{"id":8147,"date":"2024-07-01T13:05:01","date_gmt":"2024-07-01T13:05:01","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=8147"},"modified":"2024-07-10T15:48:44","modified_gmt":"2024-07-10T15:48:44","slug":"um-ceu-aberto-e-outro-fechado-uma-viagem-com-fausto-bordalo-dias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2024\/07\/01\/um-ceu-aberto-e-outro-fechado-uma-viagem-com-fausto-bordalo-dias\/","title":{"rendered":"Um c\u00e9u aberto e outro fechado \u2013 uma viagem com Fausto Bordalo Dias"},"content":{"rendered":"\n<p>Diz-se que a can\u00e7\u00e3o de interven\u00e7\u00e3o est\u00e1 sempre cheia de met\u00e1foras, n\u00e3o s\u00f3 para escapar \u00e0 censura, mas para dar uma dimens\u00e3o tr\u00e1gica muito maior ao gesto da repress\u00e3o. S\u00e3o muitos os exemplos disso na nossa m\u00fasica popular resistente ao fascismo: obras repletas da mais bela poesia musicada ou escrita de prop\u00f3sito para as can\u00e7\u00f5es; dan\u00e7a de palavras na matem\u00e1tica da m\u00fasica; revolta e ternura na met\u00e1fora e no timbre. Houve sempre algu\u00e9m que nos ajudou a compreender melhor e a expressar melhor a emo\u00e7\u00e3o que um mundo sem sentido provoca em n\u00f3s. At\u00e9 mesmo de boca fechada, murmur\u00e1mos can\u00e7\u00f5es e elas fizeram de banda sonora ao nosso olhar cheio de raiva e de sonho. S\u00e3o can\u00e7\u00f5es que ainda hoje transportam a hist\u00f3ria, que contam hist\u00f3rias deste e de outro tempo e que nos d\u00e3o um profundo sentimento de esperan\u00e7a, porque tamb\u00e9m elas conheceram a noite escura e viram a manh\u00e3 da liberdade nascer.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Continuar a escrever can\u00e7\u00f5es em liberdade com a densidade das que compusemos em pleno fascismo n\u00e3o \u00e9 uma tarefa simples. A cantiga como arma foi perdendo o lugar e sendo substitu\u00edda pelas pequenas alegrias e tristezas do quotidiano. As can\u00e7\u00f5es passaram a colocar o indiv\u00edduo no centro do mundo, fechado sobre os seus dramas pessoais e as suas mais subjetivas circunst\u00e2ncias. Assim nos fomos despedindo daquele car\u00e1ter revolucion\u00e1rio e acolhemos, ou n\u00e3o, novos rumos criativos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Com Fausto Bordalo Dias nada disto aconteceu. A sua fase mais criativa, mais reconhecida e cheia de elementos simb\u00f3licos, metaf\u00f3ricos e hist\u00f3ricos surge na d\u00e9cada de 1980, sobretudo com o lan\u00e7amento da sua obra maior \u201cPor este rio acima\u201d \u2013 um \u00e1lbum que pega no malogrado Fern\u00e3o Mendes Pinto e agita as nossas \u00e1guas, as nossas certezas e convic\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Com Fausto nunca sab\u00edamos se est\u00e1vamos a ouvir falar de amor ou de guerra e em cada palavra havia um mapa para descobrir a natureza das coisas. Em cada refer\u00eancia tradicional, de instrumentos e modas que a m\u00fasica moderna e o mercado queriam esquecer, havia uma sofisticada met\u00e1fora para a circunst\u00e2ncia mais atual e contempor\u00e2nea. Foi o Fausto que n\u00e3o nos deixou esquecer o terror da guerra; que nos alertou muito cedo para a explora\u00e7\u00e3o dos homens e para a urg\u00eancia ecol\u00f3gica; que nos apaziguou numa posi\u00e7\u00e3o de igualdade de g\u00e9nero; que relativizou a perda sem m\u00e1goa. Todos n\u00f3s, de certa forma, vimos em Fausto o nosso fauno que mostra o real para l\u00e1 da fantasia da floresta, com a voz doce e o dedilhado terno sobre harmonias complexas, como um trit\u00e3o subindo rios.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p>Todos n\u00f3s, de certa forma, vimos em Fausto o nosso fauno que mostra o real para l\u00e1 da fantasia da floresta, com a voz doce e o dedilhado terno sobre harmonias complexas, como um trit\u00e3o subindo rios.&nbsp;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Com o passar dos anos, o Fausto envelheceu e perdeu algumas das qualidades que lhe reconhec\u00edamos. Ouvimo-lo dizer coisas feias, cheias de rancor e preconceito. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil quando aqueles que admiramos v\u00e3o perdendo o s\u00edtio e nesse desvio arrastam o sonho de um mundo que partilh\u00e1mos. Zangamo-nos com eles e nem sempre conseguimos perdoar. Outras vezes esquecemos. Outras, ainda, relativizamos porque vemos que h\u00e1, em todo este processo, um efeito t\u00e3o violento do envelhecimento que somos for\u00e7ados a reconhecer que \u00e9 a lucidez que tamb\u00e9m est\u00e1 a desaparecer. Nada disto \u00e9 f\u00e1cil.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 pouco menos de dois anos, Fausto despediu-se dos palcos num concerto que n\u00e3o deixou ningu\u00e9m indiferente pela sua incapacidade de acompanhar as can\u00e7\u00f5es. Creio que todos os que ali foram estavam conscientes do que iriam encontrar. Mas o carinho pelo que Fausto representava para todos n\u00f3s fez esquecer os desvios e dislates que tanto nos entristeceram nos \u00faltimos anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Os artistas do nosso tempo s\u00e3o tamb\u00e9m respons\u00e1veis pela forma como entendemos o tempo e o espa\u00e7o. S\u00e3o som e imagem, personalidade em constru\u00e7\u00e3o e s\u00e3o mem\u00f3ria. Associamos a sua juventude \u00e0 nossa juventude. Associamos o seu rosto e a sua cria\u00e7\u00e3o \u00e0quela constru\u00e7\u00e3o da nossa personalidade. Quando os artistas perdem faculdades de forma t\u00e3o brutal nasce em n\u00f3s n\u00e3o apenas uma profunda tristeza, mas um choque de realidade, porque tamb\u00e9m n\u00f3s j\u00e1 n\u00e3o somos os mesmos. E, de certa forma, todos esperamos que nos compreendam a dificuldade em lidar com as transforma\u00e7\u00f5es e transi\u00e7\u00f5es, que se lembrem de n\u00f3s pelo contributo que demos para um mundo em que a paz, a justi\u00e7a, a igualdade, o amor e a solidariedade assumem um lugar essencial.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Pouco faltar\u00e1 para que todos perdoemos as coisas insignificantes. Quando olharmos para tr\u00e1s veremos esse homem misterioso que nasceu no mar e que nos embalou num sonho para nos voltar a acordar, para depois adormecer e acordar, uma e outra e outra vez, no movimento ondulante da Terra que habitamos juntos. Como um sonho lindo nunca acabado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando olharmos para tr\u00e1s veremos esse homem misterioso que nasceu no mar e que nos embalou num sonho para nos voltar a acordar, para depois adormecer e acordar, uma e outra e outra vez, no movimento ondulante da Terra que habitamos juntos. <\/p>\n","protected":false},"author":18,"featured_media":8149,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[48],"tags":[],"coauthors":[92],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8147"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/18"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8147"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8147\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8235,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8147\/revisions\/8235"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8149"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8147"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8147"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8147"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=8147"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}