{"id":7994,"date":"2024-05-03T10:09:57","date_gmt":"2024-05-03T10:09:57","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=7994"},"modified":"2024-06-05T13:30:29","modified_gmt":"2024-06-05T13:30:29","slug":"a-heranca-de-abril-nas-lutas-de-hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2024\/05\/03\/a-heranca-de-abril-nas-lutas-de-hoje\/","title":{"rendered":"A heran\u00e7a de Abril\u00a0nas lutas de hoje"},"content":{"rendered":"\n<p>Meio s\u00e9culo depois, a narrativa hegem\u00f3nica tenta assentar a ideia de democracia exclusivamente na express\u00e3o eleitoral peri\u00f3dica, excluindo a participa\u00e7\u00e3o popular da constru\u00e7\u00e3o ativa de um pa\u00eds melhor, mas todos os dias mulheres e homens contribuem de forma volunt\u00e1ria, integrados num tecido associativo amplo, plural, criativo e enraizado nas nossas vidas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 o caso do Porta a Porta, movimento em defesa do direito \u00e0 habita\u00e7\u00e3o, que tem sido presen\u00e7a ass\u00eddua nos protestos que t\u00eam enchido as ruas para exigir&nbsp;<em>casa para todos<\/em>. Em conversa com A Voz do Oper\u00e1rio, Andr\u00e9 Escoval, um dos membros, sublinha que \u201ca novidade do surgimento do Porta a Porta, a sua abrang\u00eancia nacional, a const\u00e2ncia e regularidade do seu trabalho, tem a ver com o facto de ter as suas fileiras formadas maioritariamente por jovens adultos\u201d, mas tamb\u00e9m\u201ca tenacidade e convic\u00e7\u00e3o com que, simultaneamente, ora apresenta propostas, ora luta nas ruas por elas\u201d. Nesse sentido, considera que s\u00e3o estes elementos que tornam este movimento \u201cuma for\u00e7a viva, um instrumento popular para desenvolver a luta\u201d por um problema que, como refere, \u00e9 \u201cvelho demais\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m h\u00e1 pouco tempo, surgiu o movimento Vida Justa, empenhado em organizar a luta das popula\u00e7\u00f5es dos bairros perif\u00e9ricos. Para Nuno Ramos de Almeida, um dos seus ativistas, a ideia do Vida Justa n\u00e3o se centra nas idades, mas na quest\u00e3o da classe social, racismo e invisibilidade dos habitantes dos territ\u00f3rios populares. \u201cO que pretende o Vida Justa \u00e9 ser um movimento pol\u00edtico dos bairros para que os trabalhadores que l\u00e1 vivem acedam \u00e0 capacidade de mandar no seu destino. Se os pobres s\u00e3o a maioria, eles devem governar\u201d, defende. \u201cO Vida Justa articula-se em torno dessa reivindica\u00e7\u00e3o de poder e de quest\u00f5es concretas: aumento dos sal\u00e1rios, controlo dos pre\u00e7os, habita\u00e7\u00e3o para todos, transportes p\u00fablicos nos territ\u00f3rios populares e lutar contra a viol\u00eancia policial\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso da recrea\u00e7\u00e3o e do desporto popular, surgiu em Lisboa a Associa\u00e7\u00e3o Desportiva e Recreativa \u201cO Rel\u00e2mpago\u201d. Inaugurado justamente a 1 de maio, tratou-se do culminar de um processo associativo que j\u00e1 vinha a borbulhar na cidade desde 2019 e a que presidia a ideia de proporcionar o desporto, o recreio e a solidariedade para as classes populares. Nesse sentido, Ricardo Gomes, um dos seus dirigentes, considera que o Rel\u00e2mpago \u00e9 uma associa\u00e7\u00e3o \u201cque trouxe uma nova linfa no movimento das coletividades desportivas e culturais recuperando aquele esp\u00edrito coletivo de antigamente\u201d, mas ressalva que, sem saudosismos, \u201cadequado aos tempos de hoje, onde acreditamos que fundamental deve ser o nosso papel no est\u00edmulo a din\u00e2micas comunit\u00e1rias\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora n\u00e3o seja uma associa\u00e7\u00e3o t\u00e3o recente, a Associa\u00e7\u00e3o de Bolseiros de Investiga\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica (ABIC) foi exemplo na capacidade de conseguir congregar uma camada jovem prec\u00e1ria em torno de um problema concreto. Como explicou Sofia Lisboa, a sua vice-presidente, surgiu h\u00e1 duas d\u00e9cadas com o objetivo de dinamizar e congregar esfor\u00e7os para alterar o panorama sociopol\u00edtico atual no que diz respeito ao estatuto do Bolseiro de Investiga\u00e7\u00e3o, contribuindo para o reconhecimento e dignifica\u00e7\u00e3o dos profissionais que exercem investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e gest\u00e3o de ci\u00eancia em Portugal enquanto bolseiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro caso n\u00e3o t\u00e3o recente mas que representa uma realidade bem atual \u00e9 o do Manifesto em Defesa da Cultura. De acordo com Tiago Santos, \u00e9 uma plataforma que se caracteriza sobretudo pela introdu\u00e7\u00e3o do elemento pol\u00edtico na luta da cultura, \u201cna maioria das vezes marcada por reivindica\u00e7\u00f5es setoriais e econ\u00f3micas ao longo dos anos\u201d. Nesse sentido, luta \u201cpelo cumprimento da Constitui\u00e7\u00e3o nomeadamente no seu direito fundamental \u00e0 cultura e no reconhecimento da titularidade desse direito no povo. O Manifesto v\u00ea-se para l\u00e1 de um movimento de defesa dos trabalhadores da Cultura, antes um movimento que luta pelo direito de todos \u00e0 cria\u00e7\u00e3o e frui\u00e7\u00e3o culturais. A luta do Manifesto procura, sobretudo, a unidade de todos os trabalhadores e popula\u00e7\u00f5es com os trabalhadores e artistas, na luta pelo direito de todos \u00e0 cultura\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Herdeiros de Abril<\/h2>\n\n\n\n<p>Embora existam h\u00e1 relativamente pouco tempo ou intervenham em novas realidades, insistem que n\u00e3o est\u00e3o desligados do tecido associativo existente e que s\u00e3o herdeiros de lutas passadas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO Porta a Porta ancora toda a sua a\u00e7\u00e3o nos valores da revolu\u00e7\u00e3o de Abril e na Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica. Dizemos continuamente que o Artigo 65\u00ba da Constitui\u00e7\u00e3o, aquele que consagra o Direito \u00e0 Habita\u00e7\u00e3o, \u00e9 para cumprir\u201d, explica Andr\u00e9 Escoval. \u201c\u00c9 neste sentido que o Porta a Porta na sua a\u00e7\u00e3o d\u00e1 continuidade \u00e0 luta de um povo que dura h\u00e1 50 anos e vai continuar. Sempre que o povo deitou m\u00e3os \u00e0 obra construiu, resistiu, avan\u00e7ou, \u00e9 isso que continuamos a fazer\u201d.<br>Por sua vez, Nuno Ramos de Almeida recorda que o Vida Justa se inscreve nas experi\u00eancias pol\u00edticas anteriores nos bairros, como a Plataforma Gueto, \u201ce junta aos militantes dos bairros, outros militantes com experi\u00eancia em anteriores movimentos sociais, como o Que se Lixe a Troika e outros\u201d. Acrescenta ainda que a sua funda\u00e7\u00e3o se d\u00e1 numa iniciativa na Cova da Moura, em outubro de 2022, e que rapidamente se alargou em n\u00famero de ativistas e bairros.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, Ricardo Gomes lembra que um dos objetivos do Rel\u00e2mpago \u00e9 recuperar o papel das coletividades e o seu protagonismo nas suas comunidades utilizando o desporto e o desenvolvimento comunit\u00e1rio como \u201cferramenta de processos de mudan\u00e7a\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m no campo do trabalho em ci\u00eancia, explica Sofia Lisboa, h\u00e1 uma luta hist\u00f3rica pela democratiza\u00e7\u00e3o do ensino e da ci\u00eancia e recorda essas reivindica\u00e7\u00f5es durante o regime fascista pelo acesso ao conhecimento quando eram as elites no poder que monopolizavam a aquisi\u00e7\u00e3o de forma\u00e7\u00e3o. \u201cMais do que ensinar o povo a ler, era preciso criar uma elite com acesso ao ensino superior e aos laborat\u00f3rios do Estado. A ci\u00eancia n\u00e3o era uma quest\u00e3o democr\u00e1tica\u201d, sublinha.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, a revolu\u00e7\u00e3o de Abril continua a ser uma refer\u00eancia. Andr\u00e9 Escoval salienta que o 25 de Abril \u00e9 \u201cmuito mais futuro do que passado\u201d e que aquilo que se construiu em meses \u201cresiste h\u00e1 d\u00e9cadas\u201d. Este membro do Porta a Porta continua a olhar para a Constitui\u00e7\u00e3o e a encontrar nela \u201ca for\u00e7a de um projeto avan\u00e7ado, justo e forte que muito tem para cumprir\u201d. E d\u00e1 o exemplo do campo em que interv\u00e9m: a habita\u00e7\u00e3o. \u201cEstamos hoje melhor na habita\u00e7\u00e3o fruto da revolu\u00e7\u00e3o, mas isso n\u00e3o \u00e9 um ponto de chegada, precisamos de ir muito mais longe e garantir que todos t\u00eam direito, para si e para a sua fam\u00edlia, a uma habita\u00e7\u00e3o de dimens\u00e3o adequada, em condi\u00e7\u00f5es de higiene e conforto e que preserve a intimidade pessoal e a privacidade familiar\u201d, refere citando a Constitui\u00e7\u00e3o. \u201cE n\u00f3s acrescentamos, na atualidade, a pre\u00e7os que se possam pagar, que n\u00e3o hipotequem o resto da vida de cada um de n\u00f3s, acrescentamos ainda que \u00e9 fundamental alargar a dura\u00e7\u00e3o dos contratos de arrendamento e acabar com o flagelo dos despejos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Nuno Ramos de Almeida cita o cartaz do Vida Justa \u2014 \u201c25 de Abril de novo s\u00f3 com a for\u00e7a dos bairros\u201d \u2014 e acrescenta que \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o que pretende dizer que \u201ch\u00e1 50 anos a revolu\u00e7\u00e3o ficou incompleta. A contra-revolu\u00e7\u00e3o impediu que a revolu\u00e7\u00e3o desse mais igualdade \u00e0s popula\u00e7\u00f5es trabalhadoras e aos habitantes dos bairros\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas tamb\u00e9m no desporto h\u00e1 lugar para recordar a heran\u00e7a da revolu\u00e7\u00e3o. Segundo Ricardo Gomes, para o Rel\u00e2mpago, o 25 de Abril \u00e9 uma refer\u00eancia. \u201cEm todas as nossas lutas, o antifascismo, antirracismo, o desporto para todos, as lutas contra todas as formas de discrimina\u00e7\u00e3o, justi\u00e7a social e vida digna para todos nunca devem ficar como uma lembran\u00e7a do passado. O 25 de Abril \u00e9 um processo cont\u00ednuo e ainda n\u00e3o completamente realizado. Foram feitos gigantescos passos para frente mas n\u00e3o \u00e9 desculpa para nos acomodarmos. H\u00e1 muito para fazer e n\u00f3s queremos ser protagonistas ativos dessas mudan\u00e7as\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste contexto, tamb\u00e9m Tiago Santos, do Manifesto em Defesa da Cultura reclama a heran\u00e7a da luta contra a ditadura e da revolu\u00e7\u00e3o de Abril explicando que vem na linha do pensamento de Bento Jesus Cara\u00e7a e da ideia da cultural integral do indiv\u00edduo, recordando tamb\u00e9m o papel do escritor e ensa\u00edsta Manuel Gusm\u00e3o. \u201cO projeto do 25 de Abril \u00e9 uma inspira\u00e7\u00e3o fundamental para o Manifesto. Quer seja nos princ\u00edpios fundamentais do Manifesto, desde logo a unidade na luta com todos os trabalhadores, a luta de massas e a\u00e7\u00f5es de rua, a clareza de princ\u00edpios e de a\u00e7\u00e3o e a converg\u00eancia com as for\u00e7as progressistas e democr\u00e1ticas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em diferentes realidades e setores da sociedade, s\u00e3o mulheres e homens que d\u00e3o corpo \u00e0 ideia da participa\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica numa linha de continuidade com um passado de luta que pode diferir nos objetivos concretos e at\u00e9 nas linhas de a\u00e7\u00e3o, mas que faz parte de uma constru\u00e7\u00e3o coletiva interdependente. De costas voltadas para o individualismo e para a apatia, n\u00e3o vivem a vida de olhos postos no umbigo. Vivem de bra\u00e7o dado com o outro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como se se tratasse de um organismo vivo, os movimentos sociais nascem de necessidades concretas de realidades vividas por todos n\u00f3s. 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