{"id":7742,"date":"2024-03-05T13:00:44","date_gmt":"2024-03-05T13:00:44","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=7742"},"modified":"2024-03-07T12:12:21","modified_gmt":"2024-03-07T12:12:21","slug":"vozes-da-terra-vozes-do-operario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2024\/03\/05\/vozes-da-terra-vozes-do-operario\/","title":{"rendered":"Vozes da terra, vozes dos oper\u00e1rios"},"content":{"rendered":"\n<p>As altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas s\u00e3o uma das express\u00f5es mais nefastas de uma crise ecol\u00f3gica de escala planet\u00e1ria (que inclui a extin\u00e7\u00e3o de biodiversidade, a desfloresta\u00e7\u00e3o, a acidifica\u00e7\u00e3o dos oceanos ou a polui\u00e7\u00e3o por pl\u00e1stico), cujo impacto amea\u00e7a a seguran\u00e7a humana.<\/p>\n\n\n\n<p>A barb\u00e1rie clim\u00e1tica est\u00e1 \u00e0 vista: de acordo com o Relat\u00f3rio S\u00edntese do IPCC, publicado em mar\u00e7o de 2023, entre 3,3 e 3,6 mil milh\u00f5es de pessoas \u201cvivem em contextos altamente vulner\u00e1veis face \u00e0s altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas\u201d. Os eventos meteorol\u00f3gicos e clim\u00e1ticos extremos, como as ondas de calor, as secas prolongadas, a precipita\u00e7\u00e3o extrema e as cheias multiplicam-se e tornar-se-\u00e3o mais frequentes e severos \u00e0 medida que as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas se intensificam.<\/p>\n\n\n\n<p>O m\u00eas de janeiro de 2024 foi o mais quente alguma vez registado, com uma temperatura m\u00e9dia global de 13.14\u00baC. De acordo com o Instituto Portugu\u00eas do Mar e da Atmosfera, em Portugal continental viveu-se o janeiro mais quente dos \u00faltimos 58 anos. Entre os dias 22 e 31, verificou-se a ocorr\u00eancia da onda de calor mais significativa observada no m\u00eas de janeiro, desde 1941.<\/p>\n\n\n\n<p>Perante a barb\u00e1rie, \u00e9 imperativo acertar no diagn\u00f3stico e nas prescri\u00e7\u00f5es. Desde logo, h\u00e1-que desconstruir e repudiar o engodo neoliberal de acordo com o qual os indiv\u00edduos \u2013 os seres humanos em geral \u2013 s\u00e3o simultaneamente respons\u00e1veis pelo desencadeamento e pela resolu\u00e7\u00e3o da crise clim\u00e1tica. Esta narrativa \u00e9 extremamente conveniente, pois dilui responsabilidades, distribuindo-as uniformemente por toda a esp\u00e9cie humana. A humanidade seria, deste modo, uma entidade monol\u00edtica, completamente homog\u00e9nea e, sobretudo, a-hist\u00f3rica.<\/p>\n\n\n\n<p>Comecemos ent\u00e3o por reformular o diagn\u00f3stico: a crise clim\u00e1tica em curso \u00e9 um dos resultados mais devastadores do capitalismo f\u00f3ssil \u2013 um modelo de produ\u00e7\u00e3o alicer\u00e7ado na acumula\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de capital e lucro, no consumo voraz de combust\u00edveis f\u00f3sseis e no extrativismo de recursos naturais. Esta crise exp\u00f5e uma contradi\u00e7\u00e3o insan\u00e1vel: a expans\u00e3o do sistema capitalista \u2013 que explora, simultaneamente, os trabalhadores e a natureza, dependendo, igualmente, de trabalho reprodutivo n\u00e3o remunerado \u2013 colide com os limites biogeof\u00edsicos do planeta.<\/p>\n\n\n\n<p>As consequ\u00eancias da crise clim\u00e1tica s\u00e3o profundamente desiguais, gerando uma situa\u00e7\u00e3o de verdadeira injusti\u00e7a clim\u00e1tica, que se traduz n\u00e3o s\u00f3 na agudiza\u00e7\u00e3o de uma cis\u00e3o geogr\u00e1fica, entre o norte e o sul, mas sobretudo de uma cis\u00e3o de classe, entre o capital e os trabalhadores. Deste modo, a crise clim\u00e1tica deve ser interpretada num quadro de luta de classes, reconhecendo que uma pequena minoria de capitalistas que det\u00eam e controlam os meios de produ\u00e7\u00e3o&nbsp;<em>produzem<\/em>&nbsp;altera\u00e7\u00f5es profundas no sistema clim\u00e1tico terrestre. Aquilo que pode ser designado por capital f\u00f3ssil, adotando a terminologia de Andreas Malm, e que se refere \u00e0s formas de capital que geram lucro atrav\u00e9s da emiss\u00e3o de di\u00f3xido de carbono.<\/p>\n\n\n\n<p>A par da reformula\u00e7\u00e3o do diagn\u00f3stico da crise clim\u00e1tica, \u00e9 imprescind\u00edvel que imaginemos futuros anticapitalistas e nos empenhemos na constru\u00e7\u00e3o de alternativas radicais, ou seja, necessariamente ecol\u00f3gicas e democr\u00e1ticas. Esse projeto pol\u00edtico \u00e9 sintetizado pelo Ecossocialismo. Em tra\u00e7os gerais, pode ser entendido como uma corrente de pensamento e um movimento pol\u00edtico que procura aliar os princ\u00edpios fundamentais da ecologia \u00e0 cr\u00edtica marxista da economia pol\u00edtica, expurgada das l\u00f3gicas do produtivismo e do extrativismo. A sua ess\u00eancia est\u00e1 contida na c\u00e9lebre frase de Chico Mendes, ambientalista e sindicalista brasileiro: \u201cecologia sem luta de classes \u00e9 jardinagem\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ancorando-se no planeamento democr\u00e1tico ecol\u00f3gico (da produ\u00e7\u00e3o e do investimento p\u00fablico) e no controlo coletivo dos principais meios de (re)produ\u00e7\u00e3o, o Ecossocialismo tem como horizonte a justi\u00e7a social, em harmonia com os limites biogeof\u00edsicos do planeta. Os seus principais atores pol\u00edticos s\u00e3o as classes trabalhadoras urbanas e rurais e os seus sindicatos \u2013 que j\u00e1 carregam o maior fardo da desordem neoliberal \u2013, numa alian\u00e7a com protagonistas de outras lutas socioecol\u00f3gicas. Apenas um movimento popular de massas alicer\u00e7ado na classe trabalhadora poder\u00e1 derrotar o poder arraigado da classe capitalista.<\/p>\n\n\n\n<p>O movimento sindical e o movimento pela justi\u00e7a clim\u00e1tica t\u00eam de se aliar para derrotar o inimigo comum \u2013 o capitalismo f\u00f3ssil \u2013, que coloca os lucros \u00e0 frente das pessoas e do planeta. S\u00f3 o cruzamento destes dois eixos fundamentais \u2013 trabalho e clima \u2013, materializado atrav\u00e9s do Ecossocialismo, poder\u00e1 conquistar o apoio popular e, por conseguinte, o respaldo democr\u00e1tico necess\u00e1rio para combater a crise clim\u00e1tica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A desordem neoliberal desencadeou crises sist\u00e9micas \u2013 socioecon\u00f3mica, ecol\u00f3gica e geopol\u00edtica \u2013 que se justap\u00f5em e refor\u00e7am mutuamente. <\/p>\n","protected":false},"author":119,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[52],"tags":[],"coauthors":[216],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7742"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/119"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7742"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7742\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7775,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7742\/revisions\/7775"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7742"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7742"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7742"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=7742"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}