{"id":7631,"date":"2024-02-07T14:19:47","date_gmt":"2024-02-07T14:19:47","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=7631"},"modified":"2024-03-05T11:59:11","modified_gmt":"2024-03-05T11:59:11","slug":"siza-vieira-participacao-e-dialogo-sao-favoraveis-a-qualidade-da-arquitetura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2024\/02\/07\/siza-vieira-participacao-e-dialogo-sao-favoraveis-a-qualidade-da-arquitetura\/","title":{"rendered":"Siza Vieira: \u201cParticipa\u00e7\u00e3o e di\u00e1logo\u00a0s\u00e3o favor\u00e1veis \u00e0 qualidade da arquitetura&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"pergunta\">Sendo n\u00f3s um produto do contexto em que vivemos, o que acha que o influenciou mais no seu trabalho enquanto arquiteto?<\/p>\n\n\n\n<p>Diplomei-me na Escola de Belas-Artes do Porto, sem grande vontade de ser arquiteto. Preferia ser escultor mas, enfim, aconteceu ser arquiteto numa altura em que houve uma grande renova\u00e7\u00e3o na Escola de Belas-Artes do Porto porque entrou um diretor \u2013 uma pessoa extraordin\u00e1ria \u2013, o Mestre Carlos Ramos, que tinha sido recusado pela escola de Lisboa, felizmente para n\u00f3s, e que teve uma influ\u00eancia enorme na evolu\u00e7\u00e3o da escola do Porto porque o professorado estava quase por inteiro na hora da reforma e, assim, ele pode escolher uma nova equipa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Escolheu gente nova, gente que lutava pela modernidade porque n\u00e3o havia, nessa altura, restri\u00e7\u00f5es de concurso. Ele escolheu e escolheu muito bem. Isso era poss\u00edvel na escola do Porto porque estava distante, na periferia. A Escola de Lisboa era mais dif\u00edcil porque estava demasiado pr\u00f3xima do poder e, portanto, entre as duas escolas n\u00e3o havia praticamente rela\u00e7\u00e3o. S\u00f3 mais tarde, e tem a ver com a relativa e for\u00e7ada e n\u00e3o agrad\u00e1vel para o regime, a abertura que houve depois do fim da guerra mundial. Entre as coisas que organizou a Escola de Belas-Artes do Porto, j\u00e1 em associa\u00e7\u00e3o com a de Lisboa, esteve o inqu\u00e9rito da arquitetura portuguesa que era um documento que recolhia o patrim\u00f3nio no Portugal rural, mas tamb\u00e9m um registo das condi\u00e7\u00f5es de vida no interior. Houve equipas de arquitetos, do sul e do norte, que correram o territ\u00f3rio todo, geralmente de lambreta, porque as estradas eram muito m\u00e1s. Fizeram uma recolha muito completa, financiada pelo regime, com a ideia de que se ia fazer a apologia da arquitetura nacional, mas o que acontecia era precisamente o contr\u00e1rio. No fundo, aquele registo \u00e9 a prova de que n\u00e3o existe, pura e simplesmente, uma arquitetura nacional, h\u00e1 diversidade de norte a sul e, portanto, apresenta essa vis\u00e3o n\u00e3o nacionalista do que era a arquitetura portuguesa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Isso teve grande impacto?<\/p>\n\n\n\n<p>Teve. At\u00e9 porque eu entrei, como dizia, sem grande interesse na arquitetura, ou mesmo sem nenhum interesse, olhava mas n\u00e3o via. Aquela nova equipa que encontrei estava a fazer uma renova\u00e7\u00e3o, muito estimulante, muito entusiasmante, na escola, no fundo, fez-me continuar com a arquitetura. E a coisa \u00e9 tal que eu provavelmente sem essa experi\u00eancia, para mim inesperada, n\u00e3o seria arquiteto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Olhando para tr\u00e1s, quais \u00e9 que diria que s\u00e3o as diferen\u00e7as entre ser arquiteto ent\u00e3o e ser arquiteto hoje?<\/p>\n\n\n\n<p>Era diferente. Quer dizer, nessa altura, era uma imposi\u00e7\u00e3o, um controlo do que se fazia no sentido de uma arquitetura nacionalista, como defendia o regime, com um porta-voz, um grande arquiteto mas que optou por essa via, at\u00e9 por influ\u00eancias estrangeiras, que estudou na Alemanha, que era o Ra\u00fal Lino, e que fez como que uma b\u00edblia do que deveria ser a arquitetura portuguesa. Embora diferente dessa ideia unit\u00e1ria de nacionalismo porque ele quando publica o \u201cCasa Portuguesa\u201d, com uns modelos do Minho, do Douro, do Alentejo, etc., n\u00e3o tem essa ideia de unidade de estilo. A dificuldade era, num momento em que havia uma abertura e, portanto, em que mais firmes eram os desejos de um tipo da minha idade e logo de modernidade, isso era combatido. Quem quisesse ir por esses caminhos tinha dificuldades, ou melhor, n\u00e3o tinha pelo menos trabalho p\u00fablico. Era essa a dificuldade. E, evidentemente, no ensino, que \u00e9 um tema que diz muito \u00e0 Voz do Oper\u00e1rio, havia grandes limita\u00e7\u00f5es. Eu lembro-me, por exemplo, que a escola n\u00e3o tinha biblioteca. Esta nova gera\u00e7\u00e3o traz uma grande abertura ao ambiente da escola. Enfim, a atmosfera na escola mudou completamente, ent\u00e3o depois dessa realiza\u00e7\u00e3o do inqu\u00e9rito \u00e0 arquitetura portuguesa houve o in\u00edcio de contactos internacionais. Ou o rein\u00edcio porque tinha havido antes, no tempo anterior ao regime.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Celebramos este ano os 50 anos da&nbsp;revolu\u00e7\u00e3o. Como foi trabalhar nesse tempo?<\/p>\n\n\n\n<p>Bom, isso foi uma lufada de ar fresco. Depois do 25 de Abril, criou-se um departamento chamado SAAL \u2013 Servi\u00e7o Ambulat\u00f3rio de Apoio Local. Isso foi criado quando era secret\u00e1rio de Estado o arquiteto Nuno Portas e havia a organiza\u00e7\u00e3o de brigadas, com um arquiteto diplomado respons\u00e1vel, onde trabalhavam muitos estudantes, os jovens em forma\u00e7\u00e3o na altura. E entre as bases dessa atividade havia, evidentemente, a refer\u00eancia a experi\u00eancias no estrangeiro, sobretudo na Am\u00e9rica do Sul. Ainda outra das ideias bases, era a participa\u00e7\u00e3o como uma preocupa\u00e7\u00e3o que percorria toda a Europa. Havia um ambiente favor\u00e1vel para isso, para a participa\u00e7\u00e3o. E previa a forma\u00e7\u00e3o de associa\u00e7\u00f5es de moradores e a forma\u00e7\u00e3o de brigadas t\u00e9cnicas que, em di\u00e1logo com os representantes dessas popula\u00e7\u00f5es, elaboravam, debatiam os seus projetos, e foi uma experi\u00eancia extraordin\u00e1ria, em que para mim se provou que o di\u00e1logo \u00e9 favor\u00e1vel \u00e0 qualidade da arquitetura.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Durante o processo revolucion\u00e1rio, houve grandes contradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Houve uma grande resist\u00eancia a este programa por parte da direita. Evidentemente, que cuidava dos aspetos que estavam a ser postos em dificuldade, como era, por exemplo, o terreno, o territ\u00f3rio a ser utilizado para habita\u00e7\u00e3o dessas comunidades. Quando j\u00e1 havia, nalguns casos, projetos para realiza\u00e7\u00f5es especulativas imobili\u00e1rias. Portanto, criou-se um choque entre interesses opostos e diferentes. E foi isso que, com os caminhos da pol\u00edtica em Portugal, levou ao cancelamento do projeto SAAL.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Hoje fala-se muito da crise da habita\u00e7\u00e3o.&nbsp;As cidades hoje est\u00e3o menos pensadas&nbsp;em fun\u00e7\u00e3o das pessoas?<\/p>\n\n\n\n<p>Tem que se avaliar de que pessoas porque \u201cas pessoas\u201d \u00e9 muito vago. \u00c9 sempre pensado para pessoas, agora que pessoas \u00e9 outro termo. E de novo, outra vez, n\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m um problema portugu\u00eas, \u00e9 um problema europeu. N\u00e3o se fala em habita\u00e7\u00e3o social. Se reparar, o desenvolvimento do que chamamos arquitetura moderna \u2013 se calhar vamos chamar at\u00e9 h\u00e1 tr\u00eas s\u00e9culos \u2013 caracterizou-se, quer dizer, o seu desenvolvimento pelo prop\u00f3sito de responder a toda a gente, \u00e0s necessidades de toda a gente. J\u00e1 n\u00e3o era s\u00f3 a casa para os ricos, a cidade pensada prioritariamente para o conforto das fam\u00edlias com capacidade econ\u00f3mica, mas para todos. As grandes obras, as obras celebradas dos anos 20 e 30 referem-se a habita\u00e7\u00e3o social, na Alemanha, na Holanda, na B\u00e9lgica, em Fran\u00e7a, em It\u00e1lia tamb\u00e9m e tamb\u00e9m em Portugal aconteceu isso, anos 20\/30. Marques da Silva, o grande arquiteto do Porto do s\u00e9culo XIX fez pelo menos dois conjuntos de habita\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria no Porto, atrav\u00e9s de cooperativas, mais tarde. Isso hoje est\u00e1 em crise, n\u00e3o \u00e9? N\u00e3o se ouve falar. Ouve-se falar do lado da falta, a car\u00eancia na habita\u00e7\u00e3o social, mas realmente a habita\u00e7\u00e3o \u00e9 um problema europeu, pelo menos europeu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Outro dos problemas que enfrentamos&nbsp;hoje \u00e9 o da concentra\u00e7\u00e3o populacional&nbsp;nas grandes cidades como nunca noutros per\u00edodos da hist\u00f3ria. Que consequ\u00eancias pode isto ter no futuro para o&nbsp;desenvolvimento do territ\u00f3rio?<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 se v\u00eaem os efeitos disso, desde os maiores at\u00e9 outros. H\u00e1 uma coisa que \u00e9 a desertifica\u00e7\u00e3o do interior. Portugal, que j\u00e1 \u00e9 um pa\u00eds pequeno, tem uma faixa muito densa e o resto pouco denso. Embora estejam em curso esfor\u00e7os no sentido de ultrapassar essa situa\u00e7\u00e3o, isso leva tempo. Naturalmente que, sem d\u00favida, leva tempo, seja qual for a vontade. Isso traz outras consequ\u00eancias para a agricultura, com o abandono de m\u00e3o-de-obra, etc, com os fogos. Ora, esse \u00e9 um campo de a\u00e7\u00e3o priorit\u00e1rio, conseguir que o territ\u00f3rio seja todo utilizado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Quais s\u00e3o os grandes desafios para&nbsp;a arquitetura?<\/p>\n\n\n\n<p>Os grandes desafios para a arquitetura s\u00e3o ultrapassar esta situa\u00e7\u00e3o em que predomina a l\u00f3gica dos resultados, das vota\u00e7\u00f5es, dos estudos na comunidade europeia. A \u00faltima decis\u00e3o de Portugal foi a de que a obra p\u00fablica \u00e9 obrigatoriamente feita por concurso. De acordo. Mas \u00e9 um concurso entre empreiteiros, n\u00e3o \u00e9 entre arquitetos. Isto mostra a que ponto h\u00e1 um descr\u00e9dito, uma distor\u00e7\u00e3o do papel do arquiteto neste campo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Quando olhamos para as cidades,&nbsp;percebemos a import\u00e2ncia do tecido&nbsp;associativo, das coletividades. E cada vez vemos menos coletividades, muitas delas&nbsp;a fechar, muitas vezes at\u00e9 por causa do&nbsp;problema da habita\u00e7\u00e3o, de facto. Como&nbsp;olha para o movimento associativo?<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 fundamental, mas encontra dificuldades. H\u00e1 o exemplo d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio que tem resistido \u00e0 situa\u00e7\u00e3o. H\u00e1 quantos anos? N\u00e3o s\u00f3 no passado, as dificuldades que teve para se manter e a forma como se manteve, como atualmente tamb\u00e9m ter\u00e1. Mas tem essa for\u00e7a da hist\u00f3ria, n\u00e3o \u00e9?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Vai ser homenageado este ano pel\u2019A Voz&nbsp;do Oper\u00e1rio. O que significa para si esta&nbsp;homenagem?<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 uma grande honra e pergunto-me se a mere\u00e7o, mas \u00e9 uma grande honra e sensibilizou-me muito. Espero que dure pelo menos mais outros 141 anos e se aguente porque continua a ser uma voz a ouvir, e que se ouve.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 no seu atelier, no Porto, que \u00c1lvaro Siza Vieira desfia a mem\u00f3ria numa geografia espessa de ideias. Aos 90 anos, o seu nome emerge como um das grandes figuras da hist\u00f3ria da arquitetura portuguesa. No ano dos 50 anos do 25 de Abril, A Voz do Oper\u00e1rio tomou a decis\u00e3o de homenagear o arquiteto tornando-o s\u00f3cio honor\u00e1rio da institui\u00e7\u00e3o. Na despedida, v\u00e1rios cigarros depois, graceja: \u201cEu tamb\u00e9m gosto muito d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio porque foi fundada por oper\u00e1rios tabaqueiros\u201d.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":7633,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[44],"tags":[],"coauthors":[71],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7631"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7631"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7631\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7707,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7631\/revisions\/7707"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7633"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7631"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7631"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7631"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=7631"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}