{"id":8173,"date":"2024-07-10T14:58:03","date_gmt":"2024-07-10T14:58:03","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=8173"},"modified":"2024-07-10T14:58:04","modified_gmt":"2024-07-10T14:58:04","slug":"cheira-bem-cheira-a-abril","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2024\/07\/10\/cheira-bem-cheira-a-abril\/","title":{"rendered":"Cheira bem, cheira a Abril"},"content":{"rendered":"\n<p>No Largo da Gra\u00e7a o arraial cumpria-se. As barraquinhas revestiam as fachadas do Largo, contornando o passeio e engolindo o coreto. A fachada da Tabacaria Havanesa, por exemplo, forrada pela loja de farturas, hoje n\u00e3o vendia cigarros e jornais, mas antes charutos de farinha frita ensopada em \u00f3leo e polvilhada de a\u00e7\u00facar e canela. Mas era o odor da sardinha assada o aroma permanente. A sardinha que no regime derrubado h\u00e1 50 anos era dividida como peda\u00e7os de p\u00e3o para enganar a fome, hoje \u00e9 um pit\u00e9u mais democr\u00e1tico apesar dos 2 euros por esp\u00e9cime.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>E hoje a\u00ed est\u00e1 ela, uma preciosidade das festas juninas, mais profanas que sagradas, porque o Santo Ant\u00f3nio deste arraial \u00e9, como diz Fernando Pessoa, do povo e n\u00e3o de Roma: \u201c\u00c9s este, e este \u00e9s tu, e o povo \u00e9 teu\/ O povo que n\u00e3o sabe onde \u00e9 o c\u00e9u\u201d, dizia o poeta, nascido no dia do padroeiro. E foi esse arraial, o do povo, que exportamos para o Brasil que em troca nos inspirou no fado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Lisboa, de resto, sempre foi feita de chegadas e partidas e assim era a Gra\u00e7a deste dia. A igreja e o velho convento, em breve, quem sabe, mais um luxuoso hotel, estava agora entaipado pelas coloridas barraquinhas, como separando o sagrado do profano. E, era deste cen\u00e1rio que sa\u00edam m\u00e3os passando bifanas no p\u00e3o, mais sardinhas e couratos e copos, muitos copos de cerveja, vinho, morritos ou caipirinhas, tanto faz, porque a cultura, tamb\u00e9m \u00e0 mesa, n\u00e3o se faz rogada. No largo da Gra\u00e7a o bailarico decorria sem gui\u00e3o nem par certo, mas havia um certo desacerto neste passo coletivo de dan\u00e7a. Dei-me conta, \u00e0 entrada do largo, de barreiras que cortavam o caminho aos foli\u00f5es. As grades formavam um g\u00e9nero de porta de entrada e sa\u00edda, como se houvera uma lista de convidados. A pol\u00edcia, aleatoriamente, penso eu, revistava transeuntes, presumo que com a intens\u00e3o de proteger os foli\u00f5es e a folia. Por\u00e9m, arraial e pol\u00edcia n\u00e3o rima nada a n\u00e3o ser arraial de porrada e ainda estava presente na mem\u00f3ria o epis\u00f3dio ocorrido, uns dias antes, quando as autoridades se mostraram compassivas e at\u00e9 delicadas, n\u00e3o para com um grupo de foli\u00f5es, mas de fascistas, enquanto cerravam dentes e cassetetes nos antifascistas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, enfim, a festa l\u00e1 prosseguia por cada rua ou travessa que agora se transformara em viela estreita, forrada de gente, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a raia mi\u00fada, porque a cidade mudou, mas esta Lisboa continua a ser outra, como cantava Carlos do Carmo. Descendo a Cal\u00e7ada da Gra\u00e7a a festa incendiava de um lado e do outro sem fronteiras, nem no Castelo nem em Alfama. O arraial descia, a custo, em dire\u00e7\u00e3o a uma outra cidade, tamb\u00e9m festiva, mas mais organizada, mais formal e competitiva. Eram as marchas que convocavam Lisboa para a baixa.<\/p>\n\n\n\n<p>Eram as marchas, que as coletividades dos bairros v\u00e3o segurando como a velha foto de fam\u00edlia que se foi perdendo, um postal ilustrado dos anos 30 do s\u00e9culo passado. E estava prestes a desfilar na Avenida da Liberdade. O povo, arranjava-se como podia no passeio, no pe\u00e3o, olhando por cima do ombro, empurrando o desconforto por umas horas de prazer, na defesa do bairrismo, j\u00e1 que o bairro j\u00e1 tem poucos quem o defendam, porque tal como a tradi\u00e7\u00e3o, sucumbiu ao apetite imobili\u00e1rio. Os vips e convidados de honra, bem como os ju\u00edzes das marchas, todos sempre imparciais nestas andan\u00e7as, t\u00eam lugar marcado na bancada central onde tudo acontece e a fotografia dispara.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ora era desta tribuna que o autarca lisboeta, ufano, presidia ao arraial. Carlos Moedas abra\u00e7ava com orgulho esta Alma Lisboeta: \u201c\u00c9 por isso que tenho investido tanto nesta \u00e1rea dos bairros, das nossas marchas, da nossa cultura popular, porque ela \u00e9 a nossa base, sem esta cultura n\u00e3o somos lisboetas, esta cultura que nos transforma e nos torna mais lisboetas\u201d, diria o autarca enquanto as marchas aguardavam a ordem de partida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo estava organizado. E at\u00e9 h\u00e1 sempre um tema sugerido pela autarquia, para que a imagina\u00e7\u00e3o dos bairros n\u00e3o vagueie. O tema deste ano foi o Tejo, revelaria Moedas. Em ano de comemorar 50 anos do 25 de Abril, daquele \u201cdia inicial inteiro e limpo\u201d, o presidente da cidade manda o povo de Lisboa, dos bairros, olharem para o Tejo. Apetece citar de novo Sophia para dizer que \u00e0s vezes \u201cAt\u00e9 a voz do Mar se torna ex\u00edlio\u201d. Enfim, e as marchas prosseguiram.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas marchas fora da competi\u00e7\u00e3o abririam o desfile; o Grupo de Macau da Associa\u00e7\u00e3o Geral Desportiva de Macau Lo Leong, as Marchas Infantis das Escolas de Lisboa e a Marcha d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio. Ah, mas afinal abril cabia neste arraial, pela m\u00e3o dos mi\u00fados d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio, porque era esse o rio que eles viam e felizmente h\u00e1 olhares que n\u00e3o se perdem. E, talvez para espanto dos mais incautos e dos turistas, cantou-se o Gr\u00e2ndola Vila Morena em dia de Santo Ant\u00f3nio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>E, depois, certinhas e afinadinhas, as marchas da competi\u00e7\u00e3o desfilaram e Alc\u00e2ntara venceu. Renhidas at\u00e9 ao fim, tinha de haver um vencedor, mas ficam aqui registadas todas as associa\u00e7\u00f5es ou coletividades que constru\u00edram este lado da festa: A quase centen\u00e1ria Associa\u00e7\u00e3o dos Comerciantes nos Mercados de Lisboa, Grupo de Pesca e desporto de Santa Maria dos Olivais, que organizou a Marcha dos Olivais, o Centro Cultural D. Magalh\u00e3es de Lima, (Alfama), Academia Recreio Art\u00edstico (Baixa), Oper\u00e1rio Futebol Clube de Lisboa (Santa Engr\u00e1cia), o Teatro de Carnide, o Grupo Desportivo do Castelo, Academia de artes Internas A.D.A.I. (Campolide), Sociedade Filarm\u00f3nica Alunos Esperan\u00e7a (Alc\u00e2ntara), Mar\u00edtimo Lisboa Clube (Bica), Esperan\u00e7a Atl\u00e9tico Clube (Madragoa), Academia Recreativa Leais Amigos (S. Vicente), Associa\u00e7\u00e3o Recreativa de Moradores e Amigos do Bairro da Boavista, Lisboa Clube Rio de Janeiro (Bairro Alto), Grupo Desportivo da Gra\u00e7a, Gin\u00e1sio Alto do Pina, Bel\u00e9m Clube, Sociedade Musical 3 de Agosto (Marvila), Sporting Clube da Penha, Grupo de Desportivo da Mouraria e a Academia Musical 1.\u00ba de Junho (Lumiar).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos bairros o Arraial de Santo Ant\u00f3nio baila, enquanto na baixa ele marcha. O tema era o Tejo e Alc\u00e2ntara ganhou, mas cantou-se a Gr\u00e2ndola, porque em Lisboa ainda cheira a Abril. <\/p>\n","protected":false},"author":90,"featured_media":8174,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[43],"tags":[],"coauthors":[186],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8173"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/90"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8173"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8173\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8176,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8173\/revisions\/8176"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8174"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8173"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8173"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8173"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=8173"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}