{"id":7937,"date":"2024-04-15T08:41:58","date_gmt":"2024-04-15T08:41:58","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=7937"},"modified":"2024-04-15T08:41:59","modified_gmt":"2024-04-15T08:41:59","slug":"a-liberdade-criativa-e-a-experimentacao-da-animacao-portuguesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2024\/04\/15\/a-liberdade-criativa-e-a-experimentacao-da-animacao-portuguesa\/","title":{"rendered":"A liberdade criativa e a experimenta\u00e7\u00e3o da anima\u00e7\u00e3o portuguesa"},"content":{"rendered":"\n<p>O cinema de anima\u00e7\u00e3o portugu\u00eas est\u00e1 de parab\u00e9ns. Isso foi not\u00f3rio nos filmes que estiveram a concurso na 23\u00aa edi\u00e7\u00e3o do Monstra, Festival de Anima\u00e7\u00e3o de Lisboa. Na sess\u00e3o da competi\u00e7\u00e3o de homenagem ao grande mentor da anima\u00e7\u00e3o nacional Vasco Granja, exibiram-se obras produzidas em 2023 e 2024. O destaque: a experimenta\u00e7\u00e3o e ousadia criativas de todos eles. Vale a pena falar sobre cada um deles. \u201cP\u00e1scoa\u201d, retrata uma viagem ao Alentejo nessa altura festiva. O tra\u00e7o do desenho \u00e9 facilmente identific\u00e1vel como pertencente ao ilustrador Andr\u00e9 Ruivo. Poucos elementos contam uma hist\u00f3ria simples e divertida deste quotidiano de dois irm\u00e3os e dos pais, que culmina com a fam\u00edlia perdida na paisagem ao Sul. \u201cSombras da Manh\u00e3\u201d, de Rita Cruchinho Neves, transporta-nos para um ambiente g\u00f3tico, em que a voz do narrador deixa a pairar v\u00e1rias quest\u00f5es existenciais. As imagens sucedem-se; viajamos com esse protagonista de uma forma circular.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Dos testemunhos de vida ao mundo enigm\u00e1tico no cosmos: tudo cabe na anima\u00e7\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o arrojados os quatro minutos de \u201cMotus\u201d, de Nelson Fernandes. O autor prop\u00f4s-se trabalhar sobre uma chapa de metal, usando etanol como mat\u00e9ria-prima. Um corpo resultante deste processo aparece e desaparece. Podemos afirmar que vislumbramos espectros, resultantes desta experi\u00eancia animada. \u201cQuase me lembro\u201d (Dimitri Mihajlovic e Miguel Lima) cria o ambiente de uma casa em que uma neta tenta perceber o que se passa com o av\u00f3. Mem\u00f3rias de um outro lugar (ser\u00e1 a Guerra Colonial, ser\u00e1 \u00c1frica), mem\u00f3rias da inf\u00e2ncia da narradora. As imagens criam o mist\u00e9rio, no qual tacteamos a ansiedade dessa busca por um caminho que clarifique o passado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em \u201cO Estado de Alma\u201d, predomina a distor\u00e7\u00e3o do mundo, a partir do olhar da de Alma. Alma v\u00ea-se a si de forma distorcida: o seu pesco\u00e7o \u00e9 torto, a sua casa e respectivos objectos inclinam-se. Tudo \u00e9 dif\u00edcil para esta mulher solit\u00e1ria. Alma vai perceber, depois do confronto com essas auto-imagens, que os que a rodeiam tamb\u00e9m t\u00eam as suas peculiaridades. Sara Naves, a realizadora, trabalha a mat\u00e9ria de que s\u00e3o feitos os sentimentos de Alma: tudo se desmorona para depois tudo se aquietar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSopa Fria\u201d \u00e9 um testemunho de uma mulher. Talvez por isso, a autora Marta Monteiro tenha recorrido a imagem real (fotografias) como pano de fundo para o tra\u00e7o que vai assumindo a contar esta hist\u00f3ria de viol\u00eancia dom\u00e9stica. \u00c9 o caminho de uma vida que tenta, ao longo de anos, sair de um ambiente familiar abusivo. At\u00e9 que a liberdade acontece, e esta m\u00e3e, esposa e mulher consegue finalmente ser livre e seguir outro destino.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA Rapariga dos Olhos Grandes e o Rapaz das Pernas Compridas\u201d, de Marta Hespanha, conta, em anima\u00e7\u00e3o tradicional e stop-motion, a hist\u00f3ria de duas pessoas e das encruzilhadas por que passam separadas at\u00e9 se juntarem. \u00c9 uma obra de artesania (e n\u00e3o o s\u00e3o todos os filmes de anima\u00e7\u00e3o?), com cen\u00e1rios, concep\u00e7\u00e3o pl\u00e1stica de adere\u00e7os e guarda-roupa reveladores de um detalhado mundo on\u00edrico e nost\u00e1lgico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">A distribui\u00e7\u00e3o e a exibi\u00e7\u00e3o dos filmes<\/p>\n\n\n\n<p>Perante tanta diversidade, temos ainda a hist\u00f3ria do processo de escrita, em \u201cOlha\u201d. Nuno Amorim tabalha essa complexidade, entre as personagens dos autores e as suas dificuldades criativas, e o aparecimento de cen\u00e1rios, objectos e personagens da hist\u00f3ria que est\u00e1 a tentar conceber. H\u00e1 ainda a poesia e o medo no delicado filme de Bruno Carnide sobre \u201cA Rapariga que Caminhava sobre a Neve\u201d, pois n\u00e3o contaminar os outros com a sua melancolia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nos extremos formais e tem\u00e1ticos est\u00e3o mais duas outras obras. O c\u00e2ndido \u201cO Conto da Raposa\u201d, no qual Marta Allen tra\u00e7a a viagem efabulat\u00f3rio de uma raposa e dos pequenos amigos que encontra, enquanto tenta comer uma ma\u00e7\u00e3. E o mais enigm\u00e1tico \u201cIn Imperio\u201d, com homens gigantes que vivem rodeados por pe\u00e7as geom\u00e9tricas, fechados ou a encarcerar outros, algures num cosmos a preto-e-branco. A profundidade e o fora de campo, o interior e o exterior, o limite e o infinito s\u00e3o dimens\u00f5es exploradas, num filme onde o som refor\u00e7a a sensa\u00e7\u00e3o de que estamos a ver e a sentir coisas sobre as quais n\u00e3o conseguimos falar&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Por que \u00e9 que estes filmes de anima\u00e7\u00e3o, reveladores de tanta vitalidade criativa e que envolvem o esfor\u00e7o de tantos profissionais, n\u00e3o chegam \u00e0 maioria das pessoas? A quest\u00e3o envolve sempre a lacuna existente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o e exibi\u00e7\u00e3o das curtas e longas-metragens de anima\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m de todo cinema (com apoio financeiro, ou n\u00e3o) produzido em Portugal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O cinema de anima\u00e7\u00e3o portugu\u00eas est\u00e1 de parab\u00e9ns. 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