{"id":7952,"date":"2024-04-19T12:27:05","date_gmt":"2024-04-19T12:27:05","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=7952"},"modified":"2024-04-24T11:17:04","modified_gmt":"2024-04-24T11:17:04","slug":"o-estranho-a-familia-e-o-inspector-uma-historia-policial-ou-as-feridas-por-sarar-numa-lavandaria-de-suburbio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2024\/04\/19\/o-estranho-a-familia-e-o-inspector-uma-historia-policial-ou-as-feridas-por-sarar-numa-lavandaria-de-suburbio\/","title":{"rendered":"O estranho, a fam\u00edlia e o inspector: uma hist\u00f3ria policial, ou as feridas por sarar numa lavandaria de sub\u00farbio"},"content":{"rendered":"\n<p>Como em <em><a href=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2024\/03\/12\/a-domesticidade-e-as-tentativas-de-libertacao-em-girafas-nos-artistas-unidos\/\" data-type=\"URL\" data-id=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2024\/03\/12\/a-domesticidade-e-as-tentativas-de-libertacao-em-girafas-nos-artistas-unidos\/\">Girafas<\/a><\/em>, esta pe\u00e7a coloca no centro uma fam\u00edlia \u00e0 margem, de um sub\u00farbio. Um estranho atravessa o seu quotidiano, e, sem perceber, desenterra feridas e frustra\u00e7\u00f5es.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Um bairro, a lavandaria e a casa cont\u00edgua da fam\u00edlia da Sara (\u00cdris Runa). O estranho (Vicente Wallenstein) precipita-se para a noite solit\u00e1ria desta jovem que se desloca de cadeira de rodas. David vem ofegante e traz uma camisa ensanguentada, que precisa de ser lavada. Sara resiste, depois tem uma ideia: se ele dan\u00e7ar, ela aceda ao seu pedido. Ele dan\u00e7a para a rapariga que n\u00e3o consegue andar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Estamos focados no segmento direito do palco, entre roupas penduradas e essa m\u00e1quina de lavar que agora lava o que parecia sangue. Acende-se ainda um n\u00e9on que anuncia o hor\u00e1rio as doze horas de funcionamento daquele neg\u00f3cio familiar. Sara fala-lhe do irm\u00e3o que desapareceu com oito anos, depois de os pais terem ganho a lotaria (tamb\u00e9m em <em>Girafas<\/em> uma personagem ganha a lotaria, e, com o pr\u00e9mio, viaja para Paris, deixando uma m\u00e1quina de lavar \u00e0 dona de casa).<\/p>\n\n\n\n<p>Sara vai buscar um copo de \u00e1gua ao rapaz, que aproveita para esconder alguma coisa. David est\u00e1 bem vestido, Sara percebe que ele n\u00e3o pertence \u00e0quela zona da cidade. As perguntas sucedem-se: quem \u00e9, o que lhe aconteceu naquela noite?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O enigma do enredo permite a Pau Mir\u00f3 o aprofundamento da rela\u00e7\u00e3o entre as personagens: as falhas, o sofrimento, os medos e o mal v\u00eam ao de cima, \u00e0 medida que a hist\u00f3ria do rapaz se torna mais confusa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O pai de Sara (Pedro Carraca), simp\u00e1tico, oferece comida a David, que tenta responder \u00e0s perguntas. Foi passear com o c\u00e3o, o c\u00e3o entrou numa luta e ficou ferido. Tamb\u00e9m o dono da lavandaria percebe que ele n\u00e3o pertence ao bairro. Ali, todos se conhecem a vida e ao passado uns dos outros. Sabem, por exemplo, do trauma do inspector da pol\u00edcia, a quem a m\u00e3e humilhou entornando cerveja na cabe\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m pela lateral direita, junto \u00e0 plateia, que entra a m\u00e3e (Andreia Bento), cambaleante, vinda do Bingo, para onde foi apostar a sorte e beber gin t\u00f3nico. Estranha a presen\u00e7a de David. Fala-lhe da desgra\u00e7a da morte do filho.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O luto da fam\u00edlia e a ambi\u00e7\u00e3o do inspector&nbsp;<\/h2>\n\n\n\n<p>Sa\u00edmos da lavandaria, passou a noite. Na lateral esquerda do palco, na cozinha, a fam\u00edlia, que j\u00e1 inclui David, tomam o pequeno-almo\u00e7o. H\u00e1 o doce de ameixa que a m\u00e3e fez, a recusa desta em servir caf\u00e9 ao pai. Por tr\u00e1s do mal-estar, prossegue a curiosidade sobre o rapaz: David vive com os pais na zona alta da cidade, os pais vendem piscina e arrendam apartamentos.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00e3e fica violenta quando falam da sorte na lotaria que se converteu em trag\u00e9dia. O pai refugia-se nas traseiras da lavandaria, onde toma conta da manuten\u00e7\u00e3o das m\u00e1quinas. Sara n\u00e3o consegue andar. A quase certa morte do filho que desapareceu h\u00e1 dez anos deixou marcas irrepar\u00e1veis. Para aquele trio, o \u00fanico ponto de apoio (e fonte de rendimento) \u00e9 a lavandaria.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>David quer partir, mas a camisa lavada que lhe d\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a sua. Ele conhece a camisa que levou do pai. O pai n\u00e3o acreditou que ele aparecesse sem uma n\u00f3doa. David n\u00e3o pode sair sem a camisa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Aparece \u00e9 o inspector (Pedro Caeiro), com uma mala, cansado do turno da noite e de um crime por resolver. N\u00e3o parar de falar, estranha a presen\u00e7a daquele forasteiro. Todos ficam do lado de David, j\u00e1 perceberam que alguma coisa aconteceu naquela noite ao jovem. \u00c9 o namorado de Sara, dizem. Sara parece aliviada com esta mentira. David, tenso e mais preocupado em resolver a embrulhada em que se meteu.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A mala do inspector est\u00e1 vazia, esqueceu-se das coisas do gin\u00e1sio. Senta-se, conta os pormenores do homic\u00eddio que aconteceu numa esquina a metros dali. Escuta a hist\u00f3ria do c\u00e3o de David, e as suas suspeitas sobre ele aumentam. Antes de sair, descobre a faca que David escondeu. Recome\u00e7a o interrogat\u00f3rio. O inspector \u00e9 desconfiado e tem uma fantasia: deixar tudo para tr\u00e1s, com uma mala cheia de notas. J\u00e1 sabe das origens algo abastadas do rapaz. O pai come\u00e7a por tentar apazigu\u00e1-lo, mas cede \u00e0 viol\u00eancia e \u00e0 essa ilus\u00e3o da mala com dinheiro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O inspector partilha a insatisfa\u00e7\u00e3o e a frustra\u00e7\u00e3o daquelas vidas paradas, que se escondem atr\u00e1s do materialismo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">David e Sara: esperan\u00e7a e desilus\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>David \u00e9 o foco da pe\u00e7a: \u00e9 quem mais arrisca viver num mundo assustador. Ao fim de um ano fechado no quarto, saiu para passear o c\u00e3o, foi tamb\u00e9m ao cinema&#8230; Mas a solid\u00e3o era imensa. Acabou na esquina, \u00e0 procura da droga que podia colmatar o vazio. O traficante estava morto, conta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Agora que amanheceu, tem de voltar com a camisa lavada para casa. Sara esconde que David era a sua esperan\u00e7a. Aquele estranho lembrava-lhe o irm\u00e3o, e muito mais do que isso. David podia ser a vida fora do ciclo fechado do bairro, da casa-lavandaria. Por isso, quando o rapaz parte, tenta ir atr\u00e1s dele. A vontade e o desejo de sair s\u00e3o derrotados pela fraqueza das pernas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>Le\u00f5es<\/em> \u00e9 um texto duro e circular sobre um quotidiano focado nas dores destes personagens que parecem sem sa\u00edda. Ficamos em sil\u00eancio, a a reflectir sobre os buracos negros e as esquinas escuras das noites das nossas pr\u00f3prias exist\u00eancias ensimesmadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Os Artistas Unidos completam em Setembro a tr\u00edade de Pau Mir\u00f3, levando a cena <em>B\u00fafalos<\/em>. Para, depois, reporem estas tr\u00eas importantes pe\u00e7as contempor\u00e2neas sobre personagens oprimidas nas suas m\u00e1goas interiores &#8211; incapazes de lutar por aquilo que ainda as faz sonhar.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Segue-se Le\u00f5es, no Teatro da Polit\u00e9cnica, at\u00e9 dia 4 de Maio, pela m\u00e3o dos Artistas Unidos, a segunda obra da trilogia do dramaturgo catal\u00e3o Pau Mir\u00f3, encenada por Ant\u00f3nio Sim\u00e3o. <\/p>\n","protected":false},"author":81,"featured_media":7953,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[48],"tags":[],"coauthors":[177],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7952"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/81"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7952"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7952\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7957,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7952\/revisions\/7957"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7953"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7952"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7952"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7952"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=7952"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}