{"id":7656,"date":"2024-02-07T15:52:46","date_gmt":"2024-02-07T15:52:46","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=7656"},"modified":"2024-02-07T15:52:47","modified_gmt":"2024-02-07T15:52:47","slug":"de-losey-a-matos-silva-as-feridas-da-guerra-e-a-coragem-do-desertor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2024\/02\/07\/de-losey-a-matos-silva-as-feridas-da-guerra-e-a-coragem-do-desertor\/","title":{"rendered":"De Losey a Matos Silva: as feridas\u00a0da guerra e a coragem do desertor"},"content":{"rendered":"\n<p>A Cinemateca Portuguesa apresentou, em Janeiro, uma retrospectiva do realizador Fernando Matos Silva. Juntamente com os trabalhos que fez para cinema e televis\u00e3o, passaram filmes portugueses e internacionais que marcaram o percurso do cineasta. Destaco o dia da programa\u00e7\u00e3o em que apresentou \u201cKing and Country\u201d (1964), de Joseph Losey, e, mais tarde, \u201cActos dos Feitos da Guin\u00e9\u201d (1980), da sua autoria. Ambas as obras t\u00eam como tema a guerra e as suas consequ\u00eancias.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Matos Silva viu o filme de Losey em Londres, quando estudava cinema. \u201cKing and Country\u201d foi alvo de boicote e tentativas de proibi\u00e7\u00e3o na estreia. Losey, v\u00edtima do macarthismo, tinha fugido para Inglaterra, onde continuou a fazer filmes que punham o dedo em v\u00e1rias feridas da humanidade. Em \u201cKing and Country\u201d, um jovem soldado, Hamp (Tom Courtenay), tem de responder pela sua deser\u00e7\u00e3o. Estamos na I Guerra Mundial, e os desertores s\u00e3o alvo de um julgamento militar feito no terreno pelos superiores. A condena\u00e7\u00e3o, mais do que certa, \u00e9 a execu\u00e7\u00e3o. Os desertores s\u00e3o traidores \u00e0 p\u00e1tria, mesmo que simb\u00f3lica e pessoalmente esse seja um acto de coragem e afirma\u00e7\u00e3o de uma posi\u00e7\u00e3o de paz. Hamp tem direito a um advogado, o capit\u00e3o Hargreaves (Dirk Bogarde), que lhe faz perguntas sobre a evas\u00e3o. Vamos percebendo que o soldado s\u00f3 queria ir para casa, depois de tr\u00eas anos na guerra. N\u00e3o consegue continuar a combater. Todos os companheiros de pelot\u00e3o morreram. Hargreaves conclui que Hamp est\u00e1 traumatizado. O m\u00e9dico do pelot\u00e3o nunca o quis tratar devidamente. Durante o julgamento, os seus compatriotas, intolerantes em rela\u00e7\u00e3o aos seus motivos, v\u00eaem-nos sempre um criminoso. Hamp mant\u00e9m-se sereno e firme. \u00c9 o mais humano de todos: n\u00e3o quer continuar na viol\u00eancia e dureza letais da guerra. No momento do fuzilamento, os carrascos disparam, mas Hamp resiste. Hargreaves, que sempre discordou com aquela barb\u00e1rie, aproxima-se e pergunta-lhe: \u201cAinda n\u00e3o acabou?\u201d Quest\u00e3o que reverbera noutras. Ainda n\u00e3o acabou o sofrimento; ainda n\u00e3o acabou a crueldade; ainda n\u00e3o acabou a guerra? \u00c9 preciso matar um homem pacifista, que se p\u00f4s a caminho da sua terra, para dar o exemplo a outros que, acima de tudo, t\u00eam de defender o rei e a p\u00e1tria? \u201cKing and Country\u201d tem 60 anos, e \u00e9, em parte, um espelho do que se passa hoje na sociedade. N\u00e3o \u00e9 apenas nos campos de batalha que a paz \u00e9 ignorada. Tamb\u00e9m \u00e0 nossa volta, por vezes, nos esquecemos dela.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As duras not\u00edcias da guerra colonial<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nunca at\u00e9 \u00e0 estreia, em 1980, de \u201cActos dos Feitos da Guin\u00e9\u201d se tinham dado not\u00edcias t\u00e3o directas da guerra colonial. Matos Silva foca-se no que aconteceu em Guin\u00e9-Bissau, para onde foi destacado entre 1969 e 70. Filma Bolama, aquando da sua chegada, e, simultaneamente, recolhe imagens de arquivo do que se passava no terreno b\u00e9lico. E o que se passava era terr\u00edvel. Vemos soldados portugueses perdidos e aterrorizados, disparando contra o inimigo. Vemos o suposto inimigo, o povo guineense, aterrorizado. Como se os dois lados do conflito n\u00e3o encontrassem raz\u00f5es para combater e perpetuar a guerra. Deparamo-nos com as consequ\u00eancias para os portugueses, que morrem (\u00e0 dist\u00e2ncia escutamos o \u00faltimo suspiro de um jovem) ou ficam brutalmente feridos. Deparamo-nos com as consequ\u00eancias para os guineenses: s\u00e3o muitos os feridos e mutilados pela bomba de Napalm.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Estas imagens documentais alternam com momentos de fic\u00e7\u00e3o. S\u00e3o v\u00e1rias as personagens que os actores Jos\u00e9 Gomes e Virg\u00edlio Massinge v\u00e3o interpretando, para contar a hist\u00f3ria da Guin\u00e9-Bissau: uma hist\u00f3ria de coloniza\u00e7\u00e3o, e da luta pela liberta\u00e7\u00e3o. S\u00e3o ainda lidos textos da \u00e9poca, da luta resistente dos guineenses pela independ\u00eancia; escutamos um narrador que d\u00e1 conta da sua chegada \u00e0quele territ\u00f3rio; e vemos excertos de uma entrevista a Am\u00edlcar Cabral. \u201cActos dos Feitos da Guin\u00e9\u201d \u00e9 um filme \u00edmpar no cinema portugu\u00eas, infelizmente pouco divulgado, que coloca o dedo na grande ferida por sarar da guerra colonial.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Cinemateca Portuguesa apresentou, em Janeiro, uma retrospectiva do realizador Fernando Matos Silva. Juntamente com os trabalhos que fez para cinema e televis\u00e3o, passaram filmes portugueses e internacionais que marcaram o percurso do cineasta. Destaco o dia da programa\u00e7\u00e3o em que apresentou \u201cKing and Country\u201d (1964), de Joseph Losey, e, mais tarde, \u201cActos dos Feitos &hellip; <a href=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2024\/02\/07\/de-losey-a-matos-silva-as-feridas-da-guerra-e-a-coragem-do-desertor\/\" class=\"more-link\">Continue reading <span class=\"screen-reader-text\">De Losey a Matos Silva: as feridas\u00a0da guerra e a coragem do desertor<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":81,"featured_media":7657,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[48],"tags":[],"coauthors":[177],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7656"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/81"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7656"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7656\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7659,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7656\/revisions\/7659"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7657"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7656"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7656"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7656"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=7656"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}