{"id":7969,"date":"2024-05-01T08:46:25","date_gmt":"2024-05-01T08:46:25","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=7969"},"modified":"2024-06-05T13:31:17","modified_gmt":"2024-06-05T13:31:17","slug":"e-dificil-esquecer-o-1-o-de-maio-de-1974","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2024\/05\/01\/e-dificil-esquecer-o-1-o-de-maio-de-1974\/","title":{"rendered":"Ant\u00f3nio Tremo\u00e7o: \u201c\u00c9 dif\u00edcil esquecer\u00a0o 1.\u00ba de Maio de 1974"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"pergunta\">A sua fam\u00edlia partiu do Alentejo para a Amadora \u00e0 procura de melhores condi\u00e7\u00f5es de vida. Como \u00e9 que foi esse processo?<\/p>\n\n\n\n<p>Eu vim pequenino para aqui. Tinha uns 10 anos. Naquela zona do Alentejo, em Ourique, n\u00e3o havia trabalho. E como a minha m\u00e3e j\u00e1 tinha um n\u00edvel cultural alto percebeu que s\u00f3 fugindo para Lisboa \u00e9 que os filhos poderiam fugir \u00e0 mis\u00e9ria que se vivia no Alentejo. Ent\u00e3o, pressionou o meu pai para virmos para Lisboa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Com que idade come\u00e7ou a trabalhar?<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda n\u00e3o tinha 11 anos. O meu primeiro emprego foi numa empresa que fazia j\u00e1 balan\u00e7as chamada Medines. Ainda hoje andam a\u00ed balan\u00e7as dessas, mas naquela altura fazia-se tamb\u00e9m umas para pesar petr\u00f3leo e azeite. Tinham uns carretos. E essa empresa empregava muitos mi\u00fados. T\u00ednhamos um oficial que punha a m\u00e1quina a funcionar como deve ser e depois n\u00f3s \u00edamos \u00edamos fazendo o trabalho.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/entrevistado-3126_300cmyk-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7971\" srcset=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/entrevistado-3126_300cmyk-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/entrevistado-3126_300cmyk-300x200.jpg 300w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/entrevistado-3126_300cmyk-768x512.jpg 768w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/entrevistado-3126_300cmyk-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/entrevistado-3126_300cmyk-150x100.jpg 150w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/entrevistado-3126_300cmyk-370x247.jpg 370w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/entrevistado-3126_300cmyk-220x147.jpg 220w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/entrevistado-3126_300cmyk.jpg 1575w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ant\u00f3nio Tremo\u00e7o<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Mais tarde, vai para a Sorefame.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 depois de vir da tropa. Estive em Mo\u00e7ambique durante dois anos e tal. E, quando regressei,voltei para uma empresa em Bel\u00e9m, junto aos Jer\u00f3nimos. Depois ainda passei por uma empresa de pl\u00e1sticos na Amadora. Em 1969, entro na Soferame.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">J\u00e1 tinha alguma consci\u00eancia pol\u00edtica?<\/p>\n\n\n\n<p>Quando entrei na Sorefame tinha pouca consci\u00eancia. Era uma pessoa revoltada com a situa\u00e7\u00e3o, como era a maior parte da juventude, porque a explora\u00e7\u00e3o era muita. Ganhav\u00e1mos muito pouco e a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o era nada f\u00e1cil. N\u00e3o t\u00ednhamos direitos nenhuns. Havia uma revolta muito grande. Nesse per\u00edodo, entrou muita gente jovem e havia alguns trabalhadores mais antigos na empresa. Na minha sec\u00e7\u00e3o, havia l\u00e1 um que nos dava a ler o Avante! clandestino e n\u00f3s l\u00edamos tudo isso. A partir da\u00ed, eu e os outros jovens come\u00e7\u00e1mos a ter uma no\u00e7\u00e3o diferente e foi a partir da\u00ed tamb\u00e9m que se deu a primeira greve antes do 25 de Abril, na Sorefame, em janeiro de 1974.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Quantas pessoas trabalhavam na Sorefame na \u00e9poca?<\/p>\n\n\n\n<p>Na \u00e9poca em que entrei, trabalhavam j\u00e1 \u00e0 volta de umas tr\u00eas mil e tal pessoas. Em 1979, cheg\u00e1mos a ter quase seis mil trabalhadores.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Como foi essa greve tr\u00eas meses antes da&nbsp;revolu\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>Na Sorefame, j\u00e1 havia alguns elementos do PCP. Faziam trabalho junto dos oper\u00e1rios de forma clandestina. Foi esse trabalho na clandestinidade que deu origem a que, a n\u00edvel das v\u00e1rias sec\u00e7\u00f5es, se desse essa situa\u00e7\u00e3o de revolta e as pessoas acabassem por vir para a parada em greve. A ades\u00e3o foi grande, embora depois acabasse por haver alguma desmobiliza\u00e7\u00e3o com o medo. Na empresa havia muitas pessoas ligadas aos gajos da PIDE. Come\u00e7aram a meter medo \u00e0s pessoas dentro da empresa e aquilo foi desmobilizando. Mas ao princ\u00edpio foi de facto uma prova de for\u00e7a muito grande. Quer dizer, ningu\u00e9m estava \u00e0 espera de uma situa\u00e7\u00e3o daquelas, n\u00e3o \u00e9? Essa greve deu origem depois a que consegu\u00edssemos fazer uma reuni\u00e3o das v\u00e1rias sec\u00e7\u00f5es e a pr\u00f3pria administra\u00e7\u00e3o aceitou alguns aumentos salariais, coisa que n\u00e3o t\u00ednhamos anteriormente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Entretanto, d\u00e1-se o 25 de Abril.<\/p>\n\n\n\n<p>A maior parte da malta da empresa foi toda para Lisboa. A malta mais oper\u00e1ria. Fomos todos apanhados de surpresa. Mas, assim que tivemos conhecimento da situa\u00e7\u00e3o, acab\u00e1mos por ir para a rua com os outros trabalhadores, desloc\u00e1mo-nos para Lisboa e fomos para a rua como milhares e milhares de trabalhadores e pass\u00e1mos todo o dia na rua. Cheguei a ver as opera\u00e7\u00f5es militares, acab\u00e1mos por ver isso tudo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Logo a seguir ao 25 de Abril, veio&nbsp;o 1.\u00ba de Maio.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o deu muito tempo para nos organizarmos, mas como havia toda a situa\u00e7\u00e3o em que viv\u00edamos nem foi preciso. Foi, de facto, uma grande manifesta\u00e7\u00e3o. Havia mesmo muita gente da Sorefame. \u00cdamos de forma dispersa, sem qualquer pano. Foi a primeira manifesta\u00e7\u00e3o livre em que participei. J\u00e1 tinha participado em iniciativas relacionadas com o 1.\u00ba de Maio na Amadora de forma ilegal, ainda durante o fascismo. Foi uma coisa que \u00e9 dif\u00edcil de esquecer. N\u00e3o est\u00e1vamos habituados a ver uma multid\u00e3o daquelas, com aquela for\u00e7a, com aquela din\u00e2mica, com aquele entusiasmo. Criou-nos um entusiasmo de tal maneira que foi meio caminho andado para depois continuarmos toda a luta que se desenvolveu. E, logo nessa altura, como j\u00e1 v\u00ednhamos daquela luta com a organiza\u00e7\u00e3o clandestina dentro da empresa, com um elemento de cada sec\u00e7\u00e3o, form\u00e1mos logo uma comiss\u00e3o e come\u00e7ou, de facto, o nosso trabalho. Ali havia pessoas que defendiam coisas completamente diferentes, mas conseguimos o que era essencial, os aumentos. Praticamente conseguimos passar para o dobro do ordenado que t\u00ednhamos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"737\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/sorefame1_300cmyk-737x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7972\" srcset=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/sorefame1_300cmyk-737x1024.jpg 737w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/sorefame1_300cmyk-216x300.jpg 216w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/sorefame1_300cmyk-768x1067.jpg 768w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/sorefame1_300cmyk-1105x1536.jpg 1105w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/sorefame1_300cmyk-1474x2048.jpg 1474w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/sorefame1_300cmyk-130x180.jpg 130w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/sorefame1_300cmyk.jpg 1575w\" sizes=\"(max-width: 737px) 100vw, 737px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">E que impacto teve isso nas vossas vidas?<\/p>\n\n\n\n<p>Teve um impacto muito grande. Deu logo para a gente alugar uma casinha, ter a nossa casa. Acab\u00e1mos por, grande parte daquele pessoal, comprar um carro. Come\u00e7\u00e1mos a ter uma vida completamente diferente. N\u00e3o tem nada a ver com a situa\u00e7\u00e3o que t\u00ednhamos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Os trabalhadores passaram a ser tidos em conta na gest\u00e3o da Sorefame?<\/p>\n\n\n\n<p>Depois, form\u00e1mos a Comiss\u00e3o de Trabalhadores, j\u00e1 eleita pelos trabalhadores, em elei\u00e7\u00f5es livres, dentro da empresa. E a partir da\u00ed, t\u00ednhamos direito a que um elemento da Comiss\u00e3o de Trabalhadores participasse nas reuni\u00f5es da administra\u00e7\u00e3o. O capital maiorit\u00e1rio na empresa era do Estado. N\u00f3s n\u00e3o ger\u00edamos a empresa mas particip\u00e1vamos na discuss\u00e3o. Particip\u00e1vamos com as nossas interven\u00e7\u00f5es e as nossas propostas. Ao longo de v\u00e1rios anos conseguimos grandes vit\u00f3rias. Conseguimos melhorar sal\u00e1rios, conseguimos reduzir hor\u00e1rios de trabalho, conseguimos melhorar as profiss\u00f5es. T\u00ednhamos direito a refei\u00e7\u00f5es gratuitas, melhor\u00e1mos os servi\u00e7os em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 seguran\u00e7a no trabalho.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">E que papel \u00e9 que assumiu?<\/p>\n\n\n\n<p>Fui respons\u00e1vel pela Comiss\u00e3o de Trabalhadores com outros camaradas e participei mais tarde no Sindicato dos Metal\u00fargicos e na Federa\u00e7\u00e3o dos Metal\u00fargicos. Tamb\u00e9m na pr\u00f3pria Uni\u00e3o dos Sindicatos de Lisboa. Mas grande parte do tempo foi, de facto, na empresa. Foi uma participa\u00e7\u00e3o muito intensa, sobretudo no processo revolucion\u00e1rio. Tamb\u00e9m reunia com camaradas que vinham da clandestinidade. Eram duros mas transmitiam uma for\u00e7a e uma confian\u00e7a tal que nos ajudaram a conquistar grandes vit\u00f3rias. A Sorefame tinha um peso muito grande no concelho da Amadora e havia tamb\u00e9m a Cometna. Essas empresas, ali na zona industrial, pela luta que desenvolviam criavam uma din\u00e2mica na rua que ajudaram at\u00e9 a que a autarquia fosse liderada pelos comunistas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Oper\u00e1rio metal\u00fargico, come\u00e7ou a trabalhar aos 11 anos na Amadora, terra para a qual os pais migraram do Alentejo \u00e0 procura de melhores condi\u00e7\u00f5es de vida. Depois de ser obrigado a combater em \u00c1frica, Ant\u00f3nio Tremo\u00e7o entrou na maior f\u00e1brica da cidade. Na Sorefame, foi uma das principais figuras entre os trabalhadores durante o processo revolucion\u00e1rio. Esteve nas ruas no dia 25 de Abril de 1974 e participou com milhares na mar\u00e9 humana que percorreu Lisboa no 1.\u00ba de Maio.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":7970,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[44],"tags":[],"coauthors":[71],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7969"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7969"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7969\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8081,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7969\/revisions\/8081"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7970"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7969"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7969"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7969"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=7969"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}