{"id":8230,"date":"2024-07-10T15:47:17","date_gmt":"2024-07-10T15:47:17","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=8230"},"modified":"2024-07-10T15:48:00","modified_gmt":"2024-07-10T15:48:00","slug":"nos-50-anos-de-abril-duas-dinamicas-opostas-na-cultura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2024\/07\/10\/nos-50-anos-de-abril-duas-dinamicas-opostas-na-cultura\/","title":{"rendered":"Nos 50 anos de Abril:\u00a0duas din\u00e2micas opostas na Cultura"},"content":{"rendered":"\n<p>Por um lado profundas altera\u00e7\u00f5es positivas que s\u00e3o consequ\u00eancia directa do Portugal de Abril: da melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida dos trabalhadores e das popula\u00e7\u00f5es, das liberdades, do alargamento do acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, do papel do Poder Local democr\u00e1tico (hoje o principal financiador p\u00fablico das actividades culturais). Todo um mundo da cultura que transita da resist\u00eancia cultural para a procura de um alargado eco popular. Uma muito ampla aten\u00e7\u00e3o e reclama\u00e7\u00e3o p\u00fablica e democr\u00e1tica de acesso a toda a cultura, de defesa e apropria\u00e7\u00e3o do patrim\u00f3nio cultural material e imaterial, com forte repercuss\u00e3o em todo o territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Um importante acr\u00e9scimo no n\u00famero de equipamentos culturais (entre 1970 e 2000 o n\u00famero de museus duplica e tem o triplo de visitantes, o n\u00famero de bibliotecas \u00e9 quase 7 vezes maior e tem perto de quatro vezes mais utilizadores). Um n\u00famero de jovens com forma\u00e7\u00e3o art\u00edstica e cient\u00edfica especializada que cresce exponencialmente embora, na sua maioria, n\u00e3o encontre depois realiza\u00e7\u00e3o plenamente satisfat\u00f3ria e profissional das compet\u00eancias adquiridas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Importantes altera\u00e7\u00f5es nos h\u00e1bitos e nos padr\u00f5es de consumo cultural, em paralelo com um enorme acr\u00e9scimo no acesso e na difus\u00e3o cultural atrav\u00e9s de meios audiovisuais e inform\u00e1ticos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>E, por outro lado, aspectos de evolu\u00e7\u00e3o nacional resultantes tanto de pol\u00edticas de retrocesso face \u00e0s din\u00e2micas que Abril gerara como do processo de integra\u00e7\u00e3o europeia e &#8211; sobretudo a partir da viragem do s\u00e9culo &#8211; das pol\u00edticas ditas \u201cde austeridade\u201d. Todas t\u00eam uma profunda repercuss\u00e3o cultural directa e negativa. Duas t\u00eam maior import\u00e2ncia: a destrui\u00e7\u00e3o dos sectores produtivos, nomeadamente do sector agr\u00edcola, e a acelera\u00e7\u00e3o do processo de concentra\u00e7\u00e3o urbana e metropolitana (sobretudo na faixa litoral entre Set\u00fabal e Viana do Castelo) em paralelo com uma brutal desindustrializa\u00e7\u00e3o e generalizada desregula\u00e7\u00e3o dos hor\u00e1rios de trabalho. Nestes processos, ao mesmo tempo que tende a acelerar a desagrega\u00e7\u00e3o do universo cultural secularmente sedimentado no mundo rural, desagrega-se igualmente o rico universo da cultura urbana popular e oper\u00e1ria, um e outro cilindrados por formas de cultura medi\u00e1tica de massas inteiramente mercantilizadas.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As formas de consumo cultural atingem uma significativa polariza\u00e7\u00e3o. De um lado, tendem a fragmentar-se quase at\u00e9 \u00e0 individualiza\u00e7\u00e3o. No polo oposto, concentram-se em grandes realiza\u00e7\u00f5es de massas promovidas sobretudo por um sector \u201cindustrial cultural\u201d (designa\u00e7\u00e3o inequivocamente assumida) poderos\u00edssimo nos planos t\u00e9cnico, financeiro e medi\u00e1tico. No fundamental, uma \u201cind\u00fastria\u201d globalizadora mas, no nosso pa\u00eds e n\u00e3o s\u00f3, fortemente centrada no universo anglo-sax\u00f3nico. Um sector cuja dimens\u00e3o art\u00edstica n\u00e3o deve ser subestimada, mas cuja repercuss\u00e3o cultural \u00e9 sobretudo a da forma de consumo que promove: passiva, padronizada e em geral acr\u00edtica. E alienante.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema n\u00e3o \u00e9 exclusivamente portugu\u00eas, nem no tempo nem no espa\u00e7o. A fronteira que se apontou no sector cultural \u00e9 a da entrada em for\u00e7a do capitalismo na \u00e1rea da cultura. Antes valorizada sobretudo pela dimens\u00e3o simb\u00f3lica, de prest\u00edgio e ideol\u00f3gica das express\u00f5es culturais e da sua liga\u00e7\u00e3o ao poder, o capitalismo acrescenta-lhe a identifica\u00e7\u00e3o do sector cultural enquanto potencial de cria\u00e7\u00e3o de produtos dirigidos a um valioso e muito alargado (e fortemente homogeneizado) mercado. Tudo a ganhar.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se tratar\u00e1 apenas da produ\u00e7\u00e3o de mercadorias culturais, mas da mercantiliza\u00e7\u00e3o tendencial de todo o universo da cultura, incluindo a cultura dita erudita.<\/p>\n\n\n\n<p>O que da\u00ed decorre reflecte-se numa invers\u00e3o nas pol\u00edticas p\u00fablicas, e no nosso pa\u00eds elas s\u00e3o \u2013 sobretudo nas \u00faltimas d\u00e9cadas \u2013 claramente elucidativas. N\u00e3o se perdeu tudo o que fora adquirido. Mas poderia ter-se progredido ainda se n\u00e3o tem sido t\u00e3o cerceado o impulso revolucion\u00e1rio de Abril, se n\u00e3o tem sido bloqueado o desenvolvimento e o progresso do nosso pa\u00eds por demasiadas d\u00e9cadas de pol\u00edticas que escolheram outro caminho.<\/p>\n\n\n\n<p>Um caminho geral de privatiza\u00e7\u00e3o e desresponsabiliza\u00e7\u00e3o do Estado. De redu\u00e7\u00e3o e esvaziamento de toda a estrutura da Administra\u00e7\u00e3o Central com responsabilidades na \u00e1rea cultural. De financiamento p\u00fablico central permanentemente reduzido e insuficiente, exponenciado pelas pol\u00edticas \u201cde austeridade\u201d. De abandono de qualquer inten\u00e7\u00e3o democratizadora no acesso \u00e0 frui\u00e7\u00e3o, e sobretudo no acesso \u00e0 cria\u00e7\u00e3o. De um d\u00e9bil sistema de apoios p\u00fablicos que visa, n\u00e3o dinamizar, mas instalar uma est\u00e9ril competi\u00e7\u00e3o entre institui\u00e7\u00f5es, entidades e criadores. De um sector cultural como laborat\u00f3rio piloto de todas as experi\u00eancias de precariza\u00e7\u00e3o. E, nos dias de hoje, de um cen\u00e1rio de exclus\u00e3o e de \u201ccancelamento\u201d, na fronteira da censura cultural.<\/p>\n\n\n\n<p>Duas realidades e duas din\u00e2micas opostas. Mas, tal como sucede em todas as outras frentes da luta popular, a din\u00e2mica de Abril pode defrontar-se com grandes dificuldades, mas n\u00e3o est\u00e1 decerto derrotada. A reivindica\u00e7\u00e3o popular \u00e0 Cultura \u00e9 insepar\u00e1vel da luta por todos os outros direitos. Uma das suas ra\u00edzes \u00e9 a reivindica\u00e7\u00e3o dos \u201c3 oitos\u201d: 8 horas de trabalho, 8 horas de descanso, 8 horas de lazer. Vem do s\u00e9culo XIX.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, a jornada de trabalho poderia e deveria ser bem menor. Ficaria mais tempo para o mais importante \u201coito\u201d. O do tempo para o divertimento, o encontro, a associa\u00e7\u00e3o, o entretenimento, e sobretudo o enriquecimento cultural, o desenvolvimento das capacidades de cada um de entender, de escolher e de criar. O caminho da Cultura integral.<\/p>\n\n\n\n<p>Abril abriu esse caminho, e ainda est\u00e1 aberto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O balan\u00e7o da situa\u00e7\u00e3o da Cultura (referindo aqui apenas as \u00e1reas da cultura art\u00edstica) neste meio s\u00e9culo do 25 de Abril aponta para uma evolu\u00e7\u00e3o e um panorama profundamente contradit\u00f3rios. De algum modo, com a transi\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo a tra\u00e7ar uma fronteira.<\/p>\n","protected":false},"author":110,"featured_media":6496,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[48],"tags":[],"coauthors":[207],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8230"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/110"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8230"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8230\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8232,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8230\/revisions\/8232"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6496"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8230"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8230"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8230"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=8230"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}