{"id":8177,"date":"2024-07-10T15:01:26","date_gmt":"2024-07-10T15:01:26","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=8177"},"modified":"2024-08-10T10:19:46","modified_gmt":"2024-08-10T10:19:46","slug":"lisboa-a-cidade-onde-o-verao-nao-e-para-todos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2024\/07\/10\/lisboa-a-cidade-onde-o-verao-nao-e-para-todos\/","title":{"rendered":"Lisboa, a cidade onde\u00a0o ver\u00e3o n\u00e3o \u00e9 para todos"},"content":{"rendered":"\n<p>H\u00e1 precisamente um ano, no in\u00edcio de julho, utentes de v\u00e1rias piscinas municipais juntaram-se em protesto para exigir a reabertura destes equipamentos. \u201cQuando vimos que n\u00e3o \u00edamos ter uma resposta clara, juntamo-nos num grupo\u201d, recorda Irma Varela. Encerrados, segundo a autarquia, para serem requalificados, continuam fechados. Integrada no movimento&nbsp;<em>Piscinas J\u00e1<\/em>queixa-se \u00e0 Voz do Oper\u00e1rio da falta de vontade da c\u00e2mara municipal e da junta de freguesia de resolver o problema. Mais tarde, foram informados de que havia um dano estrutural na piscina de S\u00e3o Vicente, mas nada avan\u00e7ou desde ent\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAqui no bairro [Alfama], era um servi\u00e7o fundamental para a comunidade. Temos muitas crian\u00e7as e muitas escolas. Aprendiam a nadar, que \u00e9 uma coisa que, num lugar como Lisboa, com tanta praia e tanto mar \u00e0 volta, \u00e9 importante. Tamb\u00e9m era importante para as pessoas reformadas porque as atividades eram n\u00e3o s\u00f3 desportivas e saud\u00e1veis, mas tamb\u00e9m eram um contexto forte de socializa\u00e7\u00e3o, um lugar de encontro\u201d, descreve. \u201cAgora n\u00e3o h\u00e1 alternativa\u201d, lamenta, recordando que na cidade onde nasceu, Madrid, as piscinas s\u00e3o, no ver\u00e3o, espa\u00e7os de lazer. \u201cL\u00e1, h\u00e1 muitas piscinas p\u00fablicas sem cobertura, n\u00e3o s\u00e3o desportivas\u201d. Nesta zona da cidade, nem uma coisa nem outra. Para al\u00e9m da piscina de S\u00e3o Vicente, tamb\u00e9m a de Arroios e a do Casal Vistoso est\u00e3o fechadas. N\u00e3o se sabe quando haver\u00e1 outro protesto mas este movimento de utentes continua a pressionar as autarquias para que a requalifica\u00e7\u00e3o e obras necess\u00e1rias avancem o mais rapidamente poss\u00edvel.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2023, no mesmo ver\u00e3o em que decorriam protestos pela reabertura destes equipamentos municipais, surgiram algumas fotografias de piscinas improvisadas em estacionamentos e outras zonas de bairros perif\u00e9ricos da cidade. Ent\u00e3o, Ant\u00f3nio Brito Guterres, assistente social e doutorando em Estudos Urbanos, com grande conhecimento e experi\u00eancia junto das associa\u00e7\u00f5es de v\u00e1rios bairros, apelou nas redes sociais ao apoio \u00e0 associa\u00e7\u00e3o de moradores do bairro da Quinta do Lavrado. O motivo: uma piscina de lona para as crian\u00e7as e jovens moradores naquela parte de Lisboa.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Aproximar o rio da popula\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>Para Tiago Mota Saraiva, arquiteto e professor universit\u00e1rio, isto \u201cmostra bem a falta de equipamentos p\u00fablicos\u201d e recorda que \u201c\u00e9 muito caro ir \u00e0s praias, mesmo n\u00e3o estando Lisboa longe da costa\u201d. Nesse sentido, considera que \u201ca resposta dos bairros \u00e9 que os mais jovens se refresquem \u00e0 beira das suas casas\u201d com a \u201cocupa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o de estacionamento por pequenos tanques ou piscinas daquelas insufl\u00e1veis, o que n\u00e3o \u00e9 visto com bons olhos\u201d. Sublinha que \u201crepresentam em si mesmo tamb\u00e9m a manifesta\u00e7\u00e3o de uma car\u00eancia. Aquelas crian\u00e7as, certamente, gostariam muito mais de estar a nadar numa piscina municipal\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 falta de espa\u00e7os de lazer em contacto com a \u00e1gua, d\u00e1 o exemplo de cidades como Paris ou Budapeste em que se criaram espa\u00e7os para as pessoas usufru\u00edrem dos respetivos rios. \u201cN\u00f3s j\u00e1 tivemos em tempos a ideia de uma praia fluvial com controlo de qualidade das \u00e1guas mas \u00e9 algo muito embrion\u00e1rio, que tamb\u00e9m poderia ser, certamente, uma solu\u00e7\u00e3o\u201d. Contudo, considera que seria dissonante da l\u00f3gica atual de cidade de consumo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEstaria desajustado daquela beira mar, daqueles equipamentos \u00e0 beira rio, do bar da moda com pre\u00e7os muitos altos que n\u00e3o \u00e9 muito concili\u00e1vel com crian\u00e7as da margem da cidade a descerem at\u00e9 ao rio e virem tomar banho ali. H\u00e1 n\u00e3o s\u00f3 uma turistifica\u00e7\u00e3o da frente de rio como tamb\u00e9m uma atitude classista com a mesma frente de rio. E uma atitude para condicionar o seu uso a um conjunto reduzido de classes sociais. David Harvey explica muito bem, isto \u00e9 a disputa pela cidade, a cidade \u00e9 sempre, e sobretudo o espa\u00e7o p\u00fablico, o grande palco da luta de classes nas op\u00e7\u00f5es que s\u00e3o tomadas pelos poderes p\u00fablicos. Uma grande piscina \u00e0 beira rio com controlo de \u00e1gua, com qualidade e sem custos para as crian\u00e7as da cidade seria certamente um grande inibidor do bar gourmet que serve aperitivos ao fim de tarde\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, Tiago Mota Saraiva considera que tamb\u00e9m as escolas s\u00e3o equipamentos p\u00fablicos que deviam estar ao servi\u00e7o das popula\u00e7\u00f5es. \u201cPodem ser um grande equipamento de bairro, para reuni\u00f5es de moradores e iniciativas populares. S\u00e3o espa\u00e7os privilegiados para isso. Com a liberaliza\u00e7\u00e3o do uso das escolas, com os espa\u00e7os que s\u00e3o concessionados a empresas, isto faz com que estes equipamentos p\u00fablicos deixem de ser o que foram, sobretudo, no p\u00f3s 25 de abril, do ponto de vista de congrega\u00e7\u00e3o das pessoas\u201d. Para o arquiteto, h\u00e1 um grande receio do poder pol\u00edtico sobre a ocupa\u00e7\u00e3o e decis\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o \u201csobre as linhas com que se cose o espa\u00e7o p\u00fablico\u201d. D\u00e1 o exemplo dos imigrantes que jogam futebol de noite no Martim Moniz. \u201cIsso s\u00e3o coisas com que os decisores pol\u00edticos n\u00e3o est\u00e3o ainda habituados a lidar e tradicionalmente n\u00e3o gostam\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Autarquia e EGEAC retiram apoios a Bairro em Festa<\/h2>\n\n\n\n<p>At\u00e9 2023, o festival Bairro em Festa, organizado no Intendente pela cooperativa LARGO Resid\u00eancias em parceria com a EGEAC, C\u00e2mara Municipal de Lisboa e Junta de Freguesia de Arroios, trazia v\u00e1rias associa\u00e7\u00f5es para o espa\u00e7o p\u00fablico e promovia uma rede cultural local com o intuito de dar a conhecer a realidade de v\u00e1rios bairros.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Este \u00e9 o primeiro ano desde 2012 que o Bairro em Festa n\u00e3o vai acontecer. De acordo com Marta Silva, gestora cultural da LARGO Resid\u00eancias, o motivo prende-se com a falta de financiamento da EGEAC e o desinteresse da junta de freguesia. \u201cNos \u00faltimos anos, no Largo do Intendente, deu para assistir a uma invers\u00e3o de paradigma. Era uma cidade com mais atividades, mais espa\u00e7os de encontro. Os espa\u00e7os culturais tinham um papel importante, de diversidade e coes\u00e3o. Nos \u00faltimos anos, de forma gradual, h\u00e1 dificuldade em dar continuidade a esse trabalho\u201d, considera. Explica que falta acesso a espa\u00e7os e assiste-se ao fecho de associa\u00e7\u00f5es e coletividades. \u201cN\u00f3s temo-nos reinventado para n\u00e3o desaparecer, sen\u00e3o estar\u00edamos na mesma situa\u00e7\u00e3o\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Lisboa est\u00e1 a tornar-se numa cidade ass\u00e9tica e isso tamb\u00e9m se deve a uma reconfigura\u00e7\u00e3o social. A gestora cultural recorda a recente pol\u00e9mica sobre o ru\u00eddo provocado pelas esplanadas. \u201cO centro da cidade antes era uma zona habitada, sobretudo, por uma popula\u00e7\u00e3o idosa e migrantes. Nos \u00faltimos anos assistimos \u00e0 recomposi\u00e7\u00e3o social da vizinhan\u00e7a e a pessoas que come\u00e7aram a achar interessante viver no centro mas no momento em que se tornaram moradores passaram a ser fiscalizadores, a exigir que [Lisboa] fosse um local dormit\u00f3rio\u201d, afirma. \u201c\u00c9 importante o direito ao descanso mas n\u00e3o podemos exigir o fim de qualquer ru\u00eddo, isso nunca existiu. J\u00e1 sab\u00edamos quando viemos para aqui viver\u201d. Nesse sentido, considera que h\u00e1 um novo contexto que potencia licen\u00e7as de ru\u00eddo mais limitadas e menos autoriza\u00e7\u00e3o para eventos, ao mesmo tempo que se aprofunda a privatiza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico.<br>\u201cPass\u00e1mos de um paradigma de bairros n\u00e3o seguros para uma situa\u00e7\u00e3o de tens\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o de um bairro dormit\u00f3rio e ass\u00e9tico, de vidas engavetadas, de espa\u00e7os de frui\u00e7\u00e3o cada vez mais diminutos e controlados\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A perda de apoios p\u00fablicos da autarquia para o festival Bairro em Festa n\u00e3o significa o fim do evento mas n\u00e3o houve tempo para o manter este ano e a cooperativa pretende agora apostar numa maior diversifica\u00e7\u00e3o de fontes de apoio. No fundo, o festival que foi criado para mostrar \u00e0 cidade uma zona que tinha sido reabilitada com a colabora\u00e7\u00e3o das associa\u00e7\u00f5es locais acaba por ser tamb\u00e9m v\u00edtima dos novos tempos. \u201cEste festival foi sempre feito com as entidades que estavam no territ\u00f3rio e para mostrar aquilo que iam fazendo ao longo do ano. Era tamb\u00e9m uma forma de terem verbas para financiar as atividades dessas associa\u00e7\u00f5es, era um momento chave para terem recursos. A miss\u00e3o para a qual estamos aqui, ao contr\u00e1rio do que se possa pensar, n\u00e3o est\u00e1 completa. A popula\u00e7\u00e3o vulner\u00e1vel continua ali, gente que n\u00e3o tem acesso \u00e0 cultura, e agora ainda \u00e9 mais dif\u00edcil estar c\u00e1, \u00e9 uma press\u00e3o de uma cidade que trouxe o luxo para este lugar\u201d, descreve Marta Silva. \u201cPara muita desta gente, o bairro n\u00e3o melhorou, agora \u00e9 uma zona de maiores contrastes\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, a cooperativa LARGO Resid\u00eancias mudou, novamente, de s\u00edtio. Depois de 11 anos no Largo do Intendente, promoveu a ocupa\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria e repara\u00e7\u00e3o de parte significativa do antigo Quartel da GNR Cabe\u00e7o de Bola com apoios p\u00fablicos. Entretanto, este ano, mudou-se para o antigo Hospital Miguel Bombarda, \u201ctrazendo uma dimens\u00e3o de acesso p\u00fablico\u201d e, segundo Marta Silva, com din\u00e2mica para ser um lugar \u201conde acontece cultura\u201d e onde a vizinhan\u00e7a lhe d\u00e1 \u201cum uso individual, social e coletivo\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cSe o ritmo de expuls\u00e3o dos habitantes locais n\u00e3o parar, dentro de alguns anos, os turistas s\u00f3 poder\u00e3o ver-se uns aos outros\u201d, escreveu, h\u00e1 pouco mais de um m\u00eas, Tereixa Constenla, no El Pa\u00eds. A correspondente em Portugal do di\u00e1rio espanhol acrescentou que Lisboa se juntara ao \u201cclube das cidades carism\u00e1ticas que s\u00f3 fazem felizes quem as visita\u201d. Com a turistifica\u00e7\u00e3o massiva, poderia pensar-se que a capital portuguesa \u00e9 ben\u00e9vola com os seus moradores e apresenta uma diversidade sem fim de op\u00e7\u00f5es no per\u00edodo estival. Nada mais longe da realidade.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":8178,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[55],"tags":[],"coauthors":[71],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8177"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8177"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8177\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8316,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8177\/revisions\/8316"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8178"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8177"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8177"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8177"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=8177"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}