{"id":8102,"date":"2024-06-12T12:21:24","date_gmt":"2024-06-12T12:21:24","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=8102"},"modified":"2024-07-10T15:53:28","modified_gmt":"2024-07-10T15:53:28","slug":"nao-ha-unicornios-gratis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2024\/06\/12\/nao-ha-unicornios-gratis\/","title":{"rendered":"N\u00e3o h\u00e1 unic\u00f3rnios gr\u00e1tis"},"content":{"rendered":"\n<p>A&nbsp;<em>f\u00e1brica de unic\u00f3rnios<\/em>&nbsp;nunca foi uma piada de mau gosto. Para quem desconhece o universo \u201cstartupeiro\u201d a refer\u00eancia do Moedas a estes seres fant\u00e1sticos poder\u00e1 ter parecido um del\u00edrio. Um esp\u00e9cie de Adamastor vers\u00e3o Ursinhos Carinhosos. Mas este epis\u00f3dio foi apenas a tradu\u00e7\u00e3o fantasm\u00e1tica da doutrina de choque produzida por um conjunto de pol\u00edticas urbanas de Lisboa no s\u00e9c. XXI. Estas caracterizam-se pela concilia\u00e7\u00e3o de um mundo de ludicidades, marketing e faz de conta com o desenvolvimento de economias gig, ind\u00fastrias do \u00f3cio, big techs e atra\u00e7\u00e3o de elites internacionais, num grande para repasto transnacional&nbsp;<em>a la<\/em>&nbsp;Vale do Sic\u00edlio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, o que tamb\u00e9m nunca se sentiu tanto em Lisboa \u00e9 que este Vale do Sil\u00edcio s\u00e9rie B est\u00e1 mais pr\u00f3ximo de um Vale do Supl\u00edcio. Em torno da desregula\u00e7\u00e3o do mar urbano, motivada pela cria\u00e7\u00e3o de ilhas do investimento e da especula\u00e7\u00e3o agressiva, uma mar\u00e9-alta de espoliados se levanta sobre a cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto aumenta em 25% a popula\u00e7\u00e3o sem-abrigo na regi\u00e3o de Lisboa neste ano, a press\u00e3o imobili\u00e1ria empurra in\u00fameros munic\u00edpios a despejos sucessivos sem garantir alternativa habitacional aos moradores. Em janeiro, foram despejadas oito fam\u00edlias que viviam na Charneca (Alta de Lisboa) sem terem uma alternativa consistente e digna. Em fevereiro na Rua 25 de Abril, em Corroios, cerca de 20 pessoas foram despejadas apenas com o apoio de um m\u00eas de renda e um m\u00eas de cau\u00e7\u00e3o da Seguran\u00e7a Social. Nos dois \u00faltimos meses, cerca de duas dezenas de fam\u00edlias viram as suas habita\u00e7\u00f5es demolidas sem aviso pr\u00e9vio nos bairros do Zambujal e Montemor em Loures. A mesma situa\u00e7\u00e3o de expuls\u00e3o sum\u00e1ria ocorreu com fam\u00edlias no Monte da Caparica em Almada, no Casal da Mira e no Casal de S\u00e3o Br\u00e1s na Amadora. Neste m\u00eas, no Bico do Mexilhoeiro (Barreiro), a C\u00e2mara Municipal n\u00e3o apenas destruiu 10 casebres de pesca, como tamb\u00e9m uma moradia. O mesmo acontece agora com o acampamento da Quinta dos Ingleses junto \u00e0 praia de Carcavelos, sem resposta adequada das respetivas c\u00e2maras. Esta \u00e9 apenas uma \u00ednfima parte de um problema estrutural que assola as periferias urbanas e, sobretudo, as popula\u00e7\u00f5es imigrantes e racializadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, Lisboa perde 3 mil casas na \u00faltima d\u00e9cada (invertendo o aumento de 34 mil casas entre 2001 e 2011) e o alojamento local ronda os 30% nas freguesias centrais. Surgem reflexos da aus\u00eancia de solu\u00e7\u00f5es para a varia\u00e7\u00e3o em alta do pre\u00e7o da habita\u00e7\u00e3o. Cresce a concentra\u00e7\u00e3o de pessoas nos acampamentos na Esta\u00e7\u00e3o do Oriente, em Santa Apol\u00f3nia, na Quinta do Loureiro, no Regueir\u00e3o dos Anjos e crescem tamb\u00e9m as estrat\u00e9gias de sobrelota\u00e7\u00e3o habitacional (belichiza\u00e7\u00e3o de c\u00f3modos, tapumes, cama quente, resid\u00eancia em estabelecimentos comerciais, etc). Segundo o relat\u00f3rio da Social Equity Iniciative de 2023, cerca de 20,5% da popula\u00e7\u00e3o pobre em Portugal vive em habita\u00e7\u00e3o sobrelotada. Um pouco por toda a parte a via p\u00fablica torna-se em moradia e a moradia torna-se num microbairro. E, no meio disto, cresce tamb\u00e9m a politiza\u00e7\u00e3o das solu\u00e7\u00f5es. Setenta migrantes ocupam uma Torre em Pa\u00e7o de Arcos, cujas obras estavam embargadas h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada e resistem a v\u00e1rias investidas policiais. O famigerado acampamento do Jardim Ant\u00f3nio Feij\u00f3 (Anjos), ao contr\u00e1rio do que as narrativas do coitadismo e da amea\u00e7a podem supor, torna-se hoje num espa\u00e7o da den\u00fancia imigrante da neglig\u00eancia do Estado portugu\u00eas com a popula\u00e7\u00e3o indocumentada.<\/p>\n\n\n\n<p>A direita portuguesa, perante a situa\u00e7\u00e3o, trabalha os b\u00edceps e veste o colete \u00e0 prova de balas. Apressa-se a cham\u00e1-la \u201cgentalha\u201d, \u201cclasse perigosa\u201d e acena com a Grande Substitui\u00e7\u00e3o. Mas a verdade \u00e9 que a cidade precisa dela como de p\u00e3o para a boca. A alimentar a fic\u00e7\u00e3o fofa desta \u201cNova Lisboa\u201d h\u00e1 um contingente brutal de for\u00e7a de trabalho que s\u00f3 pode existir, na \u00f3tica neoliberal, se precarizado, uberizado, terciarizado, flexibilizado e, no limite, escravizado. H\u00e1 um mundo a servir de bandeja \u00e0s elites internacionais que est\u00e3o a recrutadas, bem como os seus investimentos, atrav\u00e9s de sucessivas pol\u00edticas de excecionalidade &#8211; os&nbsp;<em>vistos gold<\/em>, o Regime dos Residentes N\u00e3o-Habituais, a Lei dos N\u00f3madas Digitais ou a Lei da Nacionalidade para Descendentes de Judeus Sefarditas. Mas se as elites globais s\u00e3o recebidas por um particular&nbsp;<em>Estado de gra\u00e7a<\/em>, os pobres s\u00e3o cada vez mais recebidos pelo&nbsp;<em>Estado penitenci\u00e1rio<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>A crise econ\u00f3mica de 2008 n\u00e3o foi suficiente para o arco governativo perceber que a desindustrializa\u00e7\u00e3o pura e dura era o abismo. Dos escombros da interven\u00e7\u00e3o da Troika nasce um conjunto de novas pol\u00edticas que tomam a \u00c1rea Metropolitana de Lisboa como o seu laborat\u00f3rio. Um conjunto alargado de pol\u00edticas gestadas durante a interven\u00e7\u00e3o da Troika foi o seu laborat\u00f3rio. Estas passam por pol\u00edticas de flexibiliza\u00e7\u00e3o (como o Novo Regime do Arrendamento Urbano e o Empresa na Hora) por pol\u00edticas de inadvert\u00eancia programada (como a inoper\u00e2ncia perante a expans\u00e3o do alojamento local, o colapso dos servi\u00e7os de regulariza\u00e7\u00e3o migrat\u00f3ria ou a pol\u00edtica de baixo sal\u00e1rio) e por pol\u00edticas de excecionalidade destinadas a atrair elites internacionais (os&nbsp;<em>vistos gold<\/em>, o Regime dos Residentes N\u00e3o-Habituais, a Lei dos N\u00f3madas Digitais ou a Lei da Nacionalidade para Descendentes de Judeus Sefarditas).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nunca em Lisboa se sentiu tanto: vivemos hoje entrincheirados numa longa-metragem de fic\u00e7\u00e3o p\u00f3s-industrial.<\/p>\n","protected":false},"author":128,"featured_media":8103,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[50],"tags":[],"coauthors":[225],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8102"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/128"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8102"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8102\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8244,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8102\/revisions\/8244"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8103"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8102"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8102"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8102"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=8102"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}