{"id":7758,"date":"2024-03-05T15:13:54","date_gmt":"2024-03-05T15:13:54","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=7758"},"modified":"2024-03-05T15:13:55","modified_gmt":"2024-03-05T15:13:55","slug":"a-profundidade-kitsch-de-victor-ou-as-criancas-no-poder","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2024\/03\/05\/a-profundidade-kitsch-de-victor-ou-as-criancas-no-poder\/","title":{"rendered":"A profundidade kitsch de \u201cVictor ou as Crian\u00e7as no Poder\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>\u00c9 com ela que somos apresentados a Victor (Henrique Gil), o centro de \u201cVictor ou as Crian\u00e7as no Poder\u201d, pe\u00e7a do poeta e dramaturgo franc\u00eas Roger Vitrac, encenada por Jo\u00e3o Pedro Mamede e co-produzida pelos Artistas Unidos e Os Possessos.<\/p>\n\n\n\n<p>Entramos de rompante num universo kitsch: sal\u00e3o com um enorme p\u00e9 direito destacado pelas paredes, ch\u00e3o com toscos quadrados pretos com esquadria vermelha, mesa com seis cadeiras de linhas direitas, arm\u00e1rio que d\u00e1 nas vistas&#8230; \u00c0 cenografia exc\u00eantrica junta-se o turbilh\u00e3o de excentricidade que \u00e9 Victor. \u00c9 o seu nono anivers\u00e1rio, mas a \u201ccrian\u00e7a\u201d parece-se e age como um adolescente. Trata-se, no fundo, de uma adolesc\u00eancia infantil, tal como infantilizados s\u00e3o quase todos os comportamentos das personagens.<\/p>\n\n\n\n<p>Estamos num n\u00facleo familiar composto tamb\u00e9m pelos pais de V\u00edtor, Charles e \u00c9milie; a amiga Esther (Isabel Costa) e os pais desta, Th\u00e9rese (Mia Tom\u00e9) e Antoine (Rafael Gomes); e um general (Leonardo Garibaldi). O c\u00edrculo dom\u00e9stico fechado permite atestar da profundidade de cada car\u00e1cter, reduzindo-o ao osso. A superficialidade sobressai no modo como se relacionam uns com os outros na intimidade.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Os caprichos que escondem segredos<\/h2>\n\n\n\n<p>O primeiro conflito centra-se na jarra que Victor parte por capricho, acusando Lili e Esther. Todos discutem a banalidade do assunto. Na verdade, o que est\u00e1 em causa s\u00e3o os jogos de poder e as rela\u00e7\u00f5es sub-rept\u00edcias entre as personagens: a m\u00e3e de Esther, Therese, \u00e9 amante do pai de Victor (Andr\u00e9 Pardal); existe um relacionamento especial entre Victor e Antoine; Lili e Esther desejam Victor, mas a m\u00e3e (Ana Amaral) n\u00e3o o larga. Todos querem exercer a lideran\u00e7a nas conversas e tomadas de decis\u00e3o. Esse lugar pertence a Victor, n\u00e3o apenas por ser o aniversariante, mas porque talvez seja o mais inteligente de todos. A velocidade dos discursos e acontecimentos &#8211; de onde est\u00e3o ausentes o sil\u00eancio e a reflex\u00e3o &#8211; acentua o vazio. Se cada um deles parasse, ficaria na ang\u00fastia das perguntas: O que \u00e9 a minha vida? O que estou a fazer entre estas pessoas?<\/p>\n\n\n\n<p>A realidade \u00e9 dif\u00edcil de encarar. Antoine, traumatizado com a guerra, o mais turbulento e inst\u00e1vel, \u00e9 tamb\u00e9m quem se permite ser sincero em rela\u00e7\u00e3o ao se sente. Por\u00e9m, a dificuldade de lidar consigo mesmo f\u00e1-lo sucumbir. \u00c9mile e Charles precisam de tomar uma subst\u00e2ncia alucinog\u00e9nia para falar sobre o adult\u00e9rio. Os sentimentos s\u00e3o escamoteados pelas m\u00e1scaras histri\u00f3nicas que cada um cria de si. S\u00e3o segredos que se escondem, ou que se revelam sem pudor de magoar outros. O que resta, no desfecho, \u00e9 uma tristeza existencialista, num dia de celebra\u00e7\u00e3o, e em que todos est\u00e3o parados numa faixa et\u00e1ria precoce.<\/p>\n\n\n\n<p>No final, perguntamo-nos o porqu\u00ea de tanta apresenta\u00e7\u00e3o de egos e superficialidade entre pessoas que se conhecem. E, \u201cVictor ou as Crian\u00e7as no Poder\u201d \u00e9 tudo menos um texto superficial. O dispositivo dram\u00e1tico trabalha a inconsci\u00eancia de quem n\u00e3o quer pensar profundamente sobre o que quer e o que sente, pois isso pode trazer sofrimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem telem\u00f3veis ou redes sociais, \u201cVictor ou as Crian\u00e7as no Poder\u201d ecoa em todos n\u00f3s. Sempre que ficamos parados na espuma dos dias, evitando pensar sobre o que se passa no mundo, connosco e com os que nos s\u00e3o \u00edntimos. Para, ao retardador, percebermos que a inconsci\u00eancia pode ter consequ\u00eancias que n\u00e3o prevemos.<\/p>\n\n\n\n<p>Nota final para a extraordin\u00e1ria interpreta\u00e7\u00e3o de todos os actores. S\u00e3o eles que d\u00e3o corpo a toda a for\u00e7a e pot\u00eancia de um \u201ct\u00e3o actual\u201d texto de 1928.<\/p>\n\n\n\n<p>Os Artistas Unidos voltam \u00e0 carga com um novo espect\u00e1culo, a 7 de Mar\u00e7o: \u201cGirafas\u201d, do autor catal\u00e3o contempor\u00e2neo Pau Mir\u00f3. Com sempre, vale a pena ir ver.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o \u00e9 habitual o Teatro da Polit\u00e9cnica ter a cl\u00e1ssica cortina que separa o palco da plateia. Quem a move, no in\u00edcio e a cada acto, \u00e9 Lili (Catarina R\u00f4lo Salgueiro), a criada aparece, com um humor subtil, em determinadas situa\u00e7\u00f5es dram\u00e1ticas.<\/p>\n","protected":false},"author":81,"featured_media":7759,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[48],"tags":[],"coauthors":[177],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7758"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/81"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7758"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7758\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7761,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7758\/revisions\/7761"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7759"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7758"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7758"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7758"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=7758"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}