{"id":7612,"date":"2024-02-07T13:41:48","date_gmt":"2024-02-07T13:41:48","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=7612"},"modified":"2024-02-07T13:41:49","modified_gmt":"2024-02-07T13:41:49","slug":"emocoes-e-educacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2024\/02\/07\/emocoes-e-educacao\/","title":{"rendered":"Emo\u00e7\u00f5es e Educa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>As emo\u00e7\u00f5es, de pequenos e gra\u00fados, s\u00e3o hoje reconhecidas como tendo um papel mediador fundamental na rela\u00e7\u00e3o educativa que os humanos estabelecem, influenciando o bar\u00f3metro das decis\u00f5es que, de forma mais ou menos racional e ponderada, s\u00e3o tomadas neste processo.<\/p>\n\n\n\n<p>Existe uma imensa variedade de emo\u00e7\u00f5es \u00e0s quais damos nome, contudo, quando tentamos agrup\u00e1-las nas suas formas mais prim\u00e1rias, a ci\u00eancia identifica frequentemente 4 emo\u00e7\u00f5es base, das quais todas as outras decorrem:\u00a0<em>alegria, raiva, tristeza e medo<\/em>. Ao olharmos para a viv\u00eancia humana de cada uma destas emo\u00e7\u00f5es, importa pensar sobre o porqu\u00ea de serem t\u00e3o primordiais, qual a import\u00e2ncia de serem vivenciadas durante a inf\u00e2ncia e qual o papel dos adultos na experi\u00eancia emocional das crian\u00e7as. Outro elemento, muitas vezes negligenciado, \u00e9 o da viv\u00eancia emocional do adulto na rela\u00e7\u00e3o com a crian\u00e7a, particularmente quando assume um papel parental.<\/p>\n\n\n\n<p>Partindo de um princ\u00edpio de efic\u00e1cia de adapta\u00e7\u00e3o ao meio, assumimos que cada uma destas 4 emo\u00e7\u00f5es tem um papel de promo\u00e7\u00e3o da sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie, no contacto com o meio. Experimentemos ent\u00e3o olhar para o papel que, de forma aqui bastante simplificada, cada uma das emo\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas desempenha, na vida da crian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>A&nbsp;<em>alegria<\/em>&nbsp;visa criar comportamentos e condutas que promovam a viv\u00eancia de determinada experi\u00eancia, repetindo-a em novos momentos e oportunidades. Ao sentir alegria, a crian\u00e7a sente-se impelida a repetir a experi\u00eancia, a continuar a viver aquela emo\u00e7\u00e3o, tentando manter-se ligada ao objecto que origina o momento. Quando esse objecto \u00e9 outra pessoa, nomeadamente o pai ou a m\u00e3e, a crian\u00e7a assume, involuntariamente, express\u00f5es corporais e faciais e transmitem uma mensagem de efic\u00e1cia e consequente atra\u00e7\u00e3o, no adulto.<\/p>\n\n\n\n<p>A<em>&nbsp;raiva<\/em>&nbsp;activa frequentemente mecanismos de auto-preserva\u00e7\u00e3o e auto-defesa perante uma experi\u00eancia adversa, servindo de est\u00edmulo a comportamentos de reac\u00e7\u00e3o face ao objecto agressor, na tentativa de cessar activamente essa agress\u00e3o. Quando a crian\u00e7a sente raiva, ela manifesta-se frequentemente numa linguagem corporal que transmite sinais de alerta ao adulto. O choro, gritos, birras, a utiliza\u00e7\u00e3o expansiva do corpo, s\u00e3o formas frequentes de expressar uma raiva que \u00e9 muitas vezes dif\u00edcil de processar por parte do adulto.<\/p>\n\n\n\n<p>A&nbsp;<em>tristeza<\/em>&nbsp;permite vivenciar a perda e a impossibilidade da continuidade de rela\u00e7\u00e3o com um objecto significativo. \u00c9 a emo\u00e7\u00e3o que permite a viv\u00eancia da repara\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria, o&nbsp;<em>aprender a viver sem<\/em>. Quando esta emo\u00e7\u00e3o \u00e9 vivida pela crian\u00e7a, invoca muitas vezes movimentos de aproxima\u00e7\u00e3o e cuidado por parte dos pais, que n\u00e3o poucas vezes sentem o impulso de&nbsp;<em>reparar<\/em>&nbsp;essa perda.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O&nbsp;<em>medo<\/em>, \u00e0 semelhan\u00e7a da raiva, visa invocar e mobilizar para o fim de determinada experi\u00eancia. Contudo, h\u00e1 normalmente uma percep\u00e7\u00e3o de incapacidade em cessar a experi\u00eancia negativa por meios pr\u00f3prios, havendo por isso a tend\u00eancia para adoptar comportamentos de evitamento e\/ou fuga.<\/p>\n\n\n\n<p>Por alguma raz\u00e3o, vimos aprendendo em tempos mais recentes a considerar que as crian\u00e7as pelas quais somos respons\u00e1veis, n\u00e3o devem sentir \u00be desta preciosa b\u00fassola emocional, sendo cada vez mais frequente ver pais que tudo fazem para evitar que os seus filhos sintam medo, tristeza ou raiva. S\u00f3 a alegria parece fazer parte do imagin\u00e1rio da responsabilidade parental, sendo tudo o resto sin\u00f3nimo de incompet\u00eancia e culpa de quem educa. Por vezes, alguns pais desenvolvem uma intoler\u00e2ncia t\u00e3o grande \u00e0 presen\u00e7a destas emo\u00e7\u00f5es na vida dos filhos, que frequentemente desenvolvem rela\u00e7\u00f5es de tens\u00e3o, desconfian\u00e7a e at\u00e9 conflito com os adultos com quem partilham esta responsabilidade, nomeadamente outros familiares e a Escola.<\/p>\n\n\n\n<p>Parece, contudo, haver uma esp\u00e9cie de balan\u00e7a, em claro desequil\u00edbrio, que os adultos criaram dentro de si, ao longo do tempo. Uma balan\u00e7a emocional que pretende querer garantir para os filhos aquilo que est\u00e1 em d\u00e9fice, nos pais. Porque os mesmos pais que s\u00f3 admitem alegria para os filhos, frequentemente experienciam tristeza por n\u00e3o conseguirem corresponder \u00e0s suas expectativas enquanto educadores; raiva porque os outros n\u00e3o correspondem ao esperado ou porque simplesmente a realidade n\u00e3o se dobra \u00e0 fantasia; e o mais profundo e transversal medo. Medo de falhar, medo de fazer sofrer aqueles que mais se ama, medo que outros provoquem sofrimento nos filhos, medo da perman\u00eancia do dano &#8211; potencialmente causado por tudo e por nada &#8211; sempre alimentado pela culpa de n\u00e3o se ser suficientemente bom. Medo de sentir medo. Tr\u00eas quartos de um todo emocional que pouco espa\u00e7o deixa para a alegria parental. A alegria de poder partilhar a vida com as crian\u00e7as que est\u00e3o aqui porque os pais fizeram por isso. A alegria de ver o exemplo que a maioria das crian\u00e7as nos d\u00e1, de como pode ser mais f\u00e1cil sermos capazes de criar la\u00e7os. Parece que vivemos um tempo onde os pais vivem para compensar e equilibrar esta balan\u00e7a que poder\u00e3o ser, afinal, duas \u2013 a sua e a dos filhos.<\/p>\n\n\n\n<p>As crian\u00e7as precisam de sentir medo, raiva e tristeza para aprenderem o mais b\u00e1sico que a vida tem \u2013 a adaptarem-se. Nenhuma crian\u00e7a pode ser saud\u00e1vel, equilibrada e est\u00e1vel, sem que tamb\u00e9m estas emo\u00e7\u00f5es fa\u00e7am parte da sua vida. O papel do adulto \u00e9 o de regular a rela\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as com o mundo, ajudando-as a lidar com o que sentem, sabendo que os adultos estar\u00e3o l\u00e1 para elas. O papel do adulto n\u00e3o \u00e9 evitar, a todo o custo, que as crian\u00e7as sintam uma parte fundamental de si e do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Os adultos precisam de sentir alegria. Alegria na rela\u00e7\u00e3o com os filhos, mas tamb\u00e9m alegria em ser e estar, tamb\u00e9m para si pr\u00f3prios. O primeiro passo talvez passe por fazermos o esfor\u00e7o de n\u00e3o nos projectarmos tanto nos nossos filhos e na experi\u00eancia de mundo &#8211; que \u00e9 a deles, e n\u00e3o \u00e9 a nossa. Fazer esse esfor\u00e7o permitir\u00e1 que comecemos a confundir menos a nossa vida com a deles, e o que sentimos com o que eles sentem. \u00c9 um caminho que exige maturidade e distanciamento, para o qual estarmos rodeados de quem queira, tamb\u00e9m, cuidar de n\u00f3s, ser\u00e1 fundamental.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Olhar para a humanidade a partir de diferentes perspectivas, ajuda-nos a compreender a complexidade que nos caracteriza e torna-se fundamental no processo educativo que nos liga.<\/p>\n","protected":false},"author":29,"featured_media":7613,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[43],"tags":[],"coauthors":[109],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7612"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/29"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7612"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7612\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7615,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7612\/revisions\/7615"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7613"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7612"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7612"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7612"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=7612"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}