{"id":7789,"date":"2024-03-12T11:15:31","date_gmt":"2024-03-12T11:15:31","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=7789"},"modified":"2024-04-15T08:14:10","modified_gmt":"2024-04-15T08:14:10","slug":"a-domesticidade-e-as-tentativas-de-libertacao-em-girafas-nos-artistas-unidos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2024\/03\/12\/a-domesticidade-e-as-tentativas-de-libertacao-em-girafas-nos-artistas-unidos\/","title":{"rendered":"A domesticidade e as tentativas de liberta\u00e7\u00e3o em \u201cGirafas\u201d, nos Artistas Unidos"},"content":{"rendered":"\n<p><br>No terra\u00e7o, a Mulher (Eduarda Arriaga), estende a roupa, uma das suas tarefas di\u00e1rias, desde que casou e deixou de trabalhar. Aparece um vendedor (Vicente Wallenstein), senhor Ventura, a \u00fanica personagem a quem \u00e9 atribu\u00eddo um nome (talvez as outrasn\u00e3o possuam essa particulariza\u00e7\u00e3o por simbolizarem o que se passava, na altura, com a maioria dos n\u00facleos familiares), que lhe quer vender uma m\u00e1quina de lavar. Trata-se de uma novidade que vai facilitar o trabalho dom\u00e9stico, deixando-a com tempo para fazer outras coisas, como ir ao cinema. A Mulher escuta Ventura, fascinada. Fala depois da m\u00e1quina ao Marido (Pedro Caeiro), oper\u00e1rio, serralheiro, que anda sempre com a cabe\u00e7a em pensamentos (e que pensamentos ser\u00e3o esses?) que o distraem do trabalho manual, correndo o risco de cortar os dedos.<\/p>\n\n\n\n<p>O casal conversa sobre um poss\u00edvel nome para o filho que ainda n\u00e3o conseguiram ter; a Mulher mostra-se entusiasmada \u00e0 frente do marido. A gravidez n\u00e3o acontece; ela confessa a Ventura que o problema \u00e9 seu. Mais adiante, \u00e9 ainda mais directa com o H\u00f3spede: afirma que o filho n\u00e3o quis vir para um mundo onde as coisas est\u00e3o sempre a desaparecer.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 um rapaz (Gon\u00e7alo Norton), que come\u00e7a por aparecer por tr\u00e1s do estendal. N\u00e3o percebemos logo que \u00e9 o Irm\u00e3o da Mulher. Ela trata-o com ternura e alguma condescend\u00eancia. O jovem anda de atacadores presos um ao outro &#8211; preso a uma ideia, atado a um trauma. Desenha e escreve sobre o que v\u00ea. N\u00e3o fala com os outros; fala para si, connosco e para o c\u00e9u. O terra\u00e7o \u00e9 o seu lugar.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O n\u00e3o-dito da opress\u00e3o, e a subtil tentativa de emancipa\u00e7\u00e3o feminina<\/h2>\n\n\n\n<p><br>A mulher est\u00e1 conformada com a vida em fam\u00edlia, apesar de sentirmos uma latente insatisfa\u00e7\u00e3o nas conversas que tem com o H\u00f3spede (Jo\u00e3o Vicente). Existe uma bonita amizade entre os dois. Esses momentos aparecem depois da apresenta\u00e7\u00e3o do trio familiar e de sermos \u201catirados\u201d para uma das cenas mais brilhantes da pe\u00e7a: o actor Jo\u00e3o Vicente na actua\u00e7\u00e3o da sua personagem, num clube nocturno. \u00c9 o momento em que toda a liberdade e liberta\u00e7\u00e3o s\u00e3o poss\u00edveis. Mas existem repres\u00e1lias para o H\u00f3spede, que fala de uma eventual pris\u00e3o durante o espect\u00e1culo e surge com um olho negro, na cena seguinte, em casa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cGirafas\u201d trabalha quest\u00f5es centrais das personagens com subtileza, no n\u00e3o-dito das elipses e nas meias-palavras que entre trocam. Por medo, por discri\u00e7\u00e3o ou submiss\u00e3o. Quando vemos a m\u00e3o ligada do Marido, percebemos que os seus pensamentos o dominaram, e ficou sem dois dedos. A sua frustra\u00e7\u00e3o \u00e9 crescente: sem trabalho, com muito tempo livre em casa e sem filhos, \u00e9 mais austero com a Mulher. Percebe que existe cumplicidade entre ela e o H\u00f3spede; quer que este se v\u00e1 embora do quarto alugado. O que n\u00e3o v\u00ea imagina; o que imagina \u00e9 da ordem do que nunca \u00e9 dito, mas que n\u00e3o existe. Porque o H\u00f3spede abre os campos da imagina\u00e7\u00e3o e do sonho \u00e0 Mulher. Esses s\u00e3o os epis\u00f3dios de \u201cGirafas\u201d em que sentimos que o mundo daquela dona de casa pode ainda outras possibilidades. Ela fuma com ele, ele fala-lhe do sonho de ir para Paris, entrelinhas, da sua situa\u00e7\u00e3o complicada\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>As margens s\u00e3o dif\u00edceis de aceitar. S\u00e3o tamb\u00e9m as personagens supostamente <em>marginais <\/em>quem mant\u00eam as duas fantasias e a esperan\u00e7a. O Irm\u00e3o fala-nos sobre a m\u00e3e, morta por uma bomba. Olha para o c\u00e9u: acredita que \u00e9 de onde vem a luz e de onde regressar\u00e1 a m\u00e3e. \u00c9 nessa ilus\u00e3o &#8211; ou lucidez &#8211; que vai para o terra\u00e7o. As luzes aparecem, e ele desaparece. Queremos acreditar que \u00e9, de facto, \u201co c\u00e9u que o protege\u201d, e que se cumpriu o seu sonho de reencontrar a m\u00e3e. Tal como se cumpre o sonho do H\u00f3spede, de ir para Paris, depois de ganhar a lotaria.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A m\u00e1quina de lavar: o altar que podia ter sido uma liberta\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p><br>A ironia \u00e9 que o casal n\u00e3o precisa de dinheiro para pagar a m\u00e1quina de lavar, que lhe aparece um dia em casa. A resposta \u00e9 a crueldade e o machismo do Marido, que quer que a Mulher devolva aquele presente do antigo H\u00f3spede. O Marido quer destruir a m\u00e1quina, entregar os seus peda\u00e7os ao ferro velho (como se dissesse que \u00e9 \u00e0 morte pertence a amizade que a Mulher tinha come\u00e7ado a aprofundar com outra pessoa). Vai oferecer outra \u00e0 Mulher. <\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00e1quina de lavar \u00e9 o ve\u00edculo da liberta\u00e7\u00e3o feminina face \u00e0s tarefas de casa; \u00e9, em contraponto, fruto do capitalismo e do desejo materialista como substitui\u00e7\u00e3o de outras formas de desejo e liberdade (social, intelectual). Por isso, no final, a Mulher, sem outra sa\u00edda para a sua vida, coloca as velas e a est\u00e1tua de Nossa Senhora, deixadas pelo H\u00f3spede, em cima da m\u00e1quina, fazendo desta um altar. Sem for\u00e7a para se libertar, a solu\u00e7\u00e3o \u00e9 acender aquela pequena luz e rezar. Brutal esvaziamento do<br>sonho e da emancipa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, sabemos que o Irm\u00e3o e o H\u00f3spede foram cumprir o seu \u201cAbril\u201d: no c\u00e9u, e em Paris. Ser\u00e3o eles, as Girafas desta pe\u00e7a?<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cGirafas\u201d \u00e9 de uma sobriedade abissal. Um texto coreografado pela ilumina\u00e7\u00e3o contida, certeira, que vai revelando e velando o que temos de ver, em primeiro plano, sem nunca esconder o \u201cfora de cena\u201d. Uma encena\u00e7\u00e3o em que conseguimos ver os planos, ou seja, puramente cinematogr\u00e1fica. A luz, a dramaturgia e a movimenta\u00e7\u00e3o das personagens estabelecem essa rela\u00e7\u00e3o directa com o cinema. Ainda bem que assim \u00e9.<br>E os actores est\u00e3o magn\u00edficos. Mais uma vez, a casa Artistas Unidos est\u00e1 de parab\u00e9ns.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cGirafas\u201d, pe\u00e7a do dramaturgo contempor\u00e2neo catal\u00e3o Pau Mir\u00f3, em cena at\u00e9 30 de<br \/>\nMar\u00e7o no Teatro da Polit\u00e9cnica (Artistas Unidos), leva-nos para a intimidade de quatro<br \/>\npessoas que vivem na mesma casa, para falar da sociedade silenciosa e opressora dos<br \/>\nanos 50, em Espanha &#8211; com todas as semelhan\u00e7as com o Portugal fascista de ent\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":81,"featured_media":7790,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[48],"tags":[],"coauthors":[177],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7789"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/81"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7789"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7789\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7915,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7789\/revisions\/7915"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7790"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7789"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7789"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7789"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=7789"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}