{"id":8205,"date":"2024-07-10T15:31:59","date_gmt":"2024-07-10T15:31:59","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=8205"},"modified":"2024-08-10T10:21:28","modified_gmt":"2024-08-10T10:21:28","slug":"entrevista-ao-pianista-e-professor-miguel-borges-coelho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2024\/07\/10\/entrevista-ao-pianista-e-professor-miguel-borges-coelho\/","title":{"rendered":"Entrevista ao pianista e professor Miguel Borges Coelho"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"pergunta\">Estudaste piano no Porto, em Freiburg, e em Madrid. Como estudante, o que sentiste e observaste nestes diferentes contextos culturais, sociais e educativos?<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 uma quest\u00e3o importante de ter sido em \u00e9pocas diferentes\u2026 eu era mi\u00fado, tinha 19 anos, e o Porto era muito diferente do que \u00e9 agora, em termos culturais e musicais. A C\u00e2mara de Matosinhos fazia uns ciclos muito bem montados, muito bem feitos, sempre com um programa muito bem pensado e coerente, eram ciclos que funcionavam; e \u00e0s vezes havia uns concertos soltos, mas n\u00e3o havia nenhuma programa\u00e7\u00e3o no Porto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Estamos a falar de in\u00edcios dos anos 90\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Finais dos anos 80, princ\u00edpio de 90, eu sa\u00ed do Porto em 1990. Portanto, anos 80. Havia alguma actividade de m\u00fasicos locais, \u00e0s vezes havia umas coisas fora do habitual, mas havia pouca actividade cultural. Serralves estava a come\u00e7ar, ainda era s\u00f3 a casa antiga e a Casa da M\u00fasica, nem pensar. Eu estudei no Conservat\u00f3rio, e n\u00e3o na Escola Superior [de M\u00fasica e de Artes do Espect\u00e1culo, ESMAE], terminei o Conservat\u00f3rio no \u00faltimo ano em que o 9\u00ba ano era o fim do ensino da m\u00fasica. Portanto, o Conservat\u00f3rio era uma escola, como dizer\u2026 tinhas mi\u00fados que seguiam at\u00e9 ao fim, mas havia uma grande variedade de n\u00edveis. Portanto, \u00e9 dif\u00edcil comparar geografias em tempos diferentes, porque em Freiburg, apesar de ser uma cidade pequena, \u00e9 uma cidade com uma escola j\u00e1 com muitos anos, tinha um grupo de m\u00fasica contempor\u00e2nea muito bom, muito conhecido, que ainda tem, uma orquestra barroca tamb\u00e9m muito conhecida, na altura tinha uma orquestra que n\u00e3o era grande coisa, depois mudou para l\u00e1 a Orquestra Baden-Baden, portanto, apesar de ser uma cidade pequena tinha uma vida cultural forte, muito mais forte do que o Porto, sem compara\u00e7\u00e3o. Do ponto de vista da escola, para mim foi uma grande subida de n\u00edvel, de exig\u00eancia, passar do Porto para ali, mas tamb\u00e9m era passar de um Conservat\u00f3rio\u2026 A escola de Freiburg \u00e9 uma escola muito aberta, tem um departamento de m\u00fasica contempor\u00e2nea importante, a classe de percuss\u00e3o era fort\u00edssima, era um ambiente arejado, comparando com o que era no Porto, que era uma mistura de superior e secund\u00e1ria. Portanto foi uma grande mudan\u00e7a para mim; lembro-me que quando cheguei \u00e0 Alemanha comecei logo a estudar muito, e no Porto estudava pouco\u2026 e n\u00e3o foi sequer depois da primeira aula, foi mesmo antes, percebi logo que mudei de contexto e agora \u00e9 a s\u00e9rio! Foram anos muito bons para mim em termos de forma\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 de piano, mas em geral.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Depois em Madrid [Escuela Superior de M\u00fasica Reina Sof\u00eda], era uma escola pensada como uma esp\u00e9cie de escola de elite na altura, ainda \u00e9, mas mais na altura, porque tinha poucos instrumentos, n\u00e3o era oficial, ficou oficial h\u00e1 pouco tempo, era-se admitido e ao fim de ano ou se continuava ou se era posto fora, n\u00e3o se passava de ano, n\u00e3o havia exames. Essa escola tinha um n\u00edvel brutalmente alto; culturalmente n\u00e3o tanto, era menos interessante, cada um estava mais focado no seu instrumento. Foram anos muito exigentes do ponto de vista de trabalho pessoal, em Freiburg tamb\u00e9m, mas em Madrid foram mais violentos, os dois professores russos que trabalhavam juntos\u2026 o de Freiburg tamb\u00e9m era russo, mas usava mais a ironia do que a viol\u00eancia (risos) e era muito bom, mas n\u00e3o era violento, em Freiburg a coisa foi mais tranquila. Em Madrid era mais pesado e o n\u00edvel era alt\u00edssimo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">E foste para esses s\u00edtios por causa dos professores?<\/p>\n\n\n\n<p>Foi sempre pelos professores, sim. Em Freiburg foi porque tinha conhecido o [Vitaly] Margulis, e em Madrid, conhecia o [Dmitri] Bashkirov de nome, claro, tinha um colega, que depois foi para Freiburg estudar com o Margulis, que tinha estudado com o Bashkirov e que dizia o melhor poss\u00edvel, avisando qual era o pre\u00e7o a pagar! E a Galina [Eguiazarova], que era assistente dele, era t\u00e3o boa como ele, pelo menos. Foi professora do Radu Lupu e do [Arcadi] Volodos, foi ela que o descobriu e que o formou, quase. Portanto, foram experi\u00eancias muito intensas, as duas. Se calhar, culturalmente mais enriquecedora a de Freiburg, as pessoas eram mais arejadas de cabe\u00e7a, Madrid era uma coisa mais fechada em si, mas ambas foram muito importantes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Nos anos 80 ainda t\u00ednhamos professores de instrumento em Conservat\u00f3rios sem a 4\u00aa classe\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Sim, o Director, por exemplo. O director do Conservat\u00f3rio do Porto, quando eu l\u00e1 andei, era professor de sopros, n\u00e3o era de madeiras ou de metais, era de sopros no geral. Desde flauta a tuba dava tudo!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">O que achas que influenciou mais a mudan\u00e7a do ensino da m\u00fasica em Portugal, nestas \u00faltimas d\u00e9cadas?<\/p>\n\n\n\n<p>Acho que foram as escolas profissionais, primeiro; as escolas superiores tiveram tamb\u00e9m muito import\u00e2ncia, apesar de terem sido muito mal recebidas, porque foi uma viol\u00eancia. Implicou que os professores do Conservat\u00f3rio, que eram professores do ensino secund\u00e1rio e superior, de repente perdessem um, baixaram de estatuto, mas n\u00e3o houve s\u00f3 isso, a parte mais pesada da coisa foi que os diplomas do Conservat\u00f3rio deixaram de ser v\u00e1lidos, o que \u00e9 quase inacredit\u00e1vel. O meu diploma s\u00f3 \u00e9 v\u00e1lido, porque\u2026 at\u00e9 \u00e9 uma coisa um bocado extravagante, porque eu tinha o diploma do Conservat\u00f3rio que me permitiu entrar em Freiburg num Mestrado com 20 anos, o que n\u00e3o era poss\u00edvel, na Alemanha, entrar num Mestrado com essa idade, mas como eu tinha o diploma traduzido e oficial aceitaram, (eles s\u00e3o muito pouco burocr\u00e1ticos nesse sentido, muito menos do que n\u00f3s), mas esse diploma em Portugal n\u00e3o me teria valido para nada. Depois, com o diploma da Alemanha, que era de Mestrado, fui reconhec\u00ea-lo \u00e0 Universidade Nova e s\u00f3 mo reconheceram como Licenciatura, o que na verdade me deu jeito, porque sen\u00e3o n\u00e3o tinha Licenciatura (risos). Portanto, nesse sentido, a reforma foi muito mal recebida, e mal feita, porque diz-se \u00e0s pessoas agora \u00e9 assim e o que est\u00e1 para tr\u00e1s n\u00e3o vale. \u00c9 absurdo. At\u00e9 porque os professores que fundaram as escolas superiores era isso que tinham. Ora, podiam ser professores l\u00e1, mas se fossem para o ensino secund\u00e1rio n\u00e3o teriam habilita\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria para dar aulas, estavam todos em situa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria a partir da\u00ed. E isso durou muito tempo, porque quando cheguei ao Conservat\u00f3rio de Lisboa [1997] a situa\u00e7\u00e3o era essa. Mas o que \u00e9 que eu acho que melhorou o panorama? As escolas profissionais tiveram muita import\u00e2ncia porque mudaram muito o ensino nos n\u00edveis anteriores ao superior, e deram muito boas condi\u00e7\u00f5es. Houve uma combina\u00e7\u00e3o de duas coisas: primeiro o ensino integrado, que \u00e9 uma grande vantagem; depois, particularmente nas escolas do Norte, que foram as que apareceram na altura, apanharam a cria\u00e7\u00e3o, muito pouco tempo antes, da Orquestra R\u00e9gie Sinfonia do Porto, que era uma orquestra com um or\u00e7amento descomunal, uma coisa completamente fora de tudo, e vieram m\u00fasicos muito bons para a\u00ed por causa disso. Ao fim de um ano esperava-se que os privados entrassem, mas n\u00e3o entraram, foi preciso refundar, fez-.se um <em>downgrade<\/em> completo da orquestra, mas muitos m\u00fasicos que estavam na orquestra, as escolas profissionais abriram nessa altura, foram convidados para ficarem a dar aulas. Portanto, aproveitou-se essa gente que veio de fora e houve uma concerta\u00e7\u00e3o de gente bem preparada, de repente. Al\u00e9m disso, os mi\u00fados tinham estudo acompanhado, no in\u00edcio havia mi\u00fados de qualquer s\u00edtio. As escolas profissionais iam buscar os mi\u00fados de taxi \u00e0s terrinhas deles, era assim que era, todos os dias para as aulas. Portanto, havia umas condi\u00e7\u00f5es financeiras boas, nas escolas profissionais, pagavam bem aos professores, tinham capacidade econ\u00f3mica para fazer isso aos mi\u00fados e, portanto, o n\u00edvel come\u00e7ou a subir a\u00ed. As escolas superiores acho que ajudaram, mas acho que n\u00e3o foi o motivo da mudan\u00e7a. A partir da\u00ed, com as profissionais havia uma sequ\u00eancia, sobretudo no in\u00edcio havia mais selec\u00e7\u00e3o de professores, com o meio pequeno, e no in\u00edcio as condi\u00e7\u00f5es eram um bocadinho luxuosas. Eu era aluno do Conservat\u00f3rio e quando ia \u00e0 ESMAE, porque tinha uns amigos que estudavam l\u00e1, ficava chocado com aquilo\u2026 era muito pequenino porque tinha poucos alunos, mas como tinham muito dinheiro compravam pianos e punham-nos ao alto, encostados \u00e0s paredes, nem estavam a uso, salas com 5 pianos, s\u00f3 porque tinham de gastar o dinheiro. E no Conservat\u00f3rio t\u00ednhamos pianos com 100 anos\u2026 Agora, 30 anos passados, a ESMAE tem os pianos a desfazerem-se e nunca mais teve dinheiro para comprar pianos, compra um piano velho de tempos a tempos. Mas acho que as escolas profissionais foram mesmo muito importantes. Hoje em dia, objectivamente, h\u00e1 muitos m\u00fasicos portugueses em orquestras de primeira em todo o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Em 1997 regressas a Portugal e come\u00e7as o teu percurso tamb\u00e9m como professor, no Conservat\u00f3rio Nacional em Lisboa, na Escola Superior de M\u00fasica de \u00c9vora, at\u00e9 te fixares na ESMAE, no Porto. Em termos laborais como caracterizas as condi\u00e7\u00f5es da profiss\u00e3o ao longo destes 27 anos?<\/p>\n\n\n\n<p>Falo da minha experi\u00eancia, claro. Dei, primeiro, aulas na Academia de M\u00fasica de Santa Cec\u00edlia, era o Rui Paiva o director na altura, e portaram-se mesmo bem comigo. Quando decidi vir para Lisboa n\u00e3o tinha trabalho e mandei cartas para todas as escolas de Lisboa, a \u00fanica que me respondeu foi a Academia de Sta. Cec\u00edlia. E quase na altura de chegar abre o concurso para professor no Conservat\u00f3rio Nacional. E, ent\u00e3o, fui falar com o Rui Paiva e se ele me dissesse para n\u00e3o fazer eu n\u00e3o fazia, mas dava-me muito jeito concorrer, at\u00e9 porque em Sta. Cec\u00edlia estava com meio hor\u00e1rio, e ele foi impec\u00e1vel, disse-me para fazer e s\u00f3 me pediu que assegurasse um m\u00eas e que arranjasse um substituto, e assim fiz. Portanto, fui para o Conservat\u00f3rio. As condi\u00e7\u00f5es laborais n\u00e3o eram m\u00e1s, eu tinha hor\u00e1rio completo\u2026 em propor\u00e7\u00e3o, acho que eram bem melhores na altura do que s\u00e3o agora, porque d\u00e1vamos as aulas, havia tempo para a nossa prepara\u00e7\u00e3o pessoal e n\u00e3o havia estas coisas dantescas, que eu fui sabendo, das horas n\u00e3o lectivas, que as pessoas t\u00eam de fazer o que \u00e9 que seja nem que seja estar l\u00e1 a olhar para o tecto. Isso eu considero condi\u00e7\u00f5es m\u00e1s, porque quando comecei a dar aulas precisava de um hor\u00e1rio que me permitisse estudar, o do Conservat\u00f3rio estava no limite, e era poss\u00edvel. Agora, se tivesse de fazer essas horas todas era deixar de estudar e de tocar. Isso, no fundo, \u00e9 uma forma de promover e de incentivar a que as pessoas deixem de tocar, ou seja, deixem de estar activos e isso, para o ensino art\u00edstico, \u00e9 um desastre, n\u00e3o tem sentido nenhum. Com esse trabalho burocr\u00e1tico querem tornar os professores iguais aos outros professores, que tamb\u00e9m perdem demasiado tempo com esse trabalho. Um professor precisa de estudar, de estudar para si, sen\u00e3o n\u00e3o avan\u00e7a. Portanto, acho que nessa altura eram melhores, nesse sentido, bem melhores. Depois para a Universidade de \u00c9vora, a\u00ed eram condi\u00e7\u00f5es boas, 12 horas lectivas, h\u00e1 outras coisas para fazer, mas n\u00e3o s\u00e3o horas fixas, consegue-se estudar e fazer trabalho pessoal, que \u00e9 indispens\u00e1vel. Eu acho que \u00e9 indispens\u00e1vel em todas as \u00e1reas, na verdade. Acho que os desgra\u00e7ados dos professores est\u00e3o sempre a perder muito tempo com tarefas com as quais, supostamente, querem moralizar a profiss\u00e3o e na verdade fazem-nos perder energia com um trabalho de papelada que os faz perder o foco.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Notas uma maior democratiza\u00e7\u00e3o no acesso ao ensino da m\u00fasica em Portugal? Ou seja, verificas que os alunos que chegam ao ensino superior v\u00eam de contextos socio-culturais diferenciados, ou continua a ser um meio frequentado por uma elite cultural e econ\u00f3mica privilegiada?<\/p>\n\n\n\n<p>Acho que h\u00e1 uma grande diferen\u00e7a, acho que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 assim de todo [para uma elite], hoje em dia. O risco que pode haver \u00e9 o risco que a massifica\u00e7\u00e3o traz sempre, que \u00e9\u2026 quer dizer, \u00e9 um risco, mas n\u00e3o \u00e9 para optar por outra coisa, \u00e9 importante que as pessoas tenham acesso, e t\u00eam e n\u00e3o tinham, ou tinham muito pouco. Havia \u00e1reas geogr\u00e1ficas em que nem era poss\u00edvel algu\u00e9m aprender m\u00fasica. Conhe\u00e7o imensos m\u00fasicos profissionais de primeira que, se tivessem a minha idade, n\u00e3o teriam tido hip\u00f3tese nenhuma de serem m\u00fasicos. Dez anos mais tarde j\u00e1 come\u00e7aram a ter essa oportunidade, na altura em que apareceram as escolas profissionais. Portanto, acho que sim, acho que isso melhorou muito. Acho que h\u00e1 um risco de as escolas serem tentadas, porque precisam de manter os alunos, a baixar excessivamente a exig\u00eancia. N\u00e3o quero dizer com isto que todos os alunos devam ser profissionais, era o que mais faltava, era um absurdo, nem haveria lugar, a maioria deles \u00e9 normal que aprenda m\u00fasica para saber m\u00fasica. Mas o que n\u00e3o pode acontecer \u00e9 que se um aluno quiser mesmo fazer daquilo vida a escola n\u00e3o lhe propicie a forma\u00e7\u00e3o que lhe permita faz\u00ea-lo, ou seja, tem de haver uma grande margem de escolha para que os mi\u00fados possam conhecer, e a partir da\u00ed h\u00e1 os que querem conhecer e os que querem continuar, e as duas coisas s\u00e3o importantes e n\u00e3o podem ser mutuamente exclusivas. Mas h\u00e1 escolas em que h\u00e1 press\u00f5es das direc\u00e7\u00f5es de n\u00e3o exig\u00eancia por terem medo de perder o aluno, de levar a que o aluno desista. Mas o n\u00edvel mais alto tem sempre uma vantagem no contexto e continua a haver espa\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Em rela\u00e7\u00e3o a oportunidades art\u00edsticas, sentes diferen\u00e7as nestes \u00faltimos 30 anos?<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido acho que o panorama \u00e9 pior do que era h\u00e1 20 anos. Quer dizer, h\u00e1 coisas que n\u00e3o existiam e que existem, a Casa da M\u00fasica no Porto que tem imensa actividade. O Porto, neste momento, tem concertos de n\u00edvel alto, onde as pessoas podem ter contacto com coisas que n\u00e3o havia antes. A orquestra do Porto era uma anedota, as pessoas iam-se reformando e n\u00e3o eram substitu\u00eddas, poucos violinos, muitos sopros, era uma cat\u00e1strofe que foi ficando cada vez mais pequena at\u00e9 ser uma banda m\u00e1. Era mesmo para fechar. Isso mudou, a Casa da M\u00fasica tem um grupo de m\u00fasica contempor\u00e2nea bom, tem coisas boas. Por outro lado, secou muita coisa \u00e0 volta, houve muitas iniciativas que desapareceram, digo eu. Eu acho que a vida \u00e9 mais dif\u00edcil para quem come\u00e7a agora, mas ao mesmo tempo reconhe\u00e7o que as coisas mudaram muito, n\u00e3o s\u00f3 no pa\u00eds mas no mundo, ou seja, quando eu comecei a tocar os organizadores faziam publicidade, encarregavam-se da divulga\u00e7\u00e3o, hoje isso \u00e9 muito limitado, o que fazem desse ponto de vista. H\u00e1 algumas institui\u00e7\u00f5es que fazem, mas pouco. A Casa da M\u00fasica faz, a Gulbenkian, alguma coisa, o CCB j\u00e1 foi uma institui\u00e7\u00e3o forte mas agora \u00e9 pouco, mas muitas vezes confiam muito no pr\u00f3prio m\u00fasico, nas redes sociais, nesses contactos todos. \u00c9 c\u00f3modo, sai mais barato e poupam dinheiro. Ora, como isso \u00e9 um mundo que eu n\u00e3o frequento\u2026 percebo que estou um bocadinho fora de jogo e tamb\u00e9m \u00e9 por op\u00e7\u00e3o, portanto, nesse sentido \u00e9 o que \u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Mas sentes mais op\u00e7\u00f5es no Pa\u00eds Basco, onde moras?<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o, acho que isso \u00e9 gen\u00e9rico. As pessoas querem contratar algu\u00e9m que sabem que vai ter p\u00fablico, preferem gastar menos dinheiro com publicidade. Nalguns s\u00edtios a imprensa tem mais aten\u00e7\u00e3o a isso, aqui desapareceu muito, a cr\u00edtica de concertos existe mas \u00e9 em muito menor quantidade, e em rela\u00e7\u00e3o a concertos de piano \u00e9 rar\u00edssimo, e normalmente s\u00f3 a pianistas internacionais, locais, pouqu\u00edssimo. Mas isso \u00e9 uma mudan\u00e7a geral, e n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 na m\u00fasica. Existem carreiras hoje feitas a partir da\u00ed. Esses fen\u00f3menos sempre existiram numa certa medida, mas hoje em dia existem muito mais. Aqui h\u00e1 uns anos toquei no CCB, e era um programa bem bom, toquei com a minha mulher [Marta Zabaleta] os tr\u00eas bailados de Stravinsky, e estava completamente \u00e0s moscas, mas n\u00e3o havia como n\u00e3o estar, n\u00e3o houve divulga\u00e7\u00e3o nenhuma. Isso hoje \u00e9 um problema e penso se n\u00e3o deveria render-me, mas odeio, portanto tenho vindo a resistir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Nasceste numa fam\u00edlia em que o teu pai \u00e9 m\u00fasico [Maestro Jos\u00e9 Lu\u00eds Borges Coelho], a tua m\u00e3e professora de hist\u00f3ria, portanto com uma ac\u00e7\u00e3o educativa forte e importante, nomeadamente na cria\u00e7\u00e3o das Escolas Profissionais\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Eu tinha 15 anos quando as escolas profissionais come\u00e7aram, portanto, tenho uma ideia e lembro-me do meu pai estar metido nisso. O meu pai era professor do ensino secund\u00e1rio, esteve destacado para o Coral de Letras, mas o lugar efectivo era numa escola secund\u00e1ria. Depois, houve uma altura em que ele foi convidado para fazer parte do GETAP [Gabinete do Ensino T\u00e9cnico, Art\u00edstico e Profissional] para trabalhar sobre o ensino da m\u00fasica. ( Devo dizer que o meu pai \u00e9 do Partido Comunista e foi na \u00e9poca de um dos governos de Cavaco Silva que ele foi convidado para ir para ali. ) E quando ele foi para o GETAP, teve contacto com o que as escolas profissionais existentes na Europa faziam, mais viradas para actividades n\u00e3o art\u00edsticas, e havia uma vontade de adaptar aquele modelo ao ensino art\u00edstico, e levou o assunto \u00e0 GETAP, que naquela altura funcionava no Porto com o Joaquim Azevedo a dirigir e a convidar o meu o pai, n\u00e3o porque o conhecesse, mas por recomenda\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m, sem problema nenhum de ser de outro lado [de outro espectro pol\u00edtico]. A mem\u00f3ria que eu tenho \u00e9 que essa ideia veio do Alexandre Reis, posterior director da Escola Profissional Artave [Escola Profissional Art\u00edstica de Vale do Ave], que levou ao GETAP e o meu pai achou uma \u00f3ptima ideia, que depois se foi espalhando. Pouco depois apareceu Mirandela, Viana, Estoril (que n\u00e3o durou muito, n\u00e3o sei porqu\u00ea) e outras mais. Pronto, esteve na cria\u00e7\u00e3o dessas escolas e foi um impulsionador da parte burocr\u00e1tica e normativa para p\u00f4r aquilo em pr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Al\u00e9m disso, cresceste no p\u00f3s-25 de Abril num contexto familiar muito politizado, com pai e tio [historiador e poeta Ant\u00f3nio Borges Coelho] com posi\u00e7\u00f5es fortes antifascistas e de oposi\u00e7\u00e3o ao Estado Novo, o teu tio chegou a passar pela clandestinidade e a ser preso pol\u00edtico por mais de 5 anos. Que mem\u00f3rias tens deste contexto familiar?<\/p>\n\n\n\n<p>Bom, o meu pai n\u00e3o foi preso e as mem\u00f3rias que tenho s\u00e3o do p\u00f3s-25 de Abril, a partir dos 3 anos. N\u00e3o sentia risco, em casa. Ali\u00e1s, o meu pai n\u00e3o era pessoa de n\u00e3o dizer o que pensava, nunca, nem mesmo antes do 25 de Abril. Nunca foi preso, mas teve v\u00e1rios processos disciplinares por dizer coisas a mais\u2026! A seguir ao 25 de Abril houve algumas amea\u00e7as de bomba, muita gente teve, mas n\u00e3o lhe aconteceu nada. Lembro-me do carro do meu pai ter sido roubado, telefonaram-lhe a dizer que estava num descampado e ele foi busc\u00e1-lo assim com alguma tens\u00e3o\u2026 mas n\u00e3o aconteceu nada. N\u00e3o me lembro de passar nem receio nem medo de falar na rua. Na escola eram anos muito politizados, as pessoas eram todas de um partido, professores, mi\u00fados, e era uma coisa intensa desse ponto de vista. N\u00e3o tem nada a ver com o que se passa agora\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Tiveste o privil\u00e9gio de privar com Fernando Lopes-Gra\u00e7a\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>E com o Jorge Peixinho, tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">\u2026 sim, gravaste um disco com obra para piano dele\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Sim, gravei, mas nunca toquei m\u00fasica dele enquanto ele era vivo. Ele morreu em 1995, com 55 anos, foi professor de composi\u00e7\u00e3o do meu pai, apesar de terem a mesma idade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">\u2026 em 1990 estreaste, no Acarte, M\u00fasica Festiva n\u00ba18 &#8211; para os 18 anos do Miguel Borges Coelho que o Lopes-Gra\u00e7a comp\u00f4s para ti. Foram uma influ\u00eancia importante para ti, enquanto estudante de m\u00fasica e nas tuas escolhas profissionais?<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 dif\u00edcil dizer\u2026 tamb\u00e9m n\u00e3o sei se seria m\u00fasico se o meu pai n\u00e3o fosse, apesar de n\u00e3o ter sido o meu pai a p\u00f4r-me a estudar m\u00fasica, foi a minha m\u00e3e, que n\u00e3o era m\u00fasico. O Lopes-Gra\u00e7a quando ia ao Porto ficava sempre em minha casa, e ficava l\u00e1 longas temporadas, portanto, conheci-o bem, conheci muito bem o personagem, e era sobretudo uma refer\u00eancia \u00e9tica, musical sim, obviamente, mas \u00e9tica, fort\u00edssimo. Contava imensas hist\u00f3rias e era uma pessoa com muito sentido de humor, sarc\u00e1stico, n\u00e3o um humor leve. E o Jorge Peixinho, tamb\u00e9m o conheci muito bem, era muito diferente, era completamente ca\u00f3tico. Tamb\u00e9m ficava l\u00e1 [em casa] sempre que ia ao Porto e nunca conseguiu chegar a minha casa sozinho, perdia-se sempre no caminho e o meu pai tinha de o ir buscar a alguma s\u00edtio, ele descrevia o que estava a ver \u00e0 volta e sempre perdido\u2026(risos) Eu rio-me, mas sou capaz de fazer coisas parecidas, perco-me com muita facilidade!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Como l\u00eas o crescimento dos partidos de extrema direita na Europa e no mundo? Vivendo entre o Pa\u00eds Basco e Portugal notas diferen\u00e7as?<\/p>\n\n\n\n<p>Com choque. Era quase inexplic\u00e1vel\u2026 no mundo j\u00e1 est\u00e1 a acontecer h\u00e1 algum tempo. Eu vivo entre o Porto e Fran\u00e7a, na verdade, trabalho no Porto e estou em Fran\u00e7a por motivos familiares. Na regi\u00e3o onde vivo a extrema direita n\u00e3o tem muita for\u00e7a. O Pa\u00eds Basco franc\u00eas tem uma direita nacionalista, mas \u00e9 uma direita particular, o governo do Pa\u00eds Basco \u00e9 quase sempre do Partido Nacionalista Basco que \u00e9 um partido de direita, mas com uma componente social forte, n\u00e3o \u00e9 nada ultra-liberal, \u00e9 democrata-crist\u00e3o \u00e0 antiga. Mas em Fran\u00e7a, a extrema direita est\u00e1 muito forte, foi um dos primeiros pa\u00edses a ter esse crescimento. Era estranho que n\u00e3o houvesse em pa\u00edses como Espanha e Portugal, como se tivessem uma esp\u00e9cie de vacina pelas ditaduras t\u00e3o longas que tiveram, mas seria estranho\u2026 as coisas quando duram muito tempo \u00e9 porque tiveram algum apoio, um regime que consegue durar 48 anos, podia n\u00e3o ser maiorit\u00e1rio, mas algum apoio tem, uma parte de coniv\u00eancia, uma parte de medo, mas apoio existia. E para al\u00e9m disso, acho que h\u00e1 outro fen\u00f3meno novo, que n\u00e3o \u00e9 nenhuma novidade, que \u00e9 serem todos movimentos que t\u00eam discursos intrinsecamente irracionais, apelam \u00e0 emo\u00e7\u00e3o e \u00e0 total irracionalidade, e est\u00e1 sempre relacionado com o medo do outro, a culpa do outro, normalmente quem est\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o pior, e h\u00e1 sempre quem esteja em situa\u00e7\u00e3o pior, portanto \u00e9 sempre poss\u00edvel chegar-se muito longe nessa explora\u00e7\u00e3o. E isto tudo, n\u00e3o por acaso, teve muita for\u00e7a nos anos 20 e 30 usando muito bem os meios de comunica\u00e7\u00e3o que apareceram nessa altura, e hoje em dia t\u00eam uns que s\u00e3o o ideal, que, apesar de tudo, o jornalismo implica um mediador, hoje em dia com as redes sociais a media\u00e7\u00e3o pode ser dispensada completamente. Ao ser dispensada as pessoas perdem filtro, na maioria dos casos n\u00e3o h\u00e1 capacidade para distinguir e, sobretudo, como s\u00e3o v\u00edtimas involunt\u00e1rias de um algoritmo, o que consomem leva-as a consumir cada vez mais daquilo, porque recebem sempre a mesma informa\u00e7\u00e3o, na verdade falam sobretudo com pessoas que est\u00e3o de acordo com eles. Por exemplo, eu nunca tinha ouvido falar, at\u00e9 h\u00e1 10 anos atr\u00e1s, de terraplanistas, nunca conheci ningu\u00e9m, nunca tinha ouvido ou lido que algu\u00e9m dissesse, hoje, que a Terra \u00e9 plana\u2026 mas hoje em dia existem bastantes que acreditam nisto. Como \u00e9 que \u00e9 poss\u00edvel? T\u00eam uma paran\u00f3ia, vivem numa realidade paralela, completamente alienados, mas h\u00e1 uns quantos, e como as redes sociais permitem que eles se reunam todos v\u00e3o alimentando e produzindo conte\u00fados, com uma certa sofistica\u00e7\u00e3o argumentativa para dizer o absurdo completo. E a extrema direita acho que se alimenta desse tipo de aliena\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m, e de discursos, primeiro, com explica\u00e7\u00f5es muito simples dobre a realidade\u2026 a esquerda tamb\u00e9m pode ter explica\u00e7\u00f5es muito simplistas, \u00e0s vezes, mas normalmente n\u00e3o culpa o outro, n\u00e3o h\u00e1 o medo do outro, e aqui sim, o que \u00e9 uma coisa muito f\u00e1cil de se propagar. O que \u00e9 estranho pode produzir inseguran\u00e7a, se as pessoas se sentem inseguras \u00e9 c\u00f3modo terem algu\u00e9m que possam responsabilizar, e nem digo inseguran\u00e7a do ponto vista f\u00edsico, policial, que em Portugal n\u00e3o tem sentido nenhum, \u00e9 um pa\u00eds muito seguro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">E o que te parece que est\u00e1 a provocar uma forte ades\u00e3o dos jovens a estas pol\u00edticas anti-democr\u00e1ticas, xen\u00f3fobas, racistas e de desigualdade social, no ano em que comemoramos 50 anos da Revolu\u00e7\u00e3o de Abril?<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 completamente chocante. H\u00e1 uma parte de desmem\u00f3ria, n\u00e3o viveram e t\u00eam um contacto muito distante com a realidade anterior \u00e0 liberdade. Eu n\u00e3o vivi, propriamente, mas os meus pais eram muito novos quando se deu o 25 de Abril, mas ainda viveram trinta e tal anos em ditadura, aquilo foi muito marcante para eles como experi\u00eancia e, portanto, para n\u00f3s tamb\u00e9m foi. Eu acho que a minha gera\u00e7\u00e3o ainda sentiu isso. Se calhar, para os mi\u00fados de agora isso j\u00e1 \u00e9 muito long\u00ednquo, perdeu-se essa liga\u00e7\u00e3o, e como l\u00eaem pouco, consomem informa\u00e7\u00e3o muito r\u00e1pida dessa, com muito pouco crit\u00e9rio para a escolher, acho que isso \u00e9 terreno f\u00e1cil para que cres\u00e7a, como est\u00e1 a acontecer. Por exemplo, a quest\u00e3o da imigra\u00e7\u00e3o. Qualquer pessoa que viva num pa\u00eds que n\u00e3o consegue garantir condi\u00e7\u00f5es para a sua popula\u00e7\u00e3o o normal ser\u00e1 emigrar, n\u00e3o \u00e9? Como acontece agora em Portugal, e aconteceu muito no passado. Para al\u00e9m da incapacidade de ser emp\u00e1tico com pessoas como n\u00f3s, ou que est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de guerra, ou com pessoas que est\u00e3o mesmo a deixar de ter condi\u00e7\u00f5es para sobreviver em certos s\u00edtios devido \u00e0s altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, para al\u00e9m dos problemas todos que j\u00e1 tinham \u00e0 partida, que s\u00e3o grandes, nem se quer \u00e9 um discurso racional, porque a Europa precisa que venham imigrantes. Seria uma cat\u00e1strofe, em termos de m\u00e3o-de-obra necess\u00e1ria. Eu vivo mesmo na fronteira, a chegada de imigrantes e a pol\u00edcia a mand\u00e1-los embora \u00e9 di\u00e1rio para mim. Ali\u00e1s, fa\u00e7o parte de uma associa\u00e7\u00e3o de ajuda a imigrantes. A vigil\u00e2ncia policial \u00e9 completamente hip\u00f3crita, o [Emmanuel] Macron \u00e9 um hip\u00f3crita, faz um pacto de lei sobre imigra\u00e7\u00e3o com a [Marine] Le Pen, mas antes disso o discurso era um e a pr\u00e1tica era outra. Depois da pandemia as fronteiras estiveram em vigil\u00e2ncia permanente, entre Espanha e Fran\u00e7a, supostamente s\u00f3 poderia estar assim em estado de emerg\u00eancia e por 6 meses e foi prolongado por 2 anos. Entretanto, j\u00e1 a pandemia tinha acabado h\u00e1 muito tempo e a pol\u00edcia admitiu-me que estavam ali por causa dos imigrantes. Param as pessoas em fun\u00e7\u00e3o da cor da pele, estritamente. \u00c9 mesmo assim. Portanto, \u00e9 um discurso muito f\u00e1cil que prolifera com o instigar o medo do outro. Em Fran\u00e7a, houve terras onde ganhou a extrema direita com o medo dos imigrantes e n\u00e3o tinham nenhum, n\u00e3o havia imigrantes ali, portanto, \u00e9 muito f\u00e1cil fazer-se o discurso do medo. Por isso, como \u00e9 que eu vejo? Vejo com terror. No dia 10 [de Mar\u00e7o] temia que fosse mau, mas ainda foi pior do que o que eu pensava\u2026 1 em cada 5 \u00e9 muito, \u00e9 um tipo de racioc\u00ednio absolutamente n\u00e3o emp\u00e1tico com muita gente, \u00e9 uma empatia limitad\u00edssima a um c\u00edrculo fechado. E depois, \u00e9 uma triste ironia nos 50 anos do 25 de Abril\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Terminamos voltando \u00e0 m\u00fasica. O teu percurso acad\u00e9mico foi sempre direccionado para a <em>performance<\/em>, para a interpreta\u00e7\u00e3o, certo?<\/p>\n\n\n\n<p>Sim, depois muito mais tarde fiz o Doutoramento em Musicologia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">E sempre tiveste em mente que ser professor seria inevit\u00e1vel, ou tamb\u00e9m era uma vontade tua?<\/p>\n\n\n\n<p>Eu gosto muito de dar aulas. Se no in\u00edcio, antes de dar, sabia-o? N\u00e3o, n\u00e3o sabia. Aprendemos sempre com as aulas que temos e tivemos. Quando comecei a dar aulas foi a mi\u00fados e a\u00ed estava mesmo nervoso, quando comecei. Lembro-me que quando fui para a escola de Sta. Cec\u00edlia estava em p\u00e2nico, porque tinha a ideia que poderia dar aulas a pessoas de 18, 19, 20 anos e j\u00e1 tinha dado algumas esporadicamente a amigos, mas a mi\u00fados n\u00e3o fazia ideia como \u00e9 que ia fazer. Eu tinha mais medo deles do que eles de mim (risos)\u2026 Mas eu queria muito estudar piano porque queria tocar e precisava de dar aulas, come\u00e7ou assim, mas hoje em dia n\u00e3o sei do que \u00e9 que gosto mais. E aprendo muito a dar aulas, a organizar o pensamento, ao ter de explicar aprendo muito e contacto com outros pontos de vista, o que \u00e9 muito bom. Gosto muito de aulas de [m\u00fasica de] c\u00e2mara, que ainda \u00e9 outro ponto de vista mais afastado. Portanto, se pudesse deixar de dar aulas n\u00e3o deixava.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aproveitando a sua passagem por Lisboa no passado m\u00eas de Abril, para uma Masterclass a alunos de piano na Academia de M\u00fasica de Lisboa, convers\u00e1mos com o magn\u00edfico pianista e professor Miguel Borges Coelho sobre o seu percurso acad\u00e9mico e profissional, as suas mem\u00f3rias de inf\u00e2ncia do p\u00f3s-25 de Abril, assim como a sua vis\u00e3o sobre o ensino da m\u00fasica em Portugal nos \u00faltimos 30 anos e o contexto pol\u00edtico actual. <\/p>\n","protected":false},"author":101,"featured_media":8206,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[44],"tags":[],"coauthors":[198],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8205"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/101"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8205"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8205\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8322,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8205\/revisions\/8322"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8206"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8205"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8205"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8205"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=8205"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}