{"id":7965,"date":"2024-04-30T12:34:54","date_gmt":"2024-04-30T12:34:54","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=7965"},"modified":"2024-04-30T12:34:55","modified_gmt":"2024-04-30T12:34:55","slug":"o-1-o-de-maio-em-lisboa-comecou-assim-em-1890","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2024\/04\/30\/o-1-o-de-maio-em-lisboa-comecou-assim-em-1890\/","title":{"rendered":"O 1.\u00ba de Maio em Lisboa: come\u00e7ou assim, em 1890"},"content":{"rendered":"\n<p>Interrompido e assediado pela pol\u00edcia.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi assim que o dia internacional da classe trabalhadora come\u00e7ou a ser vivido na cidade de Lisboa.<\/p>\n\n\n\n<p>O ano era 1890. Vigorava o regime da monarquia liberal\u2026<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Jos\u00e9 Fontana<\/h2>\n\n\n\n<p>As comemora\u00e7\u00f5es arrancaram ao in\u00edcio da tarde, no Cemit\u00e9rio dos Prazeres. Junto ao t\u00famulo de Jos\u00e9 Fontana.<\/p>\n\n\n\n<p>Afinal, \u00e9 uma data de luta e de festa, mas tamb\u00e9m de mem\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Evoca uma greve no dia 1\u00ba de maio de 1886, nos Estados Unidos da Am\u00e9rica. A qual acabou brutalmente reprimida pela pol\u00edcia, com alguns dos seus organizadores a serem condenados \u00e0 morte e executados. Num processo judicial forjado, que seria anulado anos depois.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto a Fontana, \u00e9 como que o \u201cpai fundador\u201d do movimento oper\u00e1rio e sindical em Portugal. Sobretudo pelo seu papel na \u00abFraternidade Oper\u00e1ria\u00bb, que foi um primeiro prot\u00f3tipo de central sindical neste pa\u00eds (em 1872).<\/p>\n\n\n\n<p>Fontana foi tamb\u00e9m um dos respons\u00e1veis pela primeira edi\u00e7\u00e3o portuguesa do&nbsp;<em>Manifesto Comunista<\/em>, em 1873. E foi um dos raros portugueses que se corresponderam directamente com Karl Marx e Friedrich Engels.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Uma vida \u201cmuito grande\u201d<\/h2>\n\n\n\n<p>Segundo diferentes jornais \u201cburgueses\u201d, compareceram cerca de tr\u00eas mil manifestantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Eram aguardados por uma for\u00e7a de cavalaria \u00e0 porta do cemit\u00e9rio, e mais uns 80 pol\u00edcias l\u00e1 dentro, com dois chefes de esquadra junto ao t\u00famulo.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois da coloca\u00e7\u00e3o de flores e de um momento de sil\u00eancio, um dos organizadores come\u00e7ou a discursar. Era Lu\u00eds Figueiredo, do jornal \u00abProtesto Oper\u00e1rio\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p>Referiu-se a Jos\u00e9 Fontana e aos servi\u00e7os que este prestou \u00e0 \u201ccausa do proletariado\u201d. Disse que a manifesta\u00e7\u00e3o junto ao seu t\u00famulo \u201cera o cumprimento de um dever de justi\u00e7a\u201d. Naquele dia, \u201cque em todo o mundo o operariado se levanta\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O povo come\u00e7ou a aplaudir. Mas \u201clogo\u201d um dos chefes de pol\u00edcia \u201cintimou o orador a calar-se por ter falado em pol\u00edtica\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O povo apoiou Figueiredo com mais palmas.<\/p>\n\n\n\n<p>O outro chefe de pol\u00edcia intimou para cessarem os aplausos.<\/p>\n\n\n\n<p>Um segundo militante oper\u00e1rio, Lu\u00eds de Judicibus, pediu ao povo que lhe consentisse dizer duas palavras sobre Jos\u00e9 Fontana. Mas \u201capenas citou uma frase de Fontana, logo um dos tais chefes bradou:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Restrinja-se!<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Eu restrinjo-me, senhor. Vou s\u00f3 falar da vida de Fontana.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; A vida de Fontana \u00e9 muito grande, faz favor de acabar.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Posto isto, foi dada ordem de dispersar, por um comiss\u00e1rio de pol\u00edcia \u201cque \u00e0 frente de um grosso piquete de guardas apareceu na ocasi\u00e3o\u201d [<em>O S\u00e9culo<\/em>, 02.05.1890, p\u00e1g. 1].<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Com\u00edcio clandestino<\/h2>\n\n\n\n<p>\u00c0 romagem ao cemit\u00e9rio devia suceder-se um com\u00edcio de rua. Mas foi proibido pelo governador civil, com o argumento de que \u201co local designado para a reuni\u00e3o era a rua Vitor Hugo, e a lei n\u00e3o permitir com\u00edcios em ruas p\u00fablicas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, ao final da tarde, \u201cum grupo de 100 oper\u00e1rios\u201d regressou ao cemit\u00e9rio. E ali fizeram os seus discursos junto ao t\u00famulo de Fontana. Ter\u00e3o sido \u201clevantados vivas \u00e0 classe oper\u00e1ria, \u00e0 solidariedade dos povos, e \u00e0 Rep\u00fablica Social\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Tal rebeldia chegou r\u00e1pido aos ouvidos da pol\u00edcia. A qual \u201cacudiu desordenadamente, esbaforida, mas quando chegou\u2026 era j\u00e1 tarde\u201d [<em>ibidem<\/em>].<\/p>\n\n\n\n<p>No dia seguinte, pesou outra forma de repress\u00e3o: dezenas de trabalhadores foram despedidos por terem participado no 1\u00ba de Maio. Nomeadamente no setor da constru\u00e7\u00e3o civil.<\/p>\n\n\n\n<p>Na altura, os trabalhadores n\u00e3o tinham direito a esse feriado. Participar no 1\u00ba de Maio era uma forma de greve.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Que n\u00e3o cedesse a sala<\/h2>\n\n\n\n<p>Para a noite do 1\u00ba de Maio de 1890, estava tamb\u00e9m anunciada uma reuni\u00e3o oper\u00e1ria para debater e organizar a luta pelo hor\u00e1rio de trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>Um senhor comiss\u00e1rio de pol\u00edcia \u201cmandou chamar a dona da casa [&#8230;], a fim de instar com ela para que n\u00e3o cedesse a sala, porque era para uma reuni\u00e3o de republicanos e socialistas, que o que queriam era roub\u00e1-la, e n\u00e3o sabemos que outras mais coisas id\u00eanticas\u201d&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a reuni\u00e3o fez-se. Falou-se at\u00e9 que teriam estado \u201cpresentes uns 800 oper\u00e1rios\u201d [<em>ibidem<\/em>].<\/p>\n\n\n\n<p>Dias depois realizou-se enfim um com\u00edcio, no qual foi aprovada uma peti\u00e7\u00e3o ao parlamento. A principal reivindica\u00e7\u00e3o era a redu\u00e7\u00e3o do hor\u00e1rio de trabalho para oito horas di\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>A coisa n\u00e3o foi l\u00e1 com uma peti\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Mas foi uma etapa inicial, que abriu caminho \u00e0s lutas coletivas que conquistaram esse direito.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Um balan\u00e7o cr\u00edtico<\/h2>\n\n\n\n<p>Cerca de quarenta anos depois, o anarco-sindicalista Manuel Joaquim de Sousa analisou a fase inicial das comemora\u00e7\u00f5es do 1\u00ba Maio em Portugal, antes de serem proibidas pela ditadura de Salazar.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a experi\u00eancia de ter sido secret\u00e1rio-geral da CGT sob a 1\u00aa Rep\u00fablica, Sousa era muito cr\u00edtico dos aspectos festivos do 1\u00ba de Maio.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso mesmo \u00e9 significativo quando afirma: \u201cser\u00edamos injustos se cal\u00e1ssemos os bons efeitos da manifesta\u00e7\u00e3o do 1\u00ba de Maio\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A seu ver, \u201ctal manifesta\u00e7\u00e3o deu um certo incremento \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o de muitas classes oper\u00e1rias, especialmente na prov\u00edncia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Pois \u201co calor das ideias internacionalistas de emancipa\u00e7\u00e3o humana, espalhadas, melhor ou pior, nos com\u00edcios e sess\u00f5es de propaganda em todos os dias 1\u00ba de Maio, empolgava as massas sequiosas de justi\u00e7a\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Manuel Joaquim de Sousa, \u201cmesmo degenerando em \u00abFesta do Trabalho\u00bb, essa manifesta\u00e7\u00e3o constituiu nos primeiros tempos um estimulante para as classes ap\u00e1ticas, cuja aten\u00e7\u00e3o s\u00f3 despertava ao som da banda musical, dos foguetes e dos cortejos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>E, \u201csob o ponto de vista org\u00e2nico, essa manifesta\u00e7\u00e3o teve ben\u00e9ficos efeitos. [&#8230;] a demonstra\u00e7\u00e3o est\u00e1 na exist\u00eancia dos velhos sindicatos, cuja maior parte se organizou e estabilizou nos anos posteriores a 1890\u201d [Manuel Joaquim de Sousa (1931),&nbsp;<em>O sindicalismo em Portugal<\/em>, p\u00e1gs. 59\/61].<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O primeiro 1.\u00ba de Maio em Portugal come\u00e7ou junto ao t\u00famulo de Jos\u00e9 Fontana. Fora do cemit\u00e9rio aguardava uma for\u00e7a de cavalaria e dentro havia 80 pol\u00edcias.<\/p>\n","protected":false},"author":20,"featured_media":7966,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[51],"tags":[],"coauthors":[93],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7965"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/20"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7965"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7965\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7968,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7965\/revisions\/7968"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7966"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7965"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7965"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7965"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=7965"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}