{"id":8023,"date":"2024-05-03T13:15:08","date_gmt":"2024-05-03T13:15:08","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=8023"},"modified":"2024-05-03T13:15:11","modified_gmt":"2024-05-03T13:15:11","slug":"ines-vai-morrer-e-a-luta-de-uma-mae-coragem-pela-liberdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2024\/05\/03\/ines-vai-morrer-e-a-luta-de-uma-mae-coragem-pela-liberdade\/","title":{"rendered":"\u201cIn\u00eas vai morrer\u201d, e a luta\u00a0de uma m\u00e3e-coragem pela liberdade"},"content":{"rendered":"\n<p>Nos 50 anos do 25 de Abril e na luta constante e necess\u00e1ria pelos valores da liberdade, fraternidade e igualdade, vale a pena tentar encontrar e rever o filme \u201cIn\u00eas vai morrer\u201d, de 1976, realizado por Giuliano Montaldo. Adapta\u00e7\u00e3o de um dos mais importantes livros do neo-realismo italiano, \u201cIn\u00eas vai morrer\u201d \u00e9 uma obra de resist\u00eancia, que coloca no centro a for\u00e7a de uma mulher na luta contra a invas\u00e3o alem\u00e3.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Agnese (nome traduzido por In\u00eas, em l\u00edngua portuguesa) \u00e9 uma lavadeira analfabeta, mulher do povo, que vive com Palita, o marido doente. A mulher de meia-idade, extraordinariamente interpretada pela actriz Ingrid Thulin (que conhecemos de tantos filmes de Ingmar Bergman), n\u00e3o fica indiferente ao fugitivo que aparece quando est\u00e1 a trabalhar junto ao rio. Avisa o marido, que lhe pede que traga o guerrilheiro para casa. Isto acontece sob o olhar da fam\u00edlia vizinha, que acaba por denunciar o casal. Palita, militante do Partido Comunista, \u00e9 levado pelos fascistas. N\u00e3o durar\u00e1 muito tempo. Agnese sabe-o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Agnese n\u00e3o tem mais ningu\u00e9m. Esta injusti\u00e7a desencadeia a sua revolta; come\u00e7a as suas ac\u00e7\u00f5es de resist\u00eancia. Torna-se intermedi\u00e1ria do partido na luta pela liberdade. Faz quil\u00f3metros pelos campos ao volante da sua bicicleta; visita os que est\u00e3o escondidos em ru\u00ednas e abrigos, vivendo na clandestinidade. Entrega-lhes comida, conversa com eles, e vai-se apercebendo de um cen\u00e1rio sobre o qual o marido nunca lhe tinha falado (provavelmente para a proteger). Entretanto, Ciro, um rapaz preso com o Palita, consegue evadir-se. Vai ter com Agnese, e confirma a morte do seu marido. Ciro n\u00e3o se lembrar da aldeia onde ficou o corpo de Palita. A dor silenciosa de Agnese aumenta: \u00e9 proporcional ao seu voluntarismo para com todos os que tentam combater a invas\u00e3o alem\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>A m\u00e3e-coragem na resist\u00eancia contra\u00a0o fascismo<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>A trai\u00e7\u00e3o dos vizinhos intensifica-se. Recebem soldados nazis em casa, que matam por maldade o gato de Agnese. A raiva e a viol\u00eancia tomam conta da protagonista, e o inimigo acaba por incendiar da sua casa. Agnese junta-se \u00e0 vida n\u00f3mada dos homens da resist\u00eancia. A sua vida passa a confundir-se na \u00edntegra com aquilo que os outros precisam e lhe pedem. Agnese \u00e9 a \u00fanica mulher entre estes homens de v\u00e1rias idades. Todos gostam e precisam dela; tratam-na por&nbsp;<em>Mama<\/em>. A certa altura, um jovem, Tom, recebe a namorada, a quem assassinaram irm\u00e3o e pai. Agnese toma conta da rapariga, mas esta acaba por colapsar e partir; n\u00e3o aguenta a luta anti-fascista. A uni\u00e3o entre os&nbsp;<em>partigiani<\/em>&nbsp;nunca colapsa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As condi\u00e7\u00f5es agravam-se: falta comida, os alem\u00e3es atacam como podem. Os guerrilheiros resistem como podem, longe de casa e sem saber o que o futuro pr\u00f3ximo ou long\u00ednquo lhes reservar\u00e1. A luta pela liberdade \u00e9 o que os move a continuar, sempre que um abrigo \u00e9 incendiado, ou quando a casa onde est\u00e3o \u00e9 inundada pela cheia provocada pelo inimigo. Existe o comandante, que esteve na frente russa, a quem todos ouvem, e que confia sobretudo em Agnese.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Agnese torna-se no centro da resist\u00eancia; uma m\u00e3e-coragem que d\u00e1 cama, comida e alento \u00e0queles homens. Isto \u00e9 evidente na visita \u00e0 casa alagada onde est\u00e3o: a sua presen\u00e7a f\u00e1-los recuperar o \u00e2nimo. Entre os guerrilheiros, h\u00e1 quem enlouque\u00e7a, quem morra numa emboscada, quem seja trucidado por minas pessoais. Como diz Agnese, sempre que um de n\u00f3s desaparece, aparecer\u00e1 outro no seu lugar. Nenhum deles acredita no fim da resist\u00eancia, porque a liberdade tem de ser conquistada, mesmo que isso custe a vida. A protagonista sabe-o desde o in\u00edcio. Num posto de vigia, quando Agnese se encaminha para uma nova miss\u00e3o, um comandante alem\u00e3o reconhece-a &#8211; trata-a por&nbsp;<em>Mama<\/em>. Depois, ficamos com seu corpo perdido na aridez da paisagem de um pa\u00eds aprisionado. Agnese permanecer\u00e1 como s\u00edmbolo maior da resist\u00eancia corajosa de uma mulher contra o fascismo, na luta pela liberdade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos 50 anos do 25 de Abril e na luta constante e necess\u00e1ria pelos valores da liberdade, fraternidade e igualdade, vale a pena tentar encontrar e rever o filme \u201cIn\u00eas vai morrer\u201d, de 1976, realizado por Giuliano Montaldo. 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