{"id":7702,"date":"2024-03-05T11:57:57","date_gmt":"2024-03-05T11:57:57","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=7702"},"modified":"2024-03-22T12:26:49","modified_gmt":"2024-03-22T12:26:49","slug":"as-maquinas-de-fazer-ia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2024\/03\/05\/as-maquinas-de-fazer-ia\/","title":{"rendered":"As m\u00e1quinas de fazer IA"},"content":{"rendered":"\n<p>Na d\u00e9cada de 90 do s\u00e9culo passado, Garry Kasparov ficou sempre convencido que existia algo humano por tr\u00e1s do Deep Blue. Nos nossos dias, avan\u00e7os significativos na implementa\u00e7\u00e3o de algoritmos de intelig\u00eancia artificial (IA), s\u00e3o difundidos em campanhas milion\u00e1rias que gritam a supremacia da m\u00e1quina sobre o ser humano. A necessidade de interven\u00e7\u00e3o humana fica, uma vez mais, envolta num nevoeiro de suposi\u00e7\u00f5es de que estes algoritmos,&nbsp;<em>deus ex machina<\/em>, s\u00e3o aut\u00f3nomos e aprendem continuamente usando toda a informa\u00e7\u00e3o no \u00e9ter.<\/p>\n\n\n\n<p>Podemos categorizar os algoritmos em determin\u00edsticos e n\u00e3o determin\u00edsticos. Os primeiros s\u00e3o compostos por uma sequ\u00eancia de rotinas executadas de forma exclusivamente dependente das entradas e a que corresponde uma \u00fanica sa\u00edda. Os algoritmos n\u00e3o determin\u00edsticos consistem em algoritmos com capacidade de se adaptar \u00e0 entrada, estando as rotinas executadas dependentes da entrada actual e de anteriores.<\/p>\n\n\n\n<p>Estes algoritmos s\u00e3o capazes de mimetizar processos de aprendizagem,&nbsp;<em>i. e.<\/em>, a sa\u00edda dos mesmos evolui \u00e0 medida que estes \u201caprendem\u201d com as entradas e, claro, com uma categoriza\u00e7\u00e3o e refer\u00eancias de&nbsp;<em>locus<\/em>&nbsp;externo. Uma sa\u00edda deste sistema, correspondente a uma determinada entrada, ser\u00e1 a mesma contida nos dados de treino com maior correla\u00e7\u00e3o com a nova entrada,&nbsp;<em>i. e.<\/em>, o algoritmo procura no seu treino qual a situa\u00e7\u00e3o mais parecida com a situa\u00e7\u00e3o nova para escolher uma sa\u00edda.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p>O processo de treino destes algoritmos \u00e9 exigente e longe de independente da interven\u00e7\u00e3o humana. <\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Ao contr\u00e1rio do que tem sido sugerido pelas empresas que exploram estes aut\u00f3matos, quando indicam que os mesmos aprendem sozinhos explorando livremente dados dispon\u00edveis na internet ou noutro acervo id\u00eantico, o processo de treino destes algoritmos \u00e9 exigente e longe de independente da interven\u00e7\u00e3o humana. Enormes conjuntos de dados s\u00e3o necess\u00e1rio para se treinar os algoritmos e nenhum surge ou existe de uma forma \u201cnatural\u201d. Suponhamos um algoritmo adaptativo de an\u00e1lise de imagens e a necessidade de o treinar para reconhecer le\u00f5es. Semelhante adapta\u00e7\u00e3o \u2013 aprendizagem &#8211; exige milhares de imagens de le\u00f5es (conjunto de treino). Com as imagens v\u00eam associados v\u00e1rios dados que categorizam a mesma, como onde se encontra o le\u00e3o, o \u00e2ngulo de exposi\u00e7\u00e3o, a escala, etc.<\/p>\n\n\n\n<p>Os GML usam rotinas que sugerem as palavras mais prov\u00e1veis de serem associadas \u00e0s palavras que s\u00e3o introduzidas como entrada do algoritmo. A ferramenta, no entanto, n\u00e3o possui conhecimento, mesmo parecendo que disp\u00f5e a informa\u00e7\u00e3o como se o tivesse. Um exemplo disso s\u00e3o as v\u00e1rias respostas distintas quando a mesma pergunta \u00e9 feita de forma diferente. Isto acontece porque a mesma pergunta articulada com diferentes formula\u00e7\u00f5es vai excitar diferentes tro\u00e7os do modelo, que podem ter sido treinados com dados diferentes e, at\u00e9, contradit\u00f3rios.<\/p>\n\n\n\n<p>As cadeias de produ\u00e7\u00e3o envolvidas s\u00e3o de enorme complexidade e encobrimentos programados. Geralmente, destacam-se os projectistas dos algoritmos, compondo equipas de vasta constitui\u00e7\u00e3o, onde encontramos trabalhadores ligados \u00e0s \u00e1reas da computa\u00e7\u00e3o, matem\u00e1tica, lingu\u00edstica, eletr\u00f3nica, etc. As maquinas que os suportam, unidades de processamento e mem\u00f3ria dependentes da, j\u00e1 em si, vast\u00edssima cadeia de produ\u00e7\u00e3o massiva de semiconductores, que se estende desde a minera\u00e7\u00e3o de terras raras at\u00e9 \u00e0 fabrica\u00e7\u00e3o, atravessando v\u00e1rias geografias e legisla\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p>Estas micro-tarefas s\u00e3o, essencialmente, feitas por trabalhadores em s\u00edtios onde o n\u00edvel de pobreza \u00e9 elevado, garantindo a disponibilidade humana para executar trabalho conforme a necessidade do mercado. <\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Mais escondidos est\u00e3o os milh\u00f5es de trabalhadores envolvidos no treinamento destes algoritmos, atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o e correc\u00e7\u00e3o dos acervos de treino. Confirma\u00e7\u00e3o de interpreta\u00e7\u00e3o de linguagem, correc\u00e7\u00e3o de transcri\u00e7\u00f5es, an\u00e1lise de imagens e fotografias, verifica\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre conte\u00fados, entre muitas outras actividades, constituem milh\u00f5es de horas de trabalho que s\u00e3o divididas em micro-tarefas distribu\u00eddas por milh\u00f5es de trabalhadores n\u00e3o pagos ou pagos abaixo de qualquer defini\u00e7\u00e3o de dignidade. Estas micro-tarefas s\u00e3o, essencialmente, feitas por trabalhadores em s\u00edtios onde o n\u00edvel de pobreza \u00e9 elevado, garantindo a disponibilidade humana para executar trabalho conforme a necessidade do mercado. Num dia, podem-se realizar centenas de micro-tarefas que ocupam, apenas, uma hora de trabalho, uma vez que tudo \u00e9 contabilizado ao segundo, e, em troca de quase nada.<\/p>\n\n\n\n<p>A ind\u00fastria de IA assenta em milh\u00f5es de trabalhadores em condi\u00e7\u00f5es de elevada explora\u00e7\u00e3o, sem qualquer regula\u00e7\u00e3o laboral e pressiona o agravamento de formas de explora\u00e7\u00e3o desumana, como o trabalho infantil. \u00c9 mais um&nbsp;<em>lobby<\/em>, de press\u00e3o pol\u00edtica, para a permanente desestabiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f3mica de na\u00e7\u00f5es inteiras.<\/p>\n\n\n\n<p>Observa-se, essencialmente, que a utiliza\u00e7\u00e3o destas ferramentas constitui uma nova arma de press\u00e3o sobre o valor do trabalho, com alega\u00e7\u00f5es, pouco ou nada subtis, de que as ferramentas de IA criam uma \u201cdeflac\u00e7\u00e3o de trabalho\u201d, sugerindo continuamente a substitui\u00e7\u00e3o de trabalhadores por algoritmos. Na realidade, a maioria da produ\u00e7\u00e3o est\u00e1 muito aqu\u00e9m do necess\u00e1rio. Tal n\u00e3o se deve \u00e0 exist\u00eancia de problemas com as ferramentas, mas para haver qualidade \u00e9 necess\u00e1rio algu\u00e9m que as controle e verifique que a entrada e a sa\u00edda do algoritmo sejam adequadas e traduzidas no aumento de produtividade esperado pela inova\u00e7\u00e3o da t\u00e9cnica. Recentemente, algumas editoras fizeram testes de tradu\u00e7\u00f5es de obras inteiras com resultados desastrosos, verificando-se que a correc\u00e7\u00e3o do texto necessitaria de igual n\u00famero de horas que o trabalho humano. A capacidade de relacionar algumas palavras com os seus modelos de correla\u00e7\u00e3o \u00e9 insuficiente para obter o nexo integral de uma obra liter\u00e1ria inteira.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p>O trabalho de valor para pessoas ser\u00e1 aquele que \u00e9 feito por pessoas, constituindo-se o trabalho da m\u00e1quina como uma mimetiza\u00e7\u00e3o est\u00e9ril do valor humano da cria\u00e7\u00e3o. Esta distin\u00e7\u00e3o \u00e9 forte e ser\u00e1 reproduzida amplamente, criando ferramentas que agudizar\u00e3o a desigualdade e a clivagem de classe.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Fora do dom\u00ednio art\u00edstico, o paradigma mant\u00e9m-se. O trabalho de valor para pessoas ser\u00e1 aquele que \u00e9 feito por pessoas, constituindo-se o trabalho da m\u00e1quina como uma mimetiza\u00e7\u00e3o est\u00e9ril do valor humano da cria\u00e7\u00e3o. Esta distin\u00e7\u00e3o \u00e9 forte e ser\u00e1 reproduzida amplamente, criando ferramentas que agudizar\u00e3o a desigualdade e a clivagem de classe. A produ\u00e7\u00e3o em massa de conte\u00fados intelectuais ser\u00e1 cada vez mais feita por algoritmos IA e a sua vers\u00e3o de qualidade ser\u00e1 produzida por uma elite e para as elites. Imagine-se escolas com m\u00e1quinas a ensinar alunos enquanto as elites frequentam aulas, em escolas, com professores. A produ\u00e7\u00e3o em massa orientada por um crit\u00e9rio editorial e automaticamente enformada com dados pessoais cria tamb\u00e9m a possibilidade de difundir mensagens individualizadas de forma muito eficaz, com utiliza\u00e7\u00f5es t\u00e3o amplas em publicidade como em campanhas de (des)informa\u00e7\u00e3o. A situa\u00e7\u00e3o fica ainda mais interessante percebendo-se a preocupa\u00e7\u00e3o dos gigantes tecnol\u00f3gicos em fazer este controlo da informa\u00e7\u00e3o falsa produzida em larga escala com estas ferramentas, cartelizando um ideal de censura para a retirada de todos os conte\u00fados que n\u00e3o correspondam a crit\u00e9rios de verdade estabelecidos pelos mesmos. Fica assim fechado o ciclo, onde criadores e criaturas s\u00e3o autogeridos segundo crit\u00e9rios pr\u00f3prios.<\/p>\n\n\n\n<p>Ponderar e discutir os m\u00e9ritos destas novas ferramentas e as suas utiliza\u00e7\u00f5es mais ou menos \u00fateis, nem sequer entrando na confusa argumenta\u00e7\u00e3o sobre a singularidade e a eventual extin\u00e7\u00e3o da humanidade, implica assumir, desde j\u00e1, que a deten\u00e7\u00e3o dos algoritmos por um capital com planos bem definidos, funcionar\u00e1, maioritariamente, em prol da acumula\u00e7\u00e3o. A IA n\u00e3o ser\u00e1 s\u00f3 boa para produzir, mas ainda melhor para controlar massivamente. A deflac\u00e7\u00e3o do trabalho \u00e9 isso mesmo, garantir que recursos, antes demasiado onerosos, sejam despendidos em vigil\u00e2ncia de massas e na aglomera\u00e7\u00e3o e interpreta\u00e7\u00e3o de ainda mais dados sobre as pessoas, utilizadores ou n\u00e3o das ferramentas IA. As mesmas n\u00e3o parecem, tamb\u00e9m, prometer uma nova era para a melhor distribui\u00e7\u00e3o da riqueza produzida, pelo que, urgem op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que garantam aquilo que o avan\u00e7o da t\u00e9cnica teima em n\u00e3o melhorar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na d\u00e9cada de 90 do s\u00e9culo passado, Garry Kasparov ficou sempre convencido que existia algo humano por tr\u00e1s do Deep Blue. 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