{"id":7933,"date":"2024-04-15T08:37:53","date_gmt":"2024-04-15T08:37:53","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=7933"},"modified":"2024-04-15T08:37:54","modified_gmt":"2024-04-15T08:37:54","slug":"donbass-dez-anos-de-guerra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2024\/04\/15\/donbass-dez-anos-de-guerra\/","title":{"rendered":"Donbass.\u00a0Dez anos de guerra"},"content":{"rendered":"\n<p>Ouvem-se gritos desesperados. H\u00e1 feridos por toda a parte. Gente que se tenta arrastar entre os destro\u00e7os e que pede ajuda. S\u00e3o as imagens brutais que nos mostra Liudmila atrav\u00e9s do telem\u00f3vel. \u201cEsta sou eu, ali deitada. Aquele rasto de sangue foi de quando a Maria arrastou o marido l\u00e1 para fora\u201d. No dia 21 de janeiro deste ano, um bombardeamento das for\u00e7as ucranianas sobre o mercado do bairro de Tekstilshik provocou o mais mortal dos massacres na cidade de Donetsk. Como resultado do ataque, 27 civis perderam a vida e 25 ficaram feridos. \u00c9 Liudmila que explica \u00e0 Voz do Oper\u00e1rio o que aconteceu, sentada numa cama no hospital de traumatologia de Donetsk. Nesse dia, estava dentro da sua loja de acess\u00f3rios para telem\u00f3veis. \u201cAs pessoas que nos trouxeram para o hospital s\u00e3o civis\u201d, recorda.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEst\u00e1vamos a trabalhar. O primeiro proj\u00e9til atingiu o outro lado da rua e, cinco minutos depois, atingiu o s\u00edtio onde trabalho, literalmente a dois passos de mim. Sobrevivemos os tr\u00eas. Eu, a minha colega, que acabou de ter alta, mas perdeu uma perna, e o marido. Os outros estavam mortos. \u00c9ramos como uma fam\u00edlia\u201d, descreve. \u201cTudo o que recordo \u00e9 que fui atirada por uma onda expansiva pelo ar e ca\u00ed. Quando acordei, senti o cheiro a queimado e do\u00eda-me a perna. Fiquei com uma fratura exposta e deixei de a sentir\u201d. Apoiada num andarilho ortop\u00e9dico, explica que est\u00e1 h\u00e1 mais de um m\u00eas e meio no hospital. Foram j\u00e1 quatro opera\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ali ao lado, outras duas mulheres, tamb\u00e9m pacientes, abanam a cabe\u00e7a indignadas com tudo o que aconteceu a Liudmila e aos restantes civis. Juntam-se \u00e0 conversa. \u201cSe a Ucr\u00e2nia se quer juntar \u00e0 Europa, que se junte \u00e0 Europa e nos deixe em paz. E pronto. N\u00f3s n\u00e3o fomos ter com eles, eles \u00e9 que vieram ter connosco. Eles matam os nossos filhos. Por amor de Deus! Eles que nos deixem em paz\u201d, exige uma delas. \u201cN\u00f3s propusemos isso desde o in\u00edcio. Que deixassem o Donbass em paz. Eles ignoraram-nos. Gostar\u00edamos que os ucranianos nos tratassem normalmente. Muitas crian\u00e7as est\u00e3o a sofrer. A Ucr\u00e2nia bombardeia civis\u201d, denuncia a outra.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Liudmila, n\u00e3o h\u00e1 muito mais a dizer. Ironicamente, diz que agradece a Zelenski: \u201cMuito obrigada. Tenho uma amiga de 28 anos que perdeu a perna. Que corra tudo bem para os que fornecem essas armas\u201d. \u201cQue Deus os castigue\u201d, responde outra mulher. \u201cEntregam armas para nos matar\u201d. Liudmila ergue o punho cerrado e repete em castelhano a popular consigna antifascista eternizada na guerra civil de Espanha: \u201cNo pasar\u00e1n\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O hospital est\u00e1 cheio de civis feridos. Tamb\u00e9m crian\u00e7as. O vice-diretor, Vadim Onopryenko, tem pouco tempo para entrevistas. Daqui a pouco tem uma cirurgia programada. \u201cA situa\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre dif\u00edcil. A cidade continua a ser bombardeada. Quase todos os dias nos s\u00e3o trazidos civis feridos\u201d, descreve. \u201cComo j\u00e1 disse uma vez, a vida em Donetsk \u00e9 como uma roleta. Se acordamos e n\u00e3o fomos atingidos por um bombardeamento, temos sorte. Se estivermos a conduzir para o trabalho e n\u00e3o tivermos sido atingidos por algum ataque na estrada, temos sorte. E se n\u00e3o formos atingidos durante o dia de trabalho, tamb\u00e9m temos sorte. \u00c9 a chamada roleta de Donetsk\u201d. Vadim Onopryenko recorda que os drones ucranianos fazem agora parte do dia a dia. S\u00e3o usados para atacar civis.<\/p>\n\n\n\n<p>Este \u00e9 o hospital que mais feridos tratou durante esta guerra que dura h\u00e1 uma d\u00e9cada. \u201cNa realidade, a guerra \u00e9 sujidade, \u00e9 sangue, s\u00e3o infe\u00e7\u00f5es. A pior coisa da vida \u00e9 a guerra. Morrem civis, crian\u00e7as, idosos&#8230; S\u00e3o pessoas que n\u00e3o t\u00eam nada a ver com a guerra. A \u00fanica culpa destas pessoas \u00e9 o facto de viverem aqui. Os ferimentos causados por minas s\u00e3o muito complexos devido ao seu car\u00e1cter traum\u00e1tico. Estes ferimentos levam sempre a complica\u00e7\u00f5es porque as feridas est\u00e3o muito contaminadas. A cirurgia militar \u00e9 muito diferente da cirurgia em tempo de paz. A abordagem a estes doentes \u00e9 completamente diferente. Aprendemos em 2014, quando nos come\u00e7aram a trazer feridos. N\u00e3o tivemos tempo para cursos. O nosso hospital tratou o maior n\u00famero de v\u00edtimas de bombardeamentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto decorrem as elei\u00e7\u00f5es presidenciais russas nos territ\u00f3rios anexados, chega a tr\u00e1gica not\u00edcia da morte de tr\u00eas irm\u00e3os de dois, nove e 14 anos no bairro de Petrovsky, tamb\u00e9m em Donetsk. Um ataque ucraniano durante a noite destruiu a casa por completo. De manh\u00e3, ainda h\u00e1 fumo a sair dos destro\u00e7os. A m\u00e3e, a \u00fanica sobrevivente, era j\u00e1 vi\u00fava, depois de o marido ter morrido em combate em janeiro do ano passado. Esta hist\u00f3ria n\u00e3o abriu qualquer telejornal porque aconteceu no lado controlado pela R\u00fassia. S\u00e3o estas as v\u00edtimas an\u00f3nimas deste conflito e vivem com cicatrizes abertas numa regi\u00e3o que est\u00e1 em guerra h\u00e1 demasiados anos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Prestes a atingir os 10 anos, a guerra no Donbass n\u00e3o d\u00e1 sinais de terminar. Do lado controlado pelas for\u00e7as russas, a Ucr\u00e2nia provoca v\u00edtimas entre os civis praticamente todos os dias.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":7934,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[47],"tags":[],"coauthors":[71],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7933"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7933"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7933\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7936,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7933\/revisions\/7936"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7934"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7933"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7933"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7933"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=7933"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}