{"id":7820,"date":"2024-03-26T10:42:39","date_gmt":"2024-03-26T10:42:39","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=7820"},"modified":"2024-04-15T08:12:05","modified_gmt":"2024-04-15T08:12:05","slug":"uma-em-cada-dez-desigualdade-saude-e-a-endometriose","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2024\/03\/26\/uma-em-cada-dez-desigualdade-saude-e-a-endometriose\/","title":{"rendered":"Uma em Cada Dez: (Des)Igualdade, Sa\u00fade e a Endometriose"},"content":{"rendered":"\n<p>Mas o panorama portugu\u00eas \u00e9 preocupante. Em Portugal, um dos pa\u00edses da OCDE com menor n\u00famero de anos de vida saud\u00e1vel depois dos 65 anos, o acesso a cuidados de sa\u00fade tem-se deteriorado nos \u00faltimos anos, fruto de desafios demogr\u00e1ficos e epidemiol\u00f3gicos (o envelhecimento da popula\u00e7\u00e3o, o aumento de doen\u00e7as cr\u00f3nicas e aumento da procura de cuidados), mas tamb\u00e9m da degrada\u00e7\u00e3o do SNS, marcado por uma subor\u00e7amenta\u00e7\u00e3o cr\u00f3nica, insatisfa\u00e7\u00e3o crescente da sua for\u00e7a de trabalho e perda de profissionais para o sector privado. Daqui resultam respostas prec\u00e1rias (com pior qualidade e custos mais elevados) e o aprofundamento de desigualdades estruturais. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p>A sa\u00fade \u00e9 uma das dimens\u00f5es onde a desigualdade de g\u00e9nero em Portugal mais se reflecte.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>A sa\u00fade \u00e9 uma das dimens\u00f5es onde a desigualdade de g\u00e9nero em Portugal mais se reflecte. De acordo com um estudo recente da Medis, 53% das portuguesas tem, pelo menos, uma doen\u00e7a diagnosticada, 21% vive mesmo com mais de duas doen\u00e7as e 16% tem um problema de sa\u00fade mental (os homens ficam-se pelos 50%, 11% e 6%, respectivamente). Acrescem disparidades gritantes no acesso \u00e0 sa\u00fade, que afectam particularmente as mulheres, em especial as mais pobres ou pertencentes a minorias. Portugal surge na 23\u00aa posi\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses da UE onde o acesso \u00e0 sa\u00fade \u00e9 mais desigual, com enormes consequ\u00eancias para as mulheres (diagn\u00f3sticos tardios, tratamentos menos eficazes, mais problemas de sa\u00fade f\u00edsica e mental e redu\u00e7\u00e3o da qualidade de vida) e para a sociedade (perda de produtividade, maiores custos e sobrecarga dos servi\u00e7os).<\/p>\n\n\n\n<p>Esta desigualdade \u00e9 agravada pela falta de literacia em sa\u00fade (crucial para a preven\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o de doen\u00e7as e para a procura de cuidados adequados e de forma atempada) e pela desvaloriza\u00e7\u00e3o da sa\u00fade feminina pelo p\u00fablico e pela pr\u00f3pria comunidade m\u00e9dica e cient\u00edfica, plasmada nas diferen\u00e7as hist\u00f3ricas na aten\u00e7\u00e3o e investimento dados a condi\u00e7\u00f5es mais prevalentes ou exclusivas das mulheres \u2013 alguns tipos de cancro, doen\u00e7as auto-imunes, condi\u00e7\u00f5es ginecol\u00f3gicas, reprodutivas e de sa\u00fade materna, problemas da sexualidade feminina, a menopausa ou a endometriose.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p>A endometriose \u00e9 um exemplo cl\u00e1ssico de uma doen\u00e7a feminina absolutamente menosprezada, apesar de muito incapacitante: o seu estudo tem um atraso de 30 a 40 anos. <\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Descrita pela primeira vez no sex. XVII, a endometriose \u00e9 um exemplo cl\u00e1ssico de uma doen\u00e7a feminina absolutamente menosprezada, apesar de muito incapacitante: o seu estudo tem um atraso de 30 a 40 anos. \u00c9 uma patologia cr\u00f3nica, de etiologia difusa, que resulta do migra\u00e7\u00e3o de tecido do endom\u00e9trio para outros \u00f3rg\u00e3os (ov\u00e1rios e trompas, sistema urin\u00e1rio, trato gastrointestinal, cavidade tor\u00e1cica ou mesmo sistema nervoso central). Nesses \u00f3rg\u00e3os, o tecido sofre mudan\u00e7as id\u00eanticas \u00e0s que ocorrem no \u00fatero durante o ciclo menstrual, que provocam dores muito intensas (c\u00edclicas ou cr\u00f3nicas), irregularidades menstruais, fadiga cr\u00f3nica ou outros problemas que dependem da localiza\u00e7\u00e3o das les\u00f5es. H\u00e1 maior probabilidade de outras doen\u00e7as inflamat\u00f3rias (como doen\u00e7a inflamat\u00f3ria intestinal e doen\u00e7a de Crohn) e problemas de sa\u00fade mental, que afectam mais de um ter\u00e7o das mulheres portadoras. A experi\u00eancia de dor cr\u00f3nica pode ainda ter efeitos negativos na sexualidade (muitas vezes vivida com dor) e na capacidade de trabalhar ou de fazer exerc\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p>Estima-se que a endometriose afecte, pelo menos, uma em cada dez mulheres em idade f\u00e9rtil, das quais cerca de metade ter\u00e1 problemas de fertilidade. A doen\u00e7a \u00e9 claramente subdiagnosticada, j\u00e1 que h\u00e1 uma tend\u00eancia para normalizar a dor e mal-estar associados ao per\u00edodo menstrual. As que se queixam <em>demasiado<\/em> s\u00e3o estigmatizadas pelos pr\u00f3prios profissionais de sa\u00fade, s\u00e3o \u201cdemasiado sens\u00edveis\u201d \u00e0 dor. A desvaloriza\u00e7\u00e3o dos sintomas e a falta de t\u00e9cnicas n\u00e3o invasivas de diagn\u00f3stico, a par do acesso dif\u00edcil a consultas de especialidade, n\u00e3o ajuda. Mais de 40% das portuguesas com endometriose demora mais de 10 anos a ser diagnosticada, atraso que se traduz na evolu\u00e7\u00e3o das les\u00f5es e num impacto crescente na sa\u00fade mental e na qualidade de vida. Eu fui diagnosticada com 41 anos de idade, depois de mais de 10 anos de queixas. O grande benef\u00edcio do diagn\u00f3stico foi poder dizer que o tinha: Afinal, n\u00e3o estava louca.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p>Eu fui diagnosticada com 41 anos de idade, depois de mais de 10 anos de queixas. O grande benef\u00edcio do diagn\u00f3stico foi poder dizer que o tinha: Afinal, n\u00e3o estava louca.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Uma vez diagnosticada, a doen\u00e7a exige uma interven\u00e7\u00e3o personalizada e interdisciplinar ao longo da vida. O tratamento, podendo variar em fun\u00e7\u00e3o da localiza\u00e7\u00e3o e extens\u00e3o das les\u00f5es, da intensidade da dor e do desejo de engravidar (as op\u00e7\u00f5es podem incluir medica\u00e7\u00e3o, terapia hormonal ou cirurgia), tem como objectivo o al\u00edvio dos sintomas, mas n\u00e3o a cura \u2013 j\u00e1 que a endometriose tem um car\u00e1cter cr\u00f3nico e recorrente. Aproximadamente 10% a 25% das portadoras que pretendem engravidar necessitar\u00e1 ainda de t\u00e9cnicas de procria\u00e7\u00e3o medicamente assistida (pelo que o diagn\u00f3stico tardio pode ser um problema). Al\u00e9m disso, dado o grau de stress psicol\u00f3gico e problemas de sa\u00fade mental associados, a interven\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica \u00e9 recomendada (por exemplo, para uma melhor gest\u00e3o da dor cr\u00f3nica).<\/p>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos anos, em parte gra\u00e7as aos testemunhos de figuras p\u00fablicas, a visibilidade da endometriose tem vindo a aumentar, e com ela, a investiga\u00e7\u00e3o sobre formas de melhorar o diagn\u00f3stico precoce, desenvolver terap\u00eauticas menos invasivas e entender as causas subjacentes. Em Fran\u00e7a, estuda-se uma metodologia que permitir\u00e1 o diagn\u00f3stico atrav\u00e9s de um teste de saliva. Uma equipa de investigadores escoceses est\u00e1 a desenvolver o primeiro tratamento n\u00e3o hormonal. E na Austr\u00e1lia foi j\u00e1 aprovado um medicamento (caro) que actua n\u00e3o apenas na dor, mas na progress\u00e3o das les\u00f5es. O <a href=\"https:\/\/www.who.int\/news-room\/fact-sheets\/detail\/endometriosis\">aumento do conhecimento sobre o problema<\/a> tem tamb\u00e9m contribu\u00eddo, a passo lento, para diminuir o estigma e facilitar a procura de ajuda.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a estrada \u00e9 longa. Em Portugal, onde existem cerca de 350 mil portadoras, a <a href=\"https:\/\/mulherendo.pt\/\">MulherEndo &#8211; Associa\u00e7\u00e3o Portuguesa de Apoio a Mulheres com Endometriose<\/a> tem lutado pela promo\u00e7\u00e3o do debate p\u00fablico e cient\u00edfico, realizando sess\u00f5es de esclarecimento e forma\u00e7\u00e3o e prestando apoio m\u00e9dico e psicol\u00f3gico. Mas o acesso ao diagn\u00f3stico permanece com enormes atrasos, no quadro de um SNS depauperado de profissionais e especialistas. O acesso a apoio psicol\u00f3gico \u00e9 ainda mais dif\u00edcil (existem pouco mais de 1000 psic\u00f3logos no SNS). Assim, muitas mulheres \u2013 as que podem \u2013 s\u00e3o obrigadas a recorrer ao privado para verem as suas queixas reconhecidas e acederem \u00e0s terap\u00eauticas necess\u00e1rias. Depois do chumbo de diversos projectos de lei e projectos de resolu\u00e7\u00e3o que propunham mais direitos laborais e assistenciais, a \u00faltima legislatura limitou-se a instituir o Dia Nacional da Luta contra a Endometriose, a 1 de Mar\u00e7o. Existem agora v\u00e1rias novas propostas \u201cem cima da mesa\u201d. Aguardemos, ansiosamente, o futuro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A sa\u00fade \u00e9 um direito fundamental e um elemento essencial do desenvolvimento e bem-estar de qualquer sociedade. Um servi\u00e7o p\u00fablico de sa\u00fade vigoroso constitui garantia de cuidados universais e integrados (de promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade e preven\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a, diagn\u00f3stico, tratamento e reabilita\u00e7\u00e3o), atempados e acess\u00edveis a todas as pessoas, independentemente da sua nacionalidade, religi\u00e3o, ideologia, etnia ou situa\u00e7\u00e3o socioecon\u00f3mica.<\/p>\n","protected":false},"author":33,"featured_media":7822,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[51],"tags":[],"coauthors":[113],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7820"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/33"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7820"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7820\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7909,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7820\/revisions\/7909"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7822"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7820"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7820"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7820"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=7820"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}