{"id":8222,"date":"2024-07-10T15:41:00","date_gmt":"2024-07-10T15:41:00","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=8222"},"modified":"2024-07-10T15:42:06","modified_gmt":"2024-07-10T15:42:06","slug":"8222","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2024\/07\/10\/8222\/","title":{"rendered":"\u201cRefugiado\u201d \u2013 o pujante espect\u00e1culo que coloca o dedo na ferida sobre o\u00a0maior drama humano da actualidade"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Valeu a pena?<\/h2>\n\n\n\n<p>Um homem est\u00e1 no centro do palco, junto a uma roda gigante, e confronta-nos com o seu olhar directo. \u00c9 a noite da sua despedida. A fam\u00edlia e ele sabem que o mais prov\u00e1vel \u00e9 n\u00e3o voltar. Tudo \u00e9 contado atrav\u00e9s do relato desse homem. Projectam-se imagens de um t\u00f3rrido deserto onde sombras de corpos caminham. Ele \u00e9 um desses an\u00f3nimos: avan\u00e7a entre a esperan\u00e7a, a expectativa e o desespero. Tudo \u00e9 incerteza e desconhecido. Vemos as imagens das rodas do cami\u00e3o. S\u00f3 seguem os que pagarem aos traficantes. O nosso protagonista tenta ajudar um companheiro. O outro n\u00e3o tem for\u00e7as para subir, e deixa-se cair. Na m\u00e3o, o refugiado fica com um saco. Ter\u00e1 sido uma ilus\u00e3o, a ajuda frustrada que culminou em morte?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As pessoas s\u00e3o enfiadas num bote de borracha para atravessar o continente com vista ao \u201cmundo rico\u201d. As altas fragas fazem com que um rapaz caia; a sua m\u00e3e, em desespero, tamb\u00e9m se atira. O nosso refugiado fica a olhar o mar, depois dos corpos desaparecerem. Os que se salvaram seguem calados; sentem-se culpados. Aparece uma luz na escurid\u00e3o da noite, ap\u00f3s dias de desespero. A luz rapidamente se transforma numa escurid\u00e3o maior: \u00e9 um barco que passa pela fr\u00e1gil embarca\u00e7\u00e3o, a repele com a sua for\u00e7a e com a frase \u201cV\u00e3o pra vossa terra\u201d (que vemos v\u00e1rias vezes projectada).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Paulo Matos na folha de sala de \u201cRefugiado \u2013 Epopeia de uma Fuga\u201d esclarece: \u201cN\u00e3o se trata apenas de retratar os horrores dos refugiados, mas de dar voz (e ouvidos) ao discurso \u00edntimo que se instala no caminho tortuoso do pr\u00f3prio ser que foge, que se esconde, que atravessa horrores na procura de uma nova vida.\u201d. Valeu a pena?, pergunta S\u00e9rgio Godinho na m\u00fasica \u201cFugitivo\u201d (1988): \u201cUm homem luta contra o sangue&nbsp;\/que derrama&nbsp;\/&nbsp;e diz: valeu a pena?\u201d. N\u00e3o sabemos que sofrimentos impelem cada alma humana a tentar a sorte noutros lugares longe das suas ra\u00edzes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Surge um porto \u201cseguro\u201d. Um milagre, diz o refugiado &#8211; a comida, as roupas que podem escolher, o banho de \u00e1gua morna. Depressa \u00e9 atirado para esse \u201cmundo rico\u201d, sem saber onde est\u00e1 e que l\u00edngua ali falam. Sorrir, independentemente de tudo, sorrir, foi o conselho que lhe deram. Caminha na noite da desconhecida cidade. Dorme ao frio e ao relento. Espera, tem ainda esperan\u00e7a. Conseguiu chegar, pode tentar erguer uma outra vida. Aproxima-se um grupo; d\u00e3o-lhe um empurr\u00e3o, e tudo se transforma na mais cruel das viol\u00eancias. O homem que procurava ref\u00fagio jaz morto, an\u00f3nimo, num pa\u00eds an\u00f3nimo no ch\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Confrontar Deus e a Humanidade<\/h2>\n\n\n\n<p>Retomo as inquieta\u00e7\u00f5es de Paulo Matos: \u201cN\u00f3s, espectadores e cidad\u00e3os que tudo sabemos e a tudo assistimos, o que fazemos perante este sofrimento? Seremos capazes de receber, compreender, acolher? Ou iremos rejeitar e fechar os olhos e a alma em argumentos sem mem\u00f3ria e unicamente enraizados nos nossos medos inconfession\u00e1veis?\u201d Por isso, depois da morte do refugiado, Matos confronta a audi\u00eancia, ao mesmo tempo que se dirige a um ser imortal, que criou \u00e0 sua imagem um ser mortal com livre-arb\u00edtrio e capaz de actos atrozes. \u00c9 uma revolta contra Deus; um apelo \u00e0 Humanidade que (re)existe em cada um de n\u00f3s.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cQuanto vale uma utopia?&nbsp;\/&nbsp;Vale tudo? Quanto vale?&nbsp;\/&nbsp;Um homem corre na noite&nbsp;\/\u00e9 uma imagem banal\u201d (S\u00e9rgio Godinho). Jamais podemos deixar que uma utopia, um sonho e a luta pela melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida de cada cidad\u00e3o sejam banais. Jamais podemos permitir que algu\u00e9m permane\u00e7a an\u00f3nimo e sozinho, que seja discriminado e fique desabrigado &#8211; e que isso se torne numa imagem banal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cRefugiado \u2013 Epopeia de uma Fuga\u201d \u00e9 um manifesto magn\u00edfico empenhado social e politicamente, em prol dos mais desfavorecidos e na luta constante pela igualdade e pela toler\u00e2ncia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A 20 de Junho comemorou-se o Dia Mundial do Refugiado, data designada pelas Na\u00e7\u00f5es Unidas, para apelar \u00e0 consciencializa\u00e7\u00e3o sobre o drama contempor\u00e2neo dos refugiados. O actor e encenador Paulo Matos apresentou no Teatro S\u00e3o Luiz, nesse mesmo dia, \u201cRefugiado \u2013 Epopeia de uma Fuga\u201d, espect\u00e1culo de (e com) um s\u00f3 homem, que representa todos os saem dos seus pa\u00edses e arriscam a vida. Este cidad\u00e3o (de quem nunca sabemos o nome) vai desabafando a sua hist\u00f3ria. O profund\u00edssimo texto \u00e9 da autoria de Matos, que foi dirigido pela actriz Rita Lello, e acompanhado ao violino de Susana Franc\u00eas. <\/p>\n","protected":false},"author":81,"featured_media":8223,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[48],"tags":[],"coauthors":[177],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8222"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/81"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8222"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8222\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8229,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8222\/revisions\/8229"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8223"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8222"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8222"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8222"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=8222"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}