{"id":8262,"date":"2024-08-10T09:39:33","date_gmt":"2024-08-10T09:39:33","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=8262"},"modified":"2024-09-10T13:26:56","modified_gmt":"2024-09-10T13:26:56","slug":"as-maos-que-trabalham-a-terra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2024\/08\/10\/as-maos-que-trabalham-a-terra\/","title":{"rendered":"As m\u00e3os\u00a0que trabalham a terra"},"content":{"rendered":"\n<p>Que sufoco. Azinhaga do Ribatejo, 39 graus. No caminho, um milharal a perder de vista numa terra f\u00e9rtil banhada pelo maior dos rios que atravessa o nosso pa\u00eds. \u00c9 a lez\u00edria, uma evolu\u00e7\u00e3o da palavra al-jazira, nome que devemos \u00e0 presen\u00e7a \u00e1rabe. Foi nesta aldeia com 1414 habitantes, segundo o censo realizado em 2021, que nasceu o \u00fanico Nobel da Literatura de l\u00edngua portuguesa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1998, no dia em que recebeu esta distin\u00e7\u00e3o, Jos\u00e9 Saramago discursou perante o mundo recordando os av\u00f3s: \u201cO homem mais s\u00e1bio que conheci em toda a minha vida n\u00e3o sabia ler nem escrever. \u00c0s quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de Fran\u00e7a, levantava-se da enxerga e sa\u00eda para o campo, levando ao pasto a meia d\u00fazia de porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher. Viviam desta escassez os meus av\u00f3s maternos, da pequena cria\u00e7\u00e3o de porcos que, depois do desmame, eram vendidos aos vizinhos da aldeia, Azinhaga de seu nome, na prov\u00edncia do Ribatejo. Chamavam-se Jer\u00f3nimo Melrinho e Josefa Caixinha esses av\u00f3s, e eram analfabetos um e outro\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1980, o escritor da terra havia escrito um dos maiores hinos \u00e0 gesta coletiva dos trabalhadores rurais do nosso pa\u00eds. \u201cO livro chama-se Levantado do Ch\u00e3o porque, no fundo, levantam-se os homens do ch\u00e3o, levantam-se as searas, \u00e9 no ch\u00e3o que semeamos, \u00e9 no ch\u00e3o que nascem as \u00e1rvores e at\u00e9 do ch\u00e3o se pode levantar um livro\u201d, viria a explicar mais tarde Jos\u00e9 Saramago. Pelas ruas da Azinhaga, a mem\u00f3ria do escritor est\u00e1 em todas as partes e, de outras latitudes, passeiam mulheres e homens que fazem da sua vida levantar do ch\u00e3o o que outros comem. Hassan Ali, Muhammad Hussain, Shazad Ali, Gopi, Waqass Ahmad Sadiqi s\u00e3o alguns dos trabalhadores agr\u00edcolas que deitam as m\u00e3os \u00e0 terra e que aceitam conversar com A Voz do Oper\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Uma viagem pelo inferno<\/h2>\n\n\n\n<p>Da Azinhaga a Islamabad, s\u00e3o exatamente 9 mil quil\u00f3metros. \u00c9 esta a dist\u00e2ncia a que estes homens est\u00e3o do seu pa\u00eds. Segundo dados dos censos de 2021, residem em Portugal cerca de 7500 paquistaneses, uma comunidade imigrante que est\u00e1 longe de ser maiorit\u00e1ria. S\u00e3o o 19.\u00ba grupo no ranking da imigra\u00e7\u00e3o. Sentados ao redor de uma mesa \u00e0 sombra, Hassan Ali explica como chegou a Portugal em mar\u00e7o deste ano. Era a primeira vez que se aventurava pelos caminhos da emigra\u00e7\u00e3o. \u00c0 procura de melhores condi\u00e7\u00f5es de vida, atravessou meio mundo para aqui chegar, num caminho que tardou cerca de tr\u00eas meses a percorrer. \u201c\u00c9ramos um grupo de cem pessoas e fomos detidos na S\u00e9rvia\u201d, descreve. Enfiado numa cela durante dois meses, denuncia ter sofrido espancamentos. O pai havia recomendado que escolhesse Portugal como destino por ser mais f\u00e1cil obter resid\u00eancia. Mohammed Hussein diz que esteve detido nove meses na Gr\u00e9cia e que tamb\u00e9m foi objeto de agress\u00f5es por parte da pol\u00edcia local. \u00c9 o mais novo de todos. Tem apenas 23 anos. Critica a pol\u00edtica transfronteiri\u00e7a da Uni\u00e3o Europeia.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos estes homens trabalham juntos. Ou tentam. Gostam do nosso pa\u00eds e dos portugueses, que consideram ser af\u00e1veis e acolhedores. Pelo menos na Azinhaga. O \u00fanico problema s\u00e3o os patr\u00f5es portugueses. Muhammad Hussain est\u00e1 j\u00e1 h\u00e1 tr\u00eas anos em Portugal. Como os restantes compatriotas, chegou a esta terra atrav\u00e9s do Martim Moniz, em Lisboa. \u00c9 aqui que a rota migrat\u00f3ria desemboca para procurar trabalho e construir uma vida melhor. Tem tr\u00eas filhos no Paquist\u00e3o e gostava de um dia conseguir ter a fam\u00edlia a seu lado. Mas n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Queixam-se da instabilidade laboral e do trabalho ilegal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nalguns casos, como conta Hassan Ali, trabalham sem qualquer contrato. Noutros, assinam contrato mas depois acabam por descobrir que a empresa retirou o dinheiro correspondente aos descontos mas n\u00e3o o entregou \u00e0 Seguran\u00e7a Social, como denuncia Shazad Ali. Por sua parte, Gopi revela que dormem em casa de um paquistan\u00eas que vive h\u00e1 v\u00e1rios anos na Azinhaga e sublinha que tamb\u00e9m aqui a habita\u00e7\u00e3o \u00e9 um problema.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o problema maior, referido por todos, e como descreve Waqass Ahmad Sadiqi, de 40 anos, \u00e9 a falta de estabilidade. A empresa n\u00e3o lhes d\u00e1 trabalho di\u00e1rio e, apesar de considerarem que n\u00e3o \u00e9 mau receberem 40 euros por jornada, est\u00e3o semanas inteiras sem trabalhar e, por isso, sem receber. Nesses dias, ficam deitados e dormem o mais que podem para n\u00e3o gastarem energia.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Impunidade na explora\u00e7\u00e3o&nbsp;de imigrantes<\/h2>\n\n\n\n<p>Um dos dados mais usados nos \u00faltimos anos para evidenciar a import\u00e2ncia dos trabalhadores imigrantes \u00e9 o papel que assumem na estabiliza\u00e7\u00e3o das contas da seguran\u00e7a social. \u00c0 Vis\u00e3o, Catarina Reis Oliveira, diretora do Observat\u00f3rio das Migra\u00e7\u00f5es, explicava, no fim de 2023, que os estrangeiros t\u00eam 87 contribuintes por cada 100 residentes, enquanto os portugueses t\u00eam apenas 48. Por outro lado, os estrangeiros t\u00eam 38 benefici\u00e1rios de presta\u00e7\u00f5es sociais por cada 100 contribuintes, enquanto para o total de residentes a rela\u00e7\u00e3o \u00e9 de 79 benefici\u00e1rios por cada 100 contribuintes.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 mesma publica\u00e7\u00e3o, Catarina Reis Oliveira sustentava que os relat\u00f3rios estat\u00edsticos mostram que os imigrantes assumem um papel \u201cfundamental\u201d na efici\u00eancia dos mercados de trabalho, sendo claro que \u201csem os imigrantes alguns setores econ\u00f3micos e atividades entrariam em colapso\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a rela\u00e7\u00e3o entre trabalhadores imigrantes e empres\u00e1rios nem sempre \u00e9 a mais f\u00e1cil, que se aproveitam frequentemente da falta de conhecimento relativamente a direitos laborais e \u00e0 gest\u00e3o burocr\u00e1tica da sua situa\u00e7\u00e3o contributiva e fiscal. Por exemplo, apesar dos baixos sal\u00e1rios, muitos n\u00e3o sabem que se tiverem morada fiscal fora de Portugal podem comprovar por escrito que prestam servi\u00e7o a um \u00fanico patr\u00e3o para terem a dispensa da reten\u00e7\u00e3o na fonte, no caso de ganharem o sal\u00e1rio m\u00ednimo, uma informa\u00e7\u00e3o veiculada recentemente pela Autoridade Tribut\u00e1ria no Portal das Finan\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Diogo Lopes \u00e9 o coordenador, em Santar\u00e9m, do Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Agricultura e das Ind\u00fastrias de Alimenta\u00e7\u00e3o, Bebidas e Tabacos (SINTAB). Conhece bem os casos de explora\u00e7\u00e3o contra trabalhadores estrangeiros.<br>\u201cH\u00e1 uma empresa de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os com v\u00e1rios armaz\u00e9ns de frangos na regi\u00e3o que usa imigrantes para a apanha de frangos para encherem os cami\u00f5es. Estes trabalhadores recebem cerca de dois ou tr\u00eas c\u00eantimos por cada frango que apanham\u201d, denuncia. \u201cFica na zona de Rio Maior. Eles t\u00eam um chefe de equipa que contabiliza o que eles recolhem. Cada caixa leva um determinado n\u00famero de frangos e eles contam depois as caixas. \u00c9 assim que s\u00e3o pagos\u201d.<br><br>Segundo o sindicalista, tamb\u00e9m \u201cn\u00e3o recebem equipamentos\u201d, \u201cos pavilh\u00f5es n\u00e3o est\u00e3o limpos\u201d e os trabalhadores andam no meio dos frangos, \u201conde tamb\u00e9m h\u00e1 frangos mortos \u00e0 mistura\u201d. Diz que \u00e9 um trabalho \u201cmuito dif\u00edcil\u201d e que recebem uma \u201cmis\u00e9ria\u201d. Tamb\u00e9m neste caso, h\u00e1 v\u00e1rios imigrantes sem contrato e sem descontos para a Seguran\u00e7a Social. \u201cN\u00e3o t\u00eam sequer um seguro de trabalho\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Reconhece que h\u00e1 cada vez mais trabalhadores asi\u00e1ticos e os empres\u00e1rios se aproveitam dos imigrantes para pagar \u201cmuito menos\u201d. Diz que se fossem trabalhadores portugueses n\u00e3o se sujeitariam a tais condi\u00e7\u00f5es. \u201cOs patr\u00f5es fazem isso para obter mais lucros\u201d.<br><br>Ainda no caso da agricultura, afirma ter conhecimento de imigrantes que t\u00eam de pagar o arrendamento do lugar onde dormem e o transporte para o local de trabalho \u00e0 pessoa que os emprega. \u201cAcabam por receber muito menos do que o sal\u00e1rio m\u00ednimo e vivem 10 ou 20 trabalhadores em cub\u00edculos sem condi\u00e7\u00f5es\u201d.<br><br>O facto de serem imigrantes fragiliza-os e torna-os presa f\u00e1cil das empresas mas, simultaneamente, tamb\u00e9m torna dif\u00edcil a interven\u00e7\u00e3o dos sindicatos. Apesar de contatar com estes trabalhadores, Diogo Lopes explica que \u00e9 \u201cmuito dif\u00edcil\u201d fazer trabalho sindical junto dos imigrantes. \u201cEntregamos panfletos em ingl\u00eas mas muitos t\u00eam medo de repres\u00e1lias. Tentamos alert\u00e1-los para os seus direitos porque t\u00eam os mesmos direitos que n\u00f3s\u201d.<br><br>Em abril, o SINTAB alertava para a situa\u00e7\u00e3o destes trabalhadores e apontava o dedo \u00e0 falta de fiscaliza\u00e7\u00e3o por parte das autoridades. \u201cEntendemos que estas decis\u00f5es [a extin\u00e7\u00e3o da secretaria de Estado das Migra\u00e7\u00f5es e a falta de resposta da Ag\u00eancia para a Integra\u00e7\u00e3o, Migra\u00e7\u00f5es e Asilo e do Instituto dos Registos e do Notariado], tendo motiva\u00e7\u00f5es meramente pol\u00edticas e n\u00e3o havendo explica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica que o valide, se assumem claramente como um contributo dos governantes para a manuten\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria destes trabalhadores que, ao n\u00e3o conseguirem regularizar a sua situa\u00e7\u00e3o, se v\u00eam obrigados a aceitar condi\u00e7\u00f5es sub-humanas e ilegais de trabalho e habita\u00e7\u00e3o, favorecendo assim os patr\u00f5es que n\u00e3o hesitam em aprofundar a explora\u00e7\u00e3o de quem trabalha\u201d, descrevia num comunicado este sindicato. \u201cO Estado e as institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas n\u00e3o podem estar do lado de quem explora os trabalhadores, e muito menos de quem acentua essa explora\u00e7\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o das fragilidades sociais\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Trocaram os seus pa\u00edses pelo nosso. Na viagem, muitos foram detidos e espancados pelas pol\u00edcias fronteiri\u00e7as pelo crime de procurarem uma vida melhor. Altamente explorados, vendem a sua for\u00e7a de trabalho a empres\u00e1rios que se aproveitam das fragilidades de quem chega para aumentar os seus lucros. Em Portugal, est\u00e3o essenciais em setores como o turismo, a agricultura e a constru\u00e7\u00e3o. T\u00eam um papel importante para estabilizar as contas do sistema de seguran\u00e7a social.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":8263,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[55],"tags":[],"coauthors":[71],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8262"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8262"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8262\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8401,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8262\/revisions\/8401"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8263"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8262"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8262"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8262"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=8262"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}