{"id":7893,"date":"2024-04-14T19:41:35","date_gmt":"2024-04-14T19:41:35","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=7893"},"modified":"2024-05-03T13:18:16","modified_gmt":"2024-05-03T13:18:16","slug":"4041-a-companhia-que-ligou-a-revolucao-ao-porto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2024\/04\/14\/4041-a-companhia-que-ligou-a-revolucao-ao-porto\/","title":{"rendered":"4041, a Companhia que ligou a Revolu\u00e7\u00e3o ao Porto"},"content":{"rendered":"\n<p>Quando, por volta das 6h30 da manh\u00e3, a Companhia de Comandos chegava ao Campo 24 de Agosto, no Porto, Delgado da Fonseca dava ordens para a montagem de um dispositivo defensivo e preparava-se para dar in\u00edcio \u00e0 execu\u00e7\u00e3o da sua principal tarefa: o assalto e ocupa\u00e7\u00e3o das instala\u00e7\u00f5es da PIDE\/DGS. Ainda assim, e porque n\u00e3o tinha conseguido qualquer liga\u00e7\u00e3o \u201ccom o comando das for\u00e7as amigas\u201d, e face \u00e0 aus\u00eancia de contacto r\u00e1dio, decidiu procurar um telefone civil \u201cna \u00fanica padaria aberta \u00e0quela hora no Bonfim\u201d. O Porto amanhecia sem sobressaltos e a Companhia 4041 j\u00e1 trazia mais de tr\u00eas horas de viagem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Sa\u00edra do Quartel de Santa Cruz, em Lamego, onde aquele conjunto de homens operacionais dispon\u00edveis e prontos para embarcar para a Guin\u00e9, aguardavam a tomada de vacinas que tinham sido estrategicamente retidas por Delgado da Fonseca. Assim que a Emissores Associados de Lisboa transmitia a m\u00fasica de Paulo de Carvalho \u201cE Depois do Adeus\u201d era transmitida aos operacionais a senha, \u201cCoragem\u201d e, contrassenha, \u201cPela Vit\u00f3ria\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ouvida na R\u00e1dio Renascen\u00e7a a m\u00fasica de Zeca Afonso, \u201cGr\u00e2ndola Vila Morena\u201d, \u201cforam acordados os instruendos do Curso de Opera\u00e7\u00f5es Especiais e mandados formar com equipamento e armamento individual completo\u201d, relata Delgado da Fonseca. O Comandante da Companhia de Instru\u00e7\u00e3o dava a ordem de marcha, saindo a forma\u00e7\u00e3o para o escuro da noite em perfeito sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>Tomadas todas as medidas de seguran\u00e7a e de controlo de comunica\u00e7\u00f5es, s\u00f3 \u00e0s 02h30 do dia 25 de abril Delgado da Fonseca acordou o Comandante para lhe comunicar o que iria acontecer, ficando este sob controlo dos militares afetos ao Movimento. Ainda assim o Comandante da Unidade, Tenente-Coronel Sacramento Marques \u00e9 convidado e aceita dar a ordem de partida e desejar boa sorte \u00e0 Companhia. E assim aconteceu.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0s 03h00 da manh\u00e3 a Companhia 4041 seguia a caminho do Porto: Penude, Serra de Bigorne, Cinf\u00e3es, Castelo de Paiva, Entre-os-Rios, Foz do Sousa e finalmente o Porto, Rua do Freixo, Campanh\u00e3, Rua Pinto Bessa, Rua do Bonfim e Campo 24 de Agosto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O Porto amanhecia, as pessoas caminhavam para os empregos. A coluna militar era-lhes completamente indiferente. N\u00e3o havia sinais da Revolu\u00e7\u00e3o, nem nas ruas nem nas comunica\u00e7\u00f5es. Ainda que Delgado da Fonseca soubesse que, segundo o programa de a\u00e7\u00e3o, o Quartel-General j\u00e1 devia ter sido tomado pelas for\u00e7as do Movimento, onde passaria a funcionar o Posto de Comando, n\u00e3o havia sinais de que por ali as coisas tivessem avan\u00e7ado. Apesar da insist\u00eancia n\u00e3o conseguia estabelecer contacto com o Posto de Comando. Os sinais eram de comunica\u00e7\u00e3o cortada. Da Revolu\u00e7\u00e3o apenas tinha tido um pequeno sinal, a leitura de parte de um comunicado na r\u00e1dio, durante a viagem para o Porto.<\/p>\n\n\n\n<p>Decidiu ent\u00e3o ligar para uma das unidades aderentes ao Movimento, o CICA 1 e falar com o comandante da unidade na Rua D. Manuel II, o Tenente-Coronel Azevedo Sim\u00f5es. \u201cDisse-me para seguir de imediato para a sua unidade\u201d, precisava de ser refor\u00e7ada, dada a suspeita de potencial interven\u00e7\u00e3o da GNR, uma amea\u00e7a importante, j\u00e1 que tinha sido refor\u00e7ada com armamento pesado, viaturas blindadas e morteiros.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Azevedo Sim\u00f5es informava ainda Delgado da Fonseca que \u201co Regimento de Infantaria 6 ainda n\u00e3o tinha cumprido a sua miss\u00e3o\u201d. Era um mau sinal. A opera\u00e7\u00e3o \u201cFim de&nbsp;Regime\u201d n\u00e3o tinha chegado ao Porto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Delgado da Fonseca ordenou que a coluna prosseguisse em dire\u00e7\u00e3o ao CICA 1, seguindo pela Rua Passos Manuel, Rua Magalh\u00e3es Lemos, Avenida dos Aliados, Rua dos Cl\u00e9rigos, Rua do Carmo, Rua Dr. Tiago de Almeida e Rua D Manuel II.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A coluna militar atravessava a baixa do Porto, cruzando-se com a popula\u00e7\u00e3o a caminho do trabalho, como se de um dia normal se tratasse. Propositadamente, a coluna passaria na Rua do Carmo, frente ao Comando da GNR, \u201cera um teste\u201d. Delgado da Fonseca conhecia bem o comandante da GNR, o Coronel Jo\u00e3o Pessanha, cuja fam\u00edlia tinha tido problemas com a PIDE. \u201cOs oficiais da GNR e o seu Comandante viriam \u00e0 varanda do primeiro andar, curiosos, mas em atitude pac\u00edfica\u201d, relata Delgado da Fonseca. E era um bom sinal, indicador da neutralidade assumida no Porto por aquela for\u00e7a. J\u00e1 no CICA 1, reunido com o comandante, soube, ao fim da manh\u00e3, \u201cque a opera\u00e7\u00e3o estava a ser bem-sucedida em quase todo o pa\u00eds e que as opera\u00e7\u00f5es iam decorrendo a n\u00edvel nacional conforme o planeado\u201d. Por\u00e9m a situa\u00e7\u00e3o era confusa na Regi\u00e3o Militar do Porto. A Revolu\u00e7\u00e3o parecia ter passado ao lado da segunda cidade do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>O Quartel-General tinha sido tomado na hora marcada por uma companhia de instru\u00e7\u00e3o do CICA I e encabe\u00e7ada pelo Tenente-Coronel Carlos Azeredo e os Majores Corvacho e Nogueira de Albuquerque. Mas, o Posto de Comando continuava sem funcionar, as comunica\u00e7\u00f5es estavam cortadas. J\u00e1 na periferia da cidade \u201cO Regimento de Artilharia Pesada n.\u00ba 2 controlava as pontes sobre o rio Douro, o Regimento de Cavalaria 6 tinha instalado uma for\u00e7a de seguran\u00e7a ao Pal\u00e1cio dos Correios na Avenida dos aliados mas t\u00ea-la-ia recolhido depois por desnecess\u00e1ria; O Batalh\u00e3o de Ca\u00e7adores 9 de Viana do Castelo ocupara e controlara o Aeroporto de Pedras Rubras; O Primeiro Grupo de Companhias de Administra\u00e7\u00e3o Militar da P\u00f3voa do Varzim controlava as pontes sobre o rio C\u00e1vado e a de Vila do Conde\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, o Regimento de Infantaria 6 que deveria ter cumprido v\u00e1rias miss\u00f5es, n\u00e3o tinha ainda mandado sair qualquer for\u00e7a e o Coronel Esmeriz n\u00e3o tinha ocupado, como devia, o Comando da Regi\u00e3o Militar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mais complexo era o Regimento de Infantaria 8 de Braga, \u201ccujos rumores apontavam para que o Comandante estivesse \u00e0 espera de refor\u00e7os vindos de Espanha\u201d para ent\u00e3o avan\u00e7ar em defesa do Regime. Das unidades de Penafiel, Chaves, Vila Real e Bragan\u00e7a n\u00e3o havia not\u00edcias\u201d, relata Delgado da Fonseca.<\/p>\n\n\n\n<p>Na cidade, ao contr\u00e1rio da GNR que se mantinha aquartelada e neutra face \u00e0s movimenta\u00e7\u00f5es, a PSP estava disposta a manter a sua fun\u00e7\u00e3o repressiva: \u201cO comandante da Pol\u00edcia de Seguran\u00e7a P\u00fablica [do Porto,] Coronel Santos J\u00fanior, recusava mandar recolher as suas for\u00e7as e amea\u00e7ava mandar carregar sobre qualquer manifesta\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o\u201d. Tamb\u00e9m a Legi\u00e3o Portuguesa estava envolvida em miss\u00f5es de \u201csabotagem a antenas de telecomunica\u00e7\u00f5es, alimenta\u00e7\u00e3o de repetidores e cortes de linhas telef\u00f3nicas\u201d, designadamente neutralizando a central de telefones nos CTT, todas as liga\u00e7\u00f5es do Quartel-General e impedindo que a r\u00e1dio e a televis\u00e3o transmitissem em liga\u00e7\u00e3o com Lisboa\u201d. Era esta sabotagem que isolava a popula\u00e7\u00e3o do Norte do resto do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o as tropas comandadas por Delgado da Fonseca que rep\u00f5em todas as liga\u00e7\u00f5es, prendem o engenheiro que tinha sabotado, ocupam as esta\u00e7\u00f5es de radiodifus\u00e3o, Emissora Nacional, R\u00e1dio Clube Portugu\u00eas, R\u00e1dio Renascen\u00e7a, RTP. Quando a popula\u00e7\u00e3o se apercebe do movimento sai espontaneamente para a rua. O local de concentra\u00e7\u00e3o passou a ser em frente ao Com\u00e9rcio do Porto, onde os jornalistas afixavam nas portas do jornal um cartaz com todos os desenvolvimentos da Revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O Comandante da PSP do Porto, Coronel Santos J\u00fanior, avisa por telefone o Comandante do CICA I que vai carregar sobre a popula\u00e7\u00e3o. Quando o Capit\u00e3o Castro Carneiro sa\u00eda com as suas tropas dos CTT, d\u00e1-se a carga policial. \u00c9 a\u00ed que a multid\u00e3o \u201clevantou em ombros os soldados do CIOE e correu contra os agentes da pol\u00edcia que foram obrigados a retirar e a refugiar-se nas esquadras\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 depois de Marcelo Caetano ter sido deposto e transferido poderes para Ant\u00f3nio de Sp\u00ednola, o Coronel Esmeriz cumpria a sua tarefa. Conclui Delgado da Fonseca: \u201cN\u00e3o consegui explica\u00e7\u00e3o para esta longa aus\u00eancia de a\u00e7\u00e3o de comando por parte dos elementos que montaram o Posto de Comando no QG do Porto. Tendo ocupado as instala\u00e7\u00f5es \u00e0s 3h00 sem qualquer resist\u00eancia, dispondo da Companhia de Pol\u00edcia Militar e das for\u00e7as que levaram do CICA1, n\u00e3o conseguiram estabelecer liga\u00e7\u00f5es operacionais com as Unidades empenhadas. Pareceu-me que a a\u00e7\u00e3o de comando teria tentado neutralizar a opera\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o norte do pa\u00eds at\u00e9 que se verificasse a queda do Governo em Lisboa. Ali\u00e1s s\u00f3 nessa altura \u00e9 que o Coronel Esmeriz foi ocupar o Comando. Ser\u00e1 que tamb\u00e9m no Porto alguns camaradas manobraram para sobrepor a sua estrat\u00e9gia pol\u00edtica ao Programa do Movimento das For\u00e7as Armadas, esperando que em Lisboa o Poder transitasse diretamente de Marcelo Caetano para o General Sp\u00ednola?\u201d. O Porto acertava assim os ponteiros do rel\u00f3gio com a Revolu\u00e7\u00e3o e, como refere o historiador Fernando Rosas, (Revolu\u00e7\u00e3o Portuguesa 1974-1975) o golpe transformou-se \u201cem processo revolucion\u00e1rio de massas (\u2026) o povo passa de espectador a ator, nessa mesma tarde, sem esperar mais\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Companhia de Comandos 4041 estava pronta para seguir para a Guin\u00e9, mas a madrugada do dia 25 de Abril de 1974, acabaria por desvi\u00e1-la para o Porto, cumprindo o plano do Movimento dos Capit\u00e3es, perante o impasse do Posto de Comando instalado no Quartel-General daquela cidade. Coube um papel decisivo ao Capit\u00e3o Delgado da Fonseca acertando no Porto o rel\u00f3gio da Revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":90,"featured_media":7894,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[55],"tags":[],"coauthors":[186],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7893"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/90"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7893"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7893\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8032,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7893\/revisions\/8032"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7894"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7893"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7893"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7893"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=7893"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}