{"id":7990,"date":"2024-05-03T10:07:36","date_gmt":"2024-05-03T10:07:36","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=7990"},"modified":"2024-06-12T12:27:19","modified_gmt":"2024-06-12T12:27:19","slug":"os-primeiros-a-morrer-na-pide-nao-esquecemos-manuel-tome","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2024\/05\/03\/os-primeiros-a-morrer-na-pide-nao-esquecemos-manuel-tome\/","title":{"rendered":"Os primeiros a morrer na PIDE: n\u00e3o esquecemos Manuel Tom\u00e9"},"content":{"rendered":"\n<p>Aconteceu, fez agora 90 anos, na noite de 23 de Abril de 1934.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu nome era Manuel Vieira Tom\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">V\u00edtimas de tortura<\/p>\n\n\n\n<p>Dois anos depois, o ent\u00e3o secret\u00e1rio-geral do PCP, Bento Gon\u00e7alves, estava encarcerado no forte de Angra do Hero\u00edsmo. Foi ali que escreveu a sua contesta\u00e7\u00e3o ao tribunal militar que o condenaria como preso pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>Bento aproveitou esse documento para evocar v\u00e1rios opositores torturados pela \u00abPIDE\u00bb. E foi com esta frase que come\u00e7ou:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEntre o cortejo de v\u00edtimas da Ditadura fascista eu recordo aqui: Manuel Vieira Tom\u00e9, velho militante sindical, ferrovi\u00e1rio, preso em 1934 e espancado t\u00e3o barbaramente durante 12 dias de incomunicabilidade, ap\u00f3s o que pereceu, \u00abenforcado\u00bb no segredo do Aljube\u201d [<em>O Militante<\/em>, Fevereiro 1971, p.4].<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo os registos policiais, Manuel Tom\u00e9 nem esteve tantos dias nas m\u00e3os da \u00abPIDE\u00bb: foi preso a 16 de abril e morreu a 23 [Arquivo PIDE\/DGS, cadastro pol\u00edtico n\u00ba1879].<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Bento Gon\u00e7alves nunca teria possibilidade de consultar esses registos. Morreu no campo de concentra\u00e7\u00e3o do Tarrafal, seis anos depois\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Relat\u00f3rio de aut\u00f3psia<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00abSocorro Vermelho\u00bb era uma organiza\u00e7\u00e3o clandestina, ligada ao PCP, que se dedicava a apoiar os presos pol\u00edticos e suas fam\u00edlias. Por outro lado, procurava denunciar a repress\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Perante a morte de Manuel Tom\u00e9, a m\u00e1quina de propaganda do regime entrou em a\u00e7\u00e3o. A not\u00edcia foi que ele se tinha suicidado na pris\u00e3o do Aljube, enforcando-se.<\/p>\n\n\n\n<p>E foi isso que a \u00abPIDE\u00bb registou no respetivo \u201ccadastro pol\u00edtico\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o \u00abSocorro Vermelho\u00bb conseguiu ter acesso ao relat\u00f3rio m\u00e9dico de aut\u00f3psia. E denunciou o homic\u00eddio.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dirigente do Socorro Vermelho \u00e0 \u00e9poca, Vasco de Carvalho, contaria mais tarde: \u201cpelo relat\u00f3rio da aut\u00f3psia obtivemos a prova de que [Manuel Tom\u00e9] fora torturado: os vincos que apresentava no pesco\u00e7o indicavam que o instrumento que o estrangulara estava perpendicular \u00e0 coluna vertebral. Ora quando uma pessoa se enforca, os vincos s\u00e3o inclinados em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 coluna vertebral. Portanto ele fora estrangulado na Pol\u00edcia\u201d [<em>P\u00fablic<\/em>o, 02.05.2004, p.16].<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Sindicalismo<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, al\u00e9m de ter sido v\u00edtima da repress\u00e3o, quem foi Manuel Tom\u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p>Ribatejano, salientou-se como dirigente do sindicato do pessoal da CP entre 1918 e 1920. Foi um per\u00edodo de profunda crise social, exponenciada pela 1\u00aa Guerra Mundial.<\/p>\n\n\n\n<p>Travaram-se duras greves de trabalhadores ferrovi\u00e1rios. Sobretudo pela recupera\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rios dizimados pela infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Portugal conheceu ent\u00e3o a ditadura de Sid\u00f3nio Pais. Quando este foi assassinado, a fac\u00e7\u00e3o mon\u00e1rquica do seu regime lan\u00e7ou o pa\u00eds numa guerra civil que culminou na restaura\u00e7\u00e3o da 1\u00aa Rep\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m das lutas laborais, Manuel Tom\u00e9 participou nessa altura numa a\u00e7\u00e3o de solidariedade com a Revolu\u00e7\u00e3o Russa. E apoiou a luta armada em defesa da Rep\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Ditadura Militar<\/p>\n\n\n\n<p>Manuel Tom\u00e9 voltou a salientar-se como sindicalista sob a ditadura militar. Depois de j\u00e1 ter sido preso pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1929 e 1930, foi um dos dinamizadores de tr\u00eas iniciativas que procuraram defender a unidade e a exist\u00eancia legal do movimento sindical. Quando este estava enfraquecido pelas suas divis\u00f5es internas e pela repress\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira dessas iniciativas surgiu em resposta a uma ilegalidade da C\u00e2mara Municipal de Lisboa. Esta pretendeu cobrar aos sindicatos, pelas suas sedes, o mesmo alvar\u00e1 que cobrava a espa\u00e7os comerciais como hot\u00e9is, restaurantes e casas de espect\u00e1culo.<\/p>\n\n\n\n<p>Manuel Tom\u00e9 integrou uma \u201ccomiss\u00e3o delegada\u201d que conseguiu travar essa medida, reunindo o apoio de 31 sindicatos.<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda iniciativa foi uma \u201cComiss\u00e3o Pr\u00f3-defesa da Lei de Desastres no Trabalho\u201d. Contou com a ades\u00e3o de 44 sindicatos.<\/p>\n\n\n\n<p>Seguiu-se a cria\u00e7\u00e3o de uma nova \u00abFedera\u00e7\u00e3o Nacional dos Trabalhadores dos Transportes e Comunica\u00e7\u00f5es\u00bb. Manuel Tom\u00e9 foi um dos seus principais fundadores.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois, voltou a ser preso pol\u00edtico e ainda foi presidente do sindicato dos empregados de escrit\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>E tamb\u00e9m foi presidente da cooperativa Caixa Econ\u00f3mica Oper\u00e1ria, aqui na rua d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Fascismo<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1933, a ditadura militar transformou-se num regime de tipo fascista. E decretou a dissolu\u00e7\u00e3o for\u00e7ada dos sindicatos livres.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi para resistir a isso que se tentou uma greve geral no dia 18 de janeiro de 1934. Movimento em que Manuel Tom\u00e9 participou, numa a\u00e7\u00e3o de sabotagem para parar a circula\u00e7\u00e3o de comboios \u00e0s portas de Lisboa, na linha do Norte.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m fez parte de um grupo clandestino, ligado ao oficial republicano Sarmento Beires, o qual procurou organizar um levantamento armado para derrubar a ditadura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">A Voz do Oper\u00e1rio<\/p>\n\n\n\n<p>Embora manietado pela censura, naquele ano de 1934, o jornal A Voz do Oper\u00e1rio n\u00e3o deixou de prestar homenagem a este seu vizinho, referido assim a sua morte:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cH\u00e1 not\u00edcias que pela brutalidade nos chocam profundamente. Foi o que nos aconteceu quando no dia 26 de Abril nos deram a dolorosa not\u00edcia de que Manuel Vieira Tom\u00e9 j\u00e1 n\u00e3o pertencia ao n\u00famero dos vivos.<\/p>\n\n\n\n<p>Esp\u00edrito culto, elemento ativo na organiza\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria, n\u00e3o nos permite a como\u00e7\u00e3o neste momento que rendamos \u00e0 sua mem\u00f3ria o preito merecido \u00e0 sua vida de intensivo labor pela causa dos que sofrem.<\/p>\n\n\n\n<p>O seu funeral realizado a 27 foi muito concorrido, nele se tendo incorporado n\u00e3o s\u00f3 muitos elementos da classe oper\u00e1ria, como em grande n\u00famero o pessoal da Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses, onde o extinto exercia a sua atividade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 fam\u00edlia enlutada apresentamos os nossos mais magoados sentimentos\u201d [<em>A Voz do Oper\u00e1rio<\/em>, Junho 1934, p.2].<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este sindicalista ferrovi\u00e1rio foi um dos primeiros presos pol\u00edticos a morrer \u00e0s m\u00e3os da \u00abPIDE\u00bb.<\/p>\n","protected":false},"author":20,"featured_media":7991,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[43],"tags":[],"coauthors":[93],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7990"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/20"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7990"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7990\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8106,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7990\/revisions\/8106"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7991"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7990"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7990"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7990"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=7990"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}