{"id":8019,"date":"2024-05-03T13:12:09","date_gmt":"2024-05-03T13:12:09","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=8019"},"modified":"2024-06-12T12:30:20","modified_gmt":"2024-06-12T12:30:20","slug":"sabreen-resistiu-mas-morreu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2024\/05\/03\/sabreen-resistiu-mas-morreu\/","title":{"rendered":"Sabreen resistiu,\u00a0mas morreu"},"content":{"rendered":"\n<p>Sabreen tinha apenas 30 semanas quando os m\u00e9dicos a resgataram do \u00fatero da progenitora, que agonizava com ferimentos graves na cabe\u00e7a e no est\u00f4mago. Sabreen, nome dado pelo tio que agora a sepultou junto ao pai e irm\u00e3, assassinados pelas bombas de Israel em sua pr\u00f3pria casa, foi apresentada ao mundo como uma prova de que, todavia, persiste uma nesga de possibilidade de sobreviv\u00eancia no terreiro em cinzas e chamas em que os sionista transformaram a Faixa de Gaza. Mas n\u00e3o existe neste momento e isso \u00e9 um crime que urge travar e impedir que fique impune.<\/p>\n\n\n\n<p>Sabreen resistiu ao ataque desmedido. Os m\u00e9dicos tentaram desesperadamente que adquirisse condi\u00e7\u00f5es para medrar, o que, dada a evolu\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia e da t\u00e9cnica cl\u00ednicas, n\u00e3o \u00e9 um milagre para um prematuro de 30 semanas no s\u00e9culo XXI. Mas o que Israel est\u00e1 a fazer na Faixa de Gaza \u00e9 precisamente impossibilitar a vida. E mesmo que Sabreen tivesse sobrevivido por mais umas semanas ou meses, que vida pode singrar num territ\u00f3rio exangue, onde n\u00e3o h\u00e1 abrigo, \u00e1gua pot\u00e1vel e outras infraestruturas b\u00e1sicas, alimentos, assist\u00eancia m\u00e9dica e medicamentosa que n\u00e3o seja a que se exerce num contexto muito para l\u00e1 do limite da razoabilidade, onde cada minuto pode ser o \u00faltimo antes de ser varado por balas ou despeda\u00e7ado por um m\u00edssil?<\/p>\n\n\n\n<p>Em Rafah, onde Sabreen nasceu, est\u00e3o concentrados cerca de 1,5 milh\u00f5es de palestinianos de um total de 2,4 milh\u00f5es de habitantes da Faixa de Gaza. Um milh\u00e3o dos que se encontram amontoados na cidade e arredores, junto \u00e0 fronteira com o Egipto, s\u00e3o deslocados de guerra oriundos do Norte e Centro do territ\u00f3rio, completamente arrasado. Rafah encontra-se sob amea\u00e7a de uma invas\u00e3o terrestre israelita, destinada a terraplanar o pouco que subsiste. Ser\u00e1 um dos \u00faltimos epis\u00f3dios da condena\u00e7\u00e3o que Israel ditou para os palestinianos: liquidar os que resistem, subjugar os que restarem num territ\u00f3rio anexado e reconstru\u00eddo para colonos. A not\u00edcia de que estar\u00e3o a ser montadas, ao lado de um cemit\u00e9rio, em Khan Yunis, as primeiras tendas de campanha de uma encomenda total israelita de 40 mil, \u00e9 uma met\u00e1fora t\u00e9trica do prolongamento da trag\u00e9dia dos \u00faltimos seis meses. Aos palestinianos que n\u00e3o ficarem sob as lonas brancas na sequ\u00eancia da ofensiva sobre Rafah, resta-lhes o sepulcro das l\u00e1pides alvas ou terra clara semides\u00e9rtica no espa\u00e7o f\u00fanebre , ali, paredes meias.<\/p>\n\n\n\n<p>A Faixa de Gaza \u00e9 hoje um gigantesco cemit\u00e9rio que ningu\u00e9m a quem resta um pingo de humanidade pode ignorar: consumado para os que j\u00e1 morreram e para os que sucumbem diariamente \u00e0 brutalidade sionista; em projecto para os que ainda ousam respirar. Calcula-se que desde o in\u00edcio de Outubro, ter\u00e3o sido assassinados mais de 42 mil palestinianos pelo ex\u00e9rcito de Telavive. A esmagadora maioria (90%) s\u00e3o civis. Mais de 60% s\u00e3o mulheres e crian\u00e7as \u2013 cerca de 10 mil e quase 16 mil, respectivamente. Mais de 76 mil habitantes da Faixa de Gaza s\u00e3o dados como desaparecidos, provavelmente soterrados nos escombros dos pr\u00e9dios destru\u00eddos ou atirados para valas comuns, como as descobertas por estes dias noa hospitais Al-Shifa e Nasser, bombardeados e invadiso pelas tropas de Israel.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fazer triunfar a vida sobre&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>a barb\u00e1rie<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A secret\u00e1ria-geral da Amnistia Internacional, insuspeita de simpatias para com o Hamas, n\u00e3o poupa nas palavras e considera que a ofensiva israelita na Faixa de Gaza \u00abrasgou em peda\u00e7os\u00bb as li\u00e7\u00f5es do Holocausto. Dando conta do conte\u00fado do relat\u00f3rio anual da organiza\u00e7\u00e3o, Agn\u00e8s Callamard acusa Israel de \u00abuma campanha de bombardeamentos deliberados e indiscriminados contra civis e infraestruturas civis, de nega\u00e7\u00e3o de assist\u00eancia humanit\u00e1ria e de fome planeada\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p>Os princ\u00edpios consagrados na Carta das Na\u00e7\u00f5es Unidas, nas Conven\u00e7\u00f5es de Genebra, na Conven\u00e7\u00e3o sobre o Genoc\u00eddio e no direito internacional dos direitos humanos \u00abforam desonrados\u00bb, afirmou ainda Agn\u00e8s Callamard, que tamb\u00e9m n\u00e3o isentou EUA e UE, atribuindo-lhes responsabilidades pelo que est\u00e1 a acontecer, designadamente ao continuarem a \u00abenviar armas para Israel\u00bb, ao recusarem \u00abdenunciar as viola\u00e7\u00f5es implac\u00e1veis\u00bb e rejeitarem \u00abos apelos para um cessar-fogo\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p>Os cerca de 1,1 milh\u00f5es de palestinianos em \u00absitua\u00e7\u00e3o de fome catastr\u00f3fica\u00bb, o \u00abn\u00famero mais elevado alguma vez registado\u00bb, segundo a ONU; os cerca de 250 trabalhadores humanit\u00e1rios mortos desde Outubro, entre os quais 180 funcion\u00e1rios da ag\u00eancia da ONU para os refugiados palestinianos (UNRWA, e as mais de 150 instala\u00e7\u00f5es desta destru\u00eddas na Faixa de Gaza; os volunt\u00e1rios da ONG World Central Kitchen liquidados por um m\u00edssil israelita quando tentavam entregar ajuda humanit\u00e1ria ao povo de Gaza e os alimentos e \u00e1gua que chegam a conta-gotas e em quantidade muit\u00edssimo insuficiente; a suspens\u00e3o da contribui\u00e7\u00e3o norte-americana \u00e0 UNRWA at\u00e9 Mar\u00e7o de 2025 e a aprova\u00e7\u00e3o recente pela C\u00e2mara dos Representantes de um novo pacote de ajuda militar a Israel no valor de 12,2 mil milh\u00f5es de euros; o veto dos EUA \u00e0 integra\u00e7\u00e3o da Palestina como Estado-membro de pleno direito na ONU, atestam que a campanha israelita na Faixa de Gaza, apoiada por uma pot\u00eancia mundial decadente e anquilosada, \u00e9 um genoc\u00eddio.<\/p>\n\n\n\n<p>Por estes dias, nos EUA e na Europa, apesar das deten\u00e7\u00f5es e do desmantelamento de acampamentos de protesto por parte das autoridades policiais, milhares de jovens em dezenas de universidades exigem que Israel seja sujeito a um boicote internacional que obrigue a um cessar-fogo. Nos \u00faltimos meses, milh\u00f5es de pessoas em todo o mundo t\u00eam sa\u00eddo \u00e0 rua pelo fim da guerra insana, contra a impunidade e pelos direitos do povo palestiniano a viver em paz na sua terra. Este movimento n\u00e3o foi a tempo de garantir que Sabreen tivesse hip\u00f3tese de viver, depois de ter escapado \u00e0 morte certa no \u00fatero est\u00e9ril de vida da sua m\u00e3e. A vida de Sabreen n\u00e3o teve condi\u00e7\u00f5es para vingar, mas a inviabiliza\u00e7\u00e3o propositada da sobreviv\u00eancia dos palestinianos n\u00e3o pode triunfar. S\u00f3 os povos podem impedir a barb\u00e1rie que aniquila qualquer esperan\u00e7a e mesmo a mais instintiva resist\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Morreu Sabreen al-Ruh, a beb\u00e9 prematura retirada do ventre da m\u00e3e moribunda ap\u00f3s um bombardeamento israelita contra um bairro em Rafah, no sul da Faixa de Gaza. <\/p>\n","protected":false},"author":118,"featured_media":8020,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[47],"tags":[],"coauthors":[215],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8019"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/118"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8019"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8019\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8112,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8019\/revisions\/8112"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8020"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8019"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8019"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8019"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=8019"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}