{"id":7897,"date":"2024-04-14T19:45:32","date_gmt":"2024-04-14T19:45:32","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=7897"},"modified":"2024-05-03T13:19:10","modified_gmt":"2024-05-03T13:19:10","slug":"o-poder-de-abril","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2024\/04\/14\/o-poder-de-abril\/","title":{"rendered":"O Poder de Abril"},"content":{"rendered":"\n<p>O historiador Manuel Loff&nbsp;sustenta que a mesma Revolu\u00e7\u00e3o que decapitou o poder econ\u00f3mico \u201cnunca triunfou no pa\u00eds todo\u201d. Sem for\u00e7a para influenciar o poder pol\u00edtico, o poder econ\u00f3mico refez-se gradualmente a partir do primeiro governo de Soares e voltou a dominar o poder pol\u00edtico com Cavaco.<\/p>\n\n\n\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o, sustenta o historiador Manuel Loff, \u201ctem v\u00e1rias fases e, \u00e9 evidente que, na sua primeira e segunda fases, at\u00e9 ao 11 de Mar\u00e7o de 1975, ainda se nota o peso do poder econ\u00f3mico, dos setes grandes grupos econ\u00f3micos chamados sete magn\u00edficos (CUF, Esp\u00edrito Santo, Champalimaud, BPA, Borges &amp; Irm\u00e3o, BNU, Fonsecas &amp; Burnay).<\/p>\n\n\n\n<p>Era um poder financeiro, diz ML, \u201ccom liga\u00e7\u00e3o aos investimentos na economia colonial, com um peso central nas pol\u00edticas do salazarismo, pelo menos desde in\u00edcios dos anos 50\u201d. Ramos dos Santos, citado no livro \u201cOs Donos de Portugal\u201d, precisa: Antes do 25 de Abril, a economia \u201cera dominada por 44 fam\u00edlias\u201d detentoras dos sete grupos econ\u00f3micos que \u201cdominariam 300 empresas, incluindo as oito maiores ind\u00fastrias\u201d e \u201cdominantes nos setores b\u00e1sicos, na grande ind\u00fastria de capital intensivo, como na produ\u00e7\u00e3o de bens interm\u00e9dios, na banca comercial, no setor segurador e nos transportes mar\u00edtimos\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Loff situa as duas fases do processo revolucion\u00e1rio, entre o 25 de Abril, a derrota de Sp\u00ednola na quest\u00e3o da descoloniza\u00e7\u00e3o em julho de 74, e o 28 de Setembro\u201d. H\u00e1 depois uma segunda fase que \u00e9 \u201ca perda gradual e o desespero da direita spinolista, at\u00e9 ao 11 de mar\u00e7o de 1975\u201d. Porque justifica, \u201co 28 de setembro e a demiss\u00e3o do Sp\u00ednola d\u00e3o o tom da viragem pol\u00edtica \u00e0 esquerda e do peso que, os movimentos sociais e de contesta\u00e7\u00e3o, tinham cada vez mais\u201d. A burguesia perdeu, sustenta, \u201co controlo do Estado\u201d. E, questiona, \u201cperdendo o controlo do Estado como \u00e9 que um patr\u00e3o enfrenta uma greve?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 ao 11 de Mar\u00e7o, \u201cainda h\u00e1 um forte poder econ\u00f3mico\u201d que, \u201cem perda de influ\u00eancia pol\u00edtica\u201d, organiza \u201cfuga de capitais, fuga de equipamentos, desmantelamento das pr\u00f3prias empresas\u201d. \u201cAquilo que se descreveu como uma sabotagem econ\u00f3mica \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o para salvar o que puder ser salvo e encontrar no ex\u00edlio formas de financiar o 28 de Setembro, o 11 de Mar\u00e7o, e a atividade de operacionais da PIDE e dos setores militares que tinham feito a guerra, (Ka\u00falza, Alpoim Galv\u00e3o, etc.) e estavam dispon\u00edveis para aquilo que ser\u00e1 o golpismo do 28 de Setembro, do 11 de Mar\u00e7o e sobretudo o terrorismo de extrema-direita em 1975\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Portugal, at\u00e9 11 de mar\u00e7o de 1975, refere ML \u201cainda que haja um grande consenso nos programas dos partidos pol\u00edticos que aprovar\u00e3o a constitui\u00e7\u00e3o relativamente ao desmantelamento dos monop\u00f3lios, as nacionaliza\u00e7\u00f5es n\u00e3o tinham avan\u00e7ado\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O pr\u00f3prio PPD de S\u00e1 Carneiro, vinca-se em \u201cOs Donos de Portugal\u201d, emitiu um comunicado no 11 de Mar\u00e7o referindo que a \u201cintentona militar s\u00f3 tinha sido poss\u00edvel porque o saneamento fora insuficiente\u201d e, dias depois, apoiava \u201co decreto nacionalizador\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cDizer que foram os comunistas que for\u00e7aram as nacionaliza\u00e7\u00f5es \u00e9 n\u00e3o perceber o que foram os anos 60 e os anos 70\u201d, sustenta Loff. E lembra as nacionaliza\u00e7\u00f5es de Harold Wilson em 1974, na Gr\u00e3-Bretanha, ou o programa comum da esquerda de Fran\u00e7ois Mitterrand, tamb\u00e9m em 1974, \u201cquando os socialistas j\u00e1 tinham uma representa\u00e7\u00e3o parlamentar superior \u00e0 dos comunistas e tinham um programa baseado em nacionaliza\u00e7\u00f5es\u201d ou na It\u00e1lia governada pela Democracia Crist\u00e3 \u201cininterruptamente, com coliga\u00e7\u00e3o ou sem, entre 1944 e 1992, com um setor empresarial do Estado muito superior ao resultante das nacionaliza\u00e7\u00f5es em Portugal\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Portugal d\u00e1-se uma lenta recomposi\u00e7\u00e3o do capital \u201csobretudo a partir do primeiro governo de M\u00e1rio Soares, que passa pela recomposi\u00e7\u00e3o dos velhos grupos econ\u00f3micos, e pela abertura a novos grupos como a SONAE e o Grupo Amorim\u201d. A partir de Soares, a constitui\u00e7\u00e3o n\u00e3o era respeitada pelos sucessivos governos. No segundo governo cavaquista altera-se a constitui\u00e7\u00e3o e o sistema econ\u00f3mico, \u201cque ainda n\u00e3o era neoliberal, passou a ser com o poder pol\u00edtico a voltar a submeter-se ao poder econ\u00f3mico\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O historiador defende ainda que a Revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 v\u00edtima dos ataques apoiados no estrangeiro, do financiamento dos grandes grupos econ\u00f3micos, mas \u201cperde-se em Portugal\u201d. Porque, explica, \u201ca tese de que a Revolu\u00e7\u00e3o estava ganha e de que h\u00e1 uma inger\u00eancia estrangeira e de que \u00e9 o terrorismo que a derrota, \u00e9 uma tese lisboeta e alentejana. Porque n\u00e3o se lembram do que era o resto do pa\u00eds. A revolu\u00e7\u00e3o nunca triunfou na totalidade do pa\u00eds, muito menos nas ilhas\u201d, concluiu.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se o poder pol\u00edtico sucumbiu na tarde de 25 de Abril de 1974, o que aconteceu com o poder econ\u00f3mico? <\/p>\n","protected":false},"author":90,"featured_media":7898,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[55],"tags":[],"coauthors":[186],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7897"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/90"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7897"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7897\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8034,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7897\/revisions\/8034"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7898"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7897"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7897"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7897"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=7897"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}