e3o, veio-me \u00e0 cabe\u00e7a uma m\u00fasica do Sam The Kid, Poetas de Karaoke. H\u00e1 m\u00e3o de obra, claro que h\u00e1. N\u00e3o h\u00e1 \u00e9 oferta de condi\u00e7\u00f5es de trabalho, ordenados condignos e contratos de trabalho por parte das empresas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Sente que apostar nos baixos sal\u00e1rios&nbsp;para manter lucros elevados \u00e9 a raz\u00e3o para a contrata\u00e7\u00e3o de cada vez mais imigrantes para a restaura\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>Quem \u00e9 que nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Uma coisa leva a outra. Interessa ao grande capital baixos sal\u00e1rios para que os lucros sejam mais elevados e os imigrantes na sua maioria n\u00e3o tem acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o laboral. N\u00e3o sabem os seus direitos e sujeitam-se a qualquer condi\u00e7\u00e3o que lhes seja oferecida. A falta de informa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica sobre a lei do trabalho levou-me a desenvolver uma fanzine que se chama Eles Comem Tudo, especificamente para o setor da restaura\u00e7\u00e3o, com o intuito de alertar e informar os colegas menos atentos aos seus direitos. O primeiro n\u00famero j\u00e1 anda por a\u00ed com distribui\u00e7\u00e3o gratuita e espero vir a ajudar desta forma a combater a precariedade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">E quando \u00e9 que decidiu dar o passo de se sindicalizar?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A sindicaliza\u00e7\u00e3o aconteceu como consequ\u00eancia de anos e anos de muita precariedade. Foram anos sem descontos, anos de explora\u00e7\u00e3o. O meu pai foi sempre sindicalizado. Com isto quero dizer que a palavra sindicato ou a express\u00e3o \u201co meu sindicato\u201d esteve bastante presente na minha educa\u00e7\u00e3o. E o meu trabalho atual tamb\u00e9m n\u00e3o me deu outra alternativa\u2026&nbsp;<em>camaradas, lutemos unidos porque \u00e9 nossa a vit\u00f3ria final<\/em>&nbsp;[risos]. Eu acredito que est\u00e1 na altura de dar mais for\u00e7a e voz aos sindicatos, quando temos um governo que pretende fazer retroceder a lei laboral. Querem retirar-nos direitos, a n\u00f3s, classe trabalhadora, depois de anos e anos de luta em que foram conquistados muitos desses direitos, incluindo os direitos conquistados com a revolu\u00e7\u00e3o de Abril. A exist\u00eancia de sindicatos \u00e9 necess\u00e1ria. \u00c9 necess\u00e1rio criar princ\u00edpios prolet\u00e1rios que favore\u00e7am o trabalhador.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2023, as receitas do turismo superaram os 6 mil milh\u00f5es de euros. A regi\u00e3o de Lisboa foi uma das que registou um aumento mais expressivo. Dentro do setor, a restaura\u00e7\u00e3o registou tamb\u00e9m uma subida da fatura\u00e7\u00e3o. Contudo, a maior parte destes n\u00fameros n\u00e3o chega aos bolsos dos trabalhadores. Patr\u00edcia Estev\u00e3o, de Lisboa, \u00e9 um desses casos. Com 46 anos, depois de uma licenciatura em cer\u00e2mica e uma d\u00e9cada de emigra\u00e7\u00e3o em Londres, trabalha num restaurante da capital como empregada de mesa. No fim de maio, a Federa\u00e7\u00e3o dos Sindicatos de Agricultura, Alimenta\u00e7\u00e3o, Bebidas, Hotelaria e Turismo de Portugal organizou uma greve para exigir contrata\u00e7\u00e3o coletiva e melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho num setor em que os patr\u00f5es se queixam da falta de m\u00e3o de obra ao mesmo tempo que praticam baixos sal\u00e1rios.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":8268,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[44],"tags":[],"coauthors":[71],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8266"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8266"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8266\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8406,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8266\/revisions\/8406"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8268"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8266"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8266"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8266"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=8266"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}